Sociedade | 24-06-2019 07:00

Não há discriminação mas uma vaga num infantário pode desaparecer se o candidato for autista

Não há discriminação mas uma vaga num infantário pode desaparecer se o candidato for autista

Casal de Coruche tem dois filhos com diferentes graus da doença que muitas vezes é uma simples diferença.

Guilherme foi diagnosticado como autista aos dois anos. O que despertou mais a atenção dos pais foi o seu comportamento no supermercado. “Não queria pisar os riscos que separam os mosaicos, no chão. Se pisava uma junção tinha que repetir todo o percurso. Se não o deixássemos, por falta de tempo, chegava a casa a chorar”, lembra a mãe, Cláudia Fragoso.

Havia outros sinais de alerta como a sua obsessão por alinhar os carrinhos por cores, ou escovar os dentes seguindo sempre o mesmo preceito, três vezes do lado direito, três vezes do lado esquerdo. Os pais acharam que não era normal e pediram opinião ao pediatra. Para o clínico tratava-se apenas de uma mania da criança, mas o instinto da mãe dizia que havia algo mais. Os sinais agudizaram-se quando foi introduzida a comida sólida na alimentação de Guilherme que a rejeitou durante muito tempo. “Só queria alimentos líquidos”, conta a mãe. A comida sólida foi introduzida gradualmente e provocava sempre a mesma reacção: uma divisão metódica no prato por ingredientes.

Guilherme tem agora 10 anos, no próximo ano lectivo irá para o 5º ano e, diz a mãe orgulhosamente, “é autónomo desde que entrou na escola. Entrou com seis anos e não precisou de qualquer apoio individualizado ou específico. Tem feito o percurso académico pelos seus próprios mecanismos. Alguns professores nem chegaram a saber que é autista”.

Na escola arranjou os seus próprios estratagemas para interagir com os colegas. Ainda na pré-escola já levava um brinquedo para que fosse o outro a ter curiosidade de vir ter com ele. É em casa, na sua zona de conforto, que Guilherme ainda mostra alguns comportamentos que esconde ou retrai quando está fora, como dividir a comida ou fazer estereotipias (acções repetitivas).

Desde cedo pediu um irmão aos pais, com quem pudesse brincar. Os pais acederam e nasceu o Martim. Agora com quatro anos, Martim foi também diagnosticado com autismo, desde os 18 meses. Os sinais de alerta do Martim foram diferentes. Guilherme fala pelos cotovelos enquanto o irmão mais novo é não-verbal. Se estiver agitado, como não se consegue exprimir verbalmente, pode tornar-se um pouco agressivo.

“Se lhe dizemos não, temos que lhe fazer ver que entendemos o que ele quer. Tenta libertar-se quando o agarramos, tenta morder-se a ele próprio. Tem crises, mas estão controladas e tem sido valiosa a terapia da fala, terapia ocupacional e a natação”, conta Cláudia. Embevecida, a mãe revela que foi o filho mais velho que ensinou o irmão a gatinhar. “O Guilherme é muito protector do Martim. Olha para o irmão e compara o autismo deste com o seu, chegando à conclusão que quase não tem autismo”.

Na realidade há diferentes graus de autismo e o de Martim é o que encaixa melhor nos preconceitos da doença, como o rodar em torno de si próprio. Apesar de não falar, o pequeno Martim reconhece as letras e é uma criança presente. Gosta de fazer pesquisas no Youtube, de forma autónoma, e, conta a mãe, durante algumas semanas após o Festival da Canção colocava o tema de Conan Osiris quando o irmão chegava a casa porque este se riu com a queda do bailarino.

“Raramente brigam”, diz a progenitora, acrescentando que se entendem e são muito amigos. Por vezes os pais verbalizam o que será do futuro de Martim quando já não estiverem cá para tomar conta dele (e se ele não alavancar a autonomia), e Guilherme responde que tomará ele conta do irmão. Um ónus que os pais não querem deixar ao filho mais velho.

Em Almeirim há mais tolerância à diferença

Cláudia e Carlos, com 30 e 34 anos, respectivamente, viveram em Coruche até à altura de o filho mais novo entrar para o jardim-de-infância. Quando entregaram a documentação necessária para o Martim entrar na escola, a única vaga existente deixou de existir. Cláudia, inconformada, apresentou uma queixa no Ministério da Educação. “Apareceu uma vaga, mas chegou duas semanas antes do final do ano lectivo”, conta.

Já conhecia a Unidade de Autismo de Almeirim e decidiram mudar-se para essa cidade, há cerca de um ano. “Há ali um saber fazer e uma atenção que tranquiliza os pais”, refere a mãe.

Desempregada desde que o filho mais novo nasceu, Cláudia não encontra uma função com um horário compatível com as terapias de Martim. O pai, Carlos, conseguiu trabalho no ramo da restauração. Entre horários da restauração, as idas à escola e a vigilância constante sobre o Martim - para que não abra a porta da rua e saia ou ligue o gás do fogão - sobra pouco tempo para o casal que admite ter “meias conversas”, muitas vezes terminadas no dia seguinte.

Apesar de terem ficado sem a família por perto, dizem que se sentem felizes em Almeirim, onde há qualidade de vida e outra tolerância à diferença. “Vim de um sítio onde passava o tempo a pedir desculpa. Peço desculpa, ele não percebeu… peço desculpa, ele é autista… peço desculpa, ele tem que passar à frente porque não consegue esperar numa fila... Aqui em Almeirim dizem-me: não tem que se justificar, é uma criança”, desabafa Cláudia.

“Coruche também tem vários casos, mas os pais ficam muito fechados. Escondem os filhos, há vergonha e não há respostas a nível de concelho. Conhecemos uns pais do Couço que fizeram o mesmo percurso que nós. E há outros a considerar fazê-lo. No entanto há muitos que ainda não aceitaram e ao não aceitarem não conseguem ajudar os filhos. Aceitar é meio caminho”, remata.

Os sonhos individuais ficam pelo caminho, “mas surgem outros”, confessam os pais. Neste momento sonham que os filhos sejam crianças felizes.

O que é o autismo?

O autismo é uma perturbação do desenvolvimento que habitualmente se inicia nos primeiros três anos de vida. A maioria das crianças autistas assemelha-se às outras crianças, mas exibem um comportamento diferente, realizando actividades estranhas e incompreensíveis. Nas formas menos graves de autismo a criança fala e exibe capacidades intelectuais embora possa apresentar perturbações sociais e comportamentais.

Estima-se que o autismo afecte cerca de uma em cada 1000 crianças em idade escolar, em Portugal. Não existe uma causa específica, mas admite-se que o autismo resulte de anomalias na estrutura ou na função do cérebro. O diagnóstico do autismo é difícil e não existe um teste específico. Assenta na observação da criança, das suas competências sociais, verbais e comportamentais, e no modo como evoluem ao longo do tempo.

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