Sociedade | 05-11-2019 15:00

Infectados com brucelose andaram meses a receber diagnósticos errados

Infectados com brucelose andaram meses a receber diagnósticos errados
SAÚDE

Administração Regional de Saúde confirma oito casos de brucelose no concelho de Azambuja, com cinco internamentos, mas a população fala em duas dezenas de infectados.

Foram pelo menos oito os casos de brucelose detectados entre 1 de Junho e 7 de Julho no concelho de Azambuja, com especial incidência na freguesia de Aveiras de Cima. A Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo informa que desse número, cinco resultaram em internamento, no Hospital de Vila Franca de Xira e no Hospital de Curry Cabral, em Lisboa. Mas a população de Aveiras de Cima fala em números superiores, detectados a partir de Agosto. “Fazendo contas aos que conheço somos vinte pessoas”, diz Miguel Amaro, de 49 anos, também ele diagnosticado com brucelose.

O surto teve origem no consumo de queijos frescos, feitos a partir de leite de cabra e de forma artesanal numa habitação, na localidade de Vale Coelho, freguesia de Aveiras de Cima. Os queijos, confirma a ARS, eram produzidos e comercializados pelo produtor local, coincidindo ser o dono da exploração de animais.

A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) realizou, em Agosto último, uma investigação, “após comunicação da Autoridade de Saúde de confirmação de doentes com patologia de brucelose”, tal como O MIRANTE já tinha dado nota. E antes, refere esta autoridade em comunicado, já a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) tinha determinado o sequestro e abate dos animais que foram encontrados sem a devida colocação obrigatória de brinco de identificação. A última acção de abate decorreu em Julho.

Depois de fiscalizar o local onde estavam os animais da espécie caprina e onde eram produzidos os queijos, a ASAE instaurou um processo, constituindo cinco indivíduos como arguidos. Foi ainda “verificada a infracção de maus tratos a animais domésticos (cães) pelo risco de propagação de doença, situação esta acompanhada também pela DGAV”, escreve a ASAE em comunicado.

De diagnósticos errados ao internamento

Nas diligências, realizadas há dois meses, foi detectado o local onde eram produzidos os queijos e recolhidas amostras para análise. Mas o surto de brucelose começou antes dessa acção, sem que a população desconfiasse. Uma das doentes diagnosticada com a doença em Agosto começou a apresentar os primeiros sintomas em Abril. Assim sendo, a Brucella, bactéria responsável pelo surto de brucelose em duas freguesias do concelho, está na zona há pelo menos seis meses. O número de casos pode ainda aumentar, já que, informa a ARS, “o período de incubação da doença varia entre um a dois meses, podendo ir até cinco meses”.

Em Agosto, a morte de um homem de 64 anos, na sequência de uma leucemia, detectada depois de estar diagnosticado com a bactéria, desde Julho, alarmou a população. “Não fomos informados para estarmos atentos aos sintomas. Se começaram a aparecer casos deviam ter falado de imediato com as pessoas”, critica Edite Ferreira, diagnosticada com a doença desde Agosto.

Residente em Aveiras de Cima, Edite conta a O MIRANTE que comeu os queijos durante dois meses e que só passados outros tantos é que começou a sentir os primeiros sintomas. “Comecei por ter dores musculares e nas articulações e a sentir fadiga. E só pedi análises específicas, porque soube, em conversa, de um outro caso”, afirma. Esse caso era o de Miguel Amaro que chegou a pesar 55 Kg até começar a receber a medicação certa. Toma oito comprimidos por dia e está de baixa médica desde 4 de Julho.

Internada há dois meses

Maria Adelaide, 60 anos, é uma das doentes que permanece internada, no Hospital Santa Maria, em Lisboa. “Não tem sido uma fase nada fácil. Chegou a perder o andar e a ter dores insuportáveis”. As palavras são do marido, José Pratas, que aguarda a confirmação médica se a esposa vai ter de ser operada a uma deformação na coluna causada pela brucelose.

Até se chegar ao diagnóstico certo, Maria Adelaide percorreu várias unidades de saúde e clínicas privadas, entre Lisboa, Santarém, Vila Franca de Xira, Mafra e Nazaré. De algumas saiu com analgésicos para as dores e medicação para problemas renais. “Se os casos que já estavam diagnosticados tivessem sido divulgados, talvez fosse diferente”, lamenta José Pratas que diz ter gasto mais de dois mil euros em diagnósticos errados.

José Pratas, conta que a mulher começou em Janeiro a consumir os queijos e em Abril a ter febres altas, dores no corpo e a perder peso – oito quilos no total. Os queijos frescos eram comprados a outra pessoa que não o produtor, diz e atira: “Isto é um atentado à saúde pública”.

Autarcas queixam-se de falta de informação

O presidente da Junta de Aveiras de Cima, António Torrão, diz-se preocupado com a situação e a O MIRANTE critica a falta de informação às forças vivas da comunidade para informar a população sobre a doença e as suas formas de transmissão. O autarca considerou ainda que juntas de freguesia e câmaras deviam ter conhecimento detalhado sobre os rebanhos existentes no seu território para que pudessem estar atentos a possíveis incumprimentos legais e serem alertados sempre que a DGAV detectasse uma situação dessas.

O presidente do município, Luís de Sousa, afirmou desconhecer a dimensão do problema, sublinhando que não lhe chegou informação por parte das entidades oficiais. Contactada por O MIRANTE, a ARS de Lisboa e Vale do Tejo atesta que “a unidade de saúde local foi devidamente informada da situação, tendo em conta o período de incubação da doença”.

Transmissão e sintomas

Na descrição da sintomatologia da doença, a DGAV, informa que o risco de contrair brucelose reside no consumo de produtos lácteos feitos a partir de leite cru proveniente de animais infectados, nomeadamente queijo fresco que não sofreu tratamento térmico, pasteurização ou fervura. A doença apresenta uma grande variedade de manifestações clínicas, febre, cansaço, dor de cabeça e nas articulações, dores musculares e sudorese nocturna.

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