Sociedade | 15-06-2019 10:00

Antiga fábrica da Cimianto em Alhandra é uma bomba relógio

Antiga fábrica da Cimianto em Alhandra é uma bomba relógio
AMBIENTE

Especialistas debateram os perigos do amianto e avisam que o assunto “não é uma mariquice”.

O problema é sério e precisa de um olhar mais atento das entidades com responsabilidades do ambiente: a antiga fábrica da Cimianto em Alhandra, que produzia materiais contendo amianto, uma substância cancerígena, é uma bomba relógio ambiental pronta a explodir a qualquer momento e a contaminar todas as povoações à sua volta. Isto se já não o estiver a fazer lentamente. O alerta foi deixado por especialistas na matéria numa sessão pública de esclarecimento realizada em Alverca na tarde de sábado, 8 de Junho, dedicada ao tema do amianto e aos riscos que este comporta para a saúde.

No auditório estavam antigos trabalhadores da empresa e familiares de quem lá trabalhou durante décadas. Todos alertaram para os graves perigos ambientais que existem naquele local. Em particular, destacaram aterros feitos já no fim de vida da empresa, à revelia das normas ambientais, com dezenas de metros de tubagens e condutas de fibrocimento que se partiam nos testes de resistência e que foram sendo enterradas fora dos aterros que tinham telas de segurança, à beira do rio Tejo e que estão em perigo de contaminar as águas e o ar que se respira.

As fibras de amianto são microscópicas e são como milhares de pequenos pedaços de vidro, praticamente indestrutíveis, que se alojam nos pulmões e geram fibroses que degeneram em cancro do pulmão, laringe, esófago e cancro colorectal.

Vários especialistas do painel confessaram a sua preocupação pela situação actual da Cimianto, considerando “muito elevada” a probabilidade de contaminação existente naquele local, agravada pela existência a céu aberto e pelos ventos de norte que, na hora de descontaminar, podem prejudicar a população.

“É uma zona de grande risco e é preciso estarmos muito atentos, por um lado, à prometida descontaminação que está prevista para o local bem como o estado dos aterros e das telas do subsolo. A Cimianto é mesmo muito preocupante devido ao seu passivo ambiental”, alertou João Lourenço, engenheiro e um dos membros do painel que discutiu a problemática.

Em Portugal faltam estudos sobre as mortes provocadas por amianto. Elena Raymundo, pneumologista, notou que entre 2007 e 2012, data do último estudo realizado no país, morreram 231 pessoas em consequência directa do amianto. Mas acredita-se que serão muitas mais pessoas. Por ano registam-se entre 26 a 52 novos casos de doenças associadas a estas fibras.

“O amianto é mais perigoso que o cianeto”

A falta de informação é, para os especialistas, o maior problema do amianto, que existe hoje em praticamente todos os edifícios portugueses anteriores a 2005 e também em produtos secundários, como cortinas, mantas, tapetes e, antes de 2005, produtos de maquilhagem e pó de talco.

“O amianto é mais perigoso que o cianeto e não nos conseguimos livrar dele, só enterrando, porque para o fundir seriam precisas condições superiores a 1.500 graus centígrados. Portugal anda distraído com este problema e falta essa consciência de que este material mata. É um filme de terror”, avisa Jorge Santos, professor licenciado em Química. No país existem 110 mil toneladas de amianto, qualquer coisa como 11 quilos por pessoa.

Pelas suas características – ignífugo, anti-bacteriano, altamente resistente, termicamente isolante – o amianto foi durante décadas usado em milhares de aplicações, sendo a construção a mais evidente. Ainda há quem desconheça os perigos e arranque este material sem protecção. “Já vi avós a arrancar telhas com os netos e a dizer que não faz mal nenhum porque o amianto já existe desde sempre, que é uma mariquice recente, mas não é, é um perigo mortal”, frisou Filipe Antunes, engenheiro responsável por uma firma certificada de remoção deste material.

Actualmente o amianto é removido e encapsulado para posterior envio para aterros certificados de matérias perigosas. “Este problema não passa por empurrar o lixo para debaixo do tapete, algum dia teremos de fazer mais do que apenas enterrar”, alertou Íria Roriz Madeira, arquitecta, que traçou a história e as origens deste material.

Ainda há muito fibrocimento por remover

A Junta de Freguesia de Alverca do Ribatejo e Sobralinho aproveitou a ocasião para dar nota de um levantamento feito em toda a freguesia sobre os locais onde ainda existem placas com amianto e fica no ar a certeza que não é das piores cidades do concelho com esse problema. Os casos identificados dizem respeito a pavilhões desportivos e escolas secundárias, da responsabilidade do Ministério da Educação, mas há registo de amianto também no quartel dos bombeiros da cidade, no pavilhão da escola da Malvarosa e da Chasa e algumas condutas de água. Se ingerido com água o amianto não é um problema, apenas inalado, garantem os especialistas.

“Continuamos a assistir a muitas deposições ilegais de material e telhas com amianto no Bairro do Horácio no Sobralinho e no Adarse em Alverca, temos denunciado o caso às autoridades e numa das situações os infractores foram apanhados”, conta Carlos Gonçalves, presidente da junta.

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