Sociedade | 11-09-2019 11:38

Bombeiros voluntários são cada vez menos e o futuro é a profissionalização

Bombeiros voluntários são cada vez menos e o futuro é a profissionalização
Existem corpos de bombeiros que fazem recruta conjunta para rentabilizar meios

Por ocasião do Dia Nacional do Bombeiro Profissional, que hoje se assinala, O MIRANTE relembra os relatos que ouviu em 2018 de vários bombeiros da região, com experiência de décadas, que actualmente desempenham cargos de comando. Todos são unânimes: As exigências em termos de sacrifícios da vida pessoal afastam candidatos.

Há umas décadas envergar uma farda de bombeiro dava estatuto social e isso ajudava a atrair candidatos. Actualmente o estatuto social é conseguido mais facilmente de outras formas e além disso os jovens passaram a ter outros interesses e isso, a par da falta de espírito de sacrifício, está a criar uma crise no recrutamento de novos voluntários em muitas corporações de bombeiros da região.
A situação é tão crítica que já há corpos de bombeiros que estão a fazer recrutas conjuntas, para rentabilizar meios e instrutores, perante a diminuição da procura, como acontece, por exemplo, no concelho de Vila Franca de Xira e na zona da Lezíria do Tejo.
Para agravar o problema, dos poucos interessados em entrar para uma recruta, que dura cerca de um ano, cerca de metade desiste antes da sua conclusão e dos que terminam a formação e entram como estagiários para os quartéis, sobram poucos ao fim do primeiro ano.
Em Rio Maior está a iniciar-se uma recruta depois de um ano de interregno por falta de inscrições suficientes. Dos dezoito elementos inscritos, oito desistiram antes da entrevista e de prestarem provas físicas, duas formas de selecção que a corporação decidiu implementar. Pela experiência dos últimos anos, o segundo comandante dos Voluntários de Rio Maior, Luís Coelho, já se dá por satisfeito se destes, houver dois ou três que cheguem a entrar para o quadro activo.
No ano passado os Voluntários de Almeirim juntaram-se aos Municipais de Alpiarça e terminaram recentemente uma recruta conjunta de oito elementos, que estão agora a fazer o estágio com uma duração mínima de três meses.
Aquelas corporações ainda vão conseguindo fazer formação de novos bombeiros com alguma regularidade mas no Cartaxo, nos bombeiros municipais, já só se fazem recrutas de três em três anos, o que leva o comandante, David Lobato, a dizer que o sector tem de ser alterado e que mais de metade dos efectivos das corporações de voluntários têm que ser constituídas por profissionais.
O desinteresse alastra às zonas mais populosas, como acontece em Vila Franca de Xira onde as recrutas já são feitas em conjunto para todas as corporações do concelho. Já não é de agora que o sector deixou de ser apelativo, como refere o comandante de Castanheira do Ribatejo, Mário Batista, devido às exigências que são feitas aos voluntários, falta de incentivos e até às imagens negativas da actuação dos bombeiros, na comunicação social, como admite Hugo Teodoro, comandante dos Municipais de Alpiarça.
Os novos bombeiros quando entram para o quadro activo têm a obrigação mínima de fazer por ano 40 horas de formação e 160 horas de serviço. E a troco de quê? “De uma mão cheia de nada”, refere Luís Coelho de Rio Maior.
As exigências da formação, com horários normalmente em duas ou três noites durante a semana e meio dia ou um dia ao fim-de-semana, durante nove meses ou um ano, leva muitos dos poucos interessados a desistirem.
“Antigamente, como aconteceu comigo, a opção de ir para os bombeiros era uma maneira de sairmos de casa e da alçada dos pais aos 16 ou 17 anos. Actualmente os jovens só podem começar a ajudar a fazer serviços aos 18, o que é desmotivante para quem não atingiu esta idade e anda pelo quartel sem poder fazer nada”, explica.

Alguns quartéis ainda resistem ao desinteresse

Na região há dois corpos de bombeiros - os de Azambuja e de Abrantes - que ainda vão conseguindo cativar novos bombeiros. O comandante de Azambuja, Ricardo Correia, diz que no caso da sua corporação tal facto se deve ao facto de ele tentar adaptar os horários das formações às disponibilidades dos candidatos. O comandante de Abrantes, António Manuel Jesus, considera que a capacidade em cativar novos elementos tem a ver com as zonas geográficas e também com a dinâmica das corporações.
Apesar de reconhecer que há muitas desistências, principalmente no início, o comandante de Abrantes, garante que tem conseguido recrutar em média oito elementos por ano. E destes, sublinha, só dois, no máximo, é que não entram no quadro de voluntários.
Na corporação de Azambuja, com 45 bombeiros no activo, começou em Março e termina em Outubro uma recruta com 14 elementos e até agora nenhum desistiu. E está para começar uma outra com 12 candidatos.

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