Sociedade | 10-09-2019 14:46

Campanha de Humberto Delgado às presidenciais de 1958 analisada em livro

Campanha de Humberto Delgado às presidenciais de 1958 analisada em livro
Mafalda Borralho da Luz e Luís Mota Figueira, director técnico do Museu Agrícola de Riachos, durante uma visita à Casa Memorial Humberto Delgado em Abril de 2015

A campanha presidencial do ‘General sem Medo’, nascido no Boquilobo, aldeia de Torres Novas, em 1906, foi o tema da tese de mestrado da jornalista Joana Reis e resultou num livro que estará nas livrarias a 13 de Setembro.

Uma campanha americana: Humberto Delgado e as Presidenciais de 1958”, resulta da tese de doutoramento em Ciências da Comunicação da jornalista Joana Reis e recai sobre a investigação do modelo de comunicação política da campanha de Humberto Delgado.

A obra, editada pela Tinta-da-China, é apresentada a 11 de Setembro no Museu da Presidência por José Pacheco Pereira e pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e chega às livrarias na sexta-feira, dia 13.

O entusiasmo vivido em torno da campanha presidencial de Humberto Delgado gerou a percepção de um movimento improvisado, mas a investigadora Joana Reis concluiu que foi profissionalizada e inovadora, recorrendo ao marketing político de inspiração americana.

O curioso é que esta campanha contou com imensos voluntários e essas pessoas tinham um pouco a percepção – uma das coisas que me serviram de fonte foram livros de memórias de pessoas que participaram na campanha – de que era tudo um bocadinho improvisado”, contou à Lusa Joana Reis.

O peso dos voluntários na campanha foi enorme, igualmente uma característica das campanhas nos Estados Unidos da América, mas foi integrado numa “grande organização”.

Joana Reis partiu para a investigação livre de quaisquer percepções, nunca tinha estudado a campanha de Humberto Delgado, apenas com “a ligeira suspeita” de que, tendo o general passado pelos Estados Unidos e contactado com as campanhas de Adlai Stevenson, em 1952, e de Dwight Eisenhower, em 1956, tivesse havido alguma inspiração.

Não só esta inspiração se veio a confirmar, como “durante a investigação houve dois dados essenciais que deitaram por terra a carga de amadorismo da campanha”: a contratação de um fotógrafo oficial da campanha, António Velhote, autor da célebre imagem de Humberto Delgado na praça Carlos Alberto, no Porto, e o papel de Raul Rêgo e Manuel Mendes, dos serviços de imprensa da candidatura.

A contratação do fotógrafo António Velhote – um fotojornalista do Porto que, pela sua participação na campanha seria impedido de voltar a trabalhar em jornais – é um aspecto muito enfatizado por Joana Reis.

Hoje parece uma coisa banal, mas não era compaginável com os tempos que se viviam em Portugal em 1958”, sublinhou, fazendo o contraste para as campanhas dos candidatos do regime.

A candidatura de Humberto Delgado tira partido da imagem do general, cujos materiais de campanha o mostravam fardado, projectando autoridade e estabilidade, quando o regime queria fazer crer que se tratava de um doido.

Essa imagem foi estudadíssima, depois não puderam foi utilizá-la quanto gostariam”, referiu, tendo Humberto Delgado sido proibido de andar fardado.

Tal como na campanha do ‘herói de guerra’ Eisenhower, a candidatura de Humberto Delgado recorre a uma difusão segmentada da mensagem, com material de campanha especialmente dirigido a funcionários públicos, aos jovens e às mulheres.

Humberto Delgado, o ‘General sem Medo’, nasceu no Boquilobo, aldeia de Torres Novas, em 1906, onde tem uma Casa Memorial, um espaço museológico dedicado à sua acção política, sob tutela da Associação de Defesa do Património de Riachos, que continua encerrado para obras há mais de um ano.

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