Sociedade | 06-11-2019 07:00

Cimpor quer ter maior proximidade e boa convivência com população de Alhandra

Cimpor quer ter maior proximidade e boa convivência com população de Alhandra

Luís Alves Fernandes, CEO da empresa, diz que novo dono da cimenteira quer reforçar marca e está preocupado com o ambiente.

Numa altura em que a Cimpor em Alhandra promoveu uma corrida de atletismo solidária, o administrador da empresa fala das perspectivas da fábrica de cimento e dos casos de poluição. Luís Fernandes diz que a empresa não escamoteia situações que já ocorreram de focos de poluição mas garante que têm sido feitos investimentos para resolver os problemas. O CEO da empresa, desde 2012, salienta nesta entrevista que o novo dono da cimenteira, o grupo turco Oyak, quer reforçar o nome Cimpor e reavivar o sucesso que a marca já teve a nível internacional.

De que forma a Cimpor, uma das maiores empresas do concelho de Vila Franca de Xira, tem contribuído para a comunidade?

Desde 2012, ano em que assumi a unidade de negócios Portugal e Cabo Verde a aposta foi no voluntariado, fazendo obras de beneficência em instituições. Um pouco diferente da relação que havia antigamente. Não tanto como o município gostaria mas foi o possível tendo em conta o contexto do acionista brasileiro, com os problemas que teve. Agora pertencemos a um grupo turco que tem uma perspectiva diferente, no sentido de uma maior proximidade com a comunidade.

Em termos de responsabilidade social da empresa pretendem apoiar instituições financeiramente?

A nossa estratégia, a filosofia do novo accionista, é de que participaremos naquilo que for em benefício das populações, que traga algo para as pessoas. Não é dar dinheiro por dar, mas colaborar em algo que tenha ligação ao nome Cimpor e que a população possa usufruir disso.

Fizeram agora uma prova de atletismo de apoio aos bombeiros de Alhandra. É uma iniciativa para continuar?

É um primeiro passo e para o ano vamos repetir apoiando outra instituição, a par de outras iniciativas. Vamos desenvolver ainda mais as acções de voluntariado envolvendo os nossos colaboradores e até os fornecedores para beneficiar a instituição que mais necessite.

A fábrica de Alhandra tem piscinas e campo de futebol, que foram entretanto cedidos a uma colectividade. Foi uma forma de pouparem nos custos de manutenção?

Poderia correr-se o risco de os equipamentos fecharem completamente. Não temos conhecimentos para gerir este tipo de instalações. Fiz o desafio ao presidente da Sociedade Euterpe Alhandrense porque para a empresa era importante garantir que as instalações tivessem um melhor uso e fossem geridas por quem sabe gerir estes equipamentos, que têm gerado muitos campeões. Esta solução tem corrido muito bem e no nosso ponto de vista será para continuar.

Quais são as perspectivas para a actividade da fábrica de Alhandra?

Com a crise no mercado do cimento em Portugal, que consumia em 2011 onze milhões e meio de toneladas e em 2016 consumia dois milhões e meio, tivemos que nos virar para a exportação para compensar esta redução. Alhandra, pela sua localização, é fundamental para esta estratégia. Têm sido feitos investimentos na fábrica e estão previstos mais para continuar a manter a sua competitividade e tendo em conta as preocupações ambientais. Empresas que não façam investimentos neste campo, tendo em conta as alterações climáticas, vão perder competitividade e podem estar compremetidas.

A fábrica está na malha urbana, entalada entre uma auto-estrada e o Tejo. Isto é bom estrategicamente ou é um problema?

A fábrica nasceu em 1894 porque havia a matéria-prima no rio e nas margens do rio e foi crescendo. A localização é importante para a estratégia de exportação, mas também porque está próximo de Lisboa que é uma zona de grande consumo de cimento.

E como é a convivência com a povoação?

Movimentamos pó de um lado para o outro e às vezes há um incidente ou outro, que não escamoteamos. Estando inseridos numa zona urbana temos de ter todos os cuidados para garantir o bem-estar da população. Temos feito e continuamos a fazer muitos investimentos nas questões ambientais e queremos ter uma boa e sã convivência com a população.

Recuperaram toda a cinta que une a fábrica à pedreira, isso significa que vão voltar a aumentar a produção?

A nossa produção mais que chega para o mercado. Não se prevê um aumento tendo em conta o consumo per capita de cimento em Portugal e na Europa. Há é que apostar em aumentos de eficiência, na economia circular, em combustíveis alternativos.

O projecto de exportações está consolidado?

Estamos num mercado aberto a todos, inclusive fora da Europa onde as cimenteiras não têm as exigências e os custos que temos. Temos que ser competitivos, controlando os custos, nomeadamente na energia. De Alhandra sai cimento para o Reino Unido, Irlanda, África Ocidental e um pouco para a América Latina.

Situações que afectem a população são uma preocupação

Que medidas tem a empresa tomado para controlar a poluição em Alhandra?

Houve uma ou outra situação menos favorável, temos que o reconhecer. Há um plano a cinco anos de fortes investimentos da Cimpor em Alhandra, em actualizações tecnológicas. Qualquer foco de poluição que possa afectar a população é preocupante para nós e é uma prioridade. Com a estratégia de exportação há uns anos fizemos um forte investimento para evitar a poluição.

Que ligação tem a empresa ao poder autárquico?

Há uma excelente relação com o presidente da Câmara de Vila Franca de Xira e com o presidente da Junta de Alhandra. Há um diálogo permanente e queremos ser proactivos.

Mas já tiveram que lidar com situações em que a câmara esteve ao lado das populações na contestação a situações de focos de poluição.

Quando há ruído sobre o tema a câmara questiona-nos. Numa óptica de completa transparência dizemos o que se passou e o que vamos fazer para colmatar as situações anómalas que, felizmente, nos últimos tempos têm sido muito poucas.

Considera que esses episódios foram demasiado politizados? Por exemplo o Bloco de Esquerda já fez vários ataques políticos à fábrica.

Cada um saberá os argumentos que utiliza. Nós sabemos o que fazemos e quando existem problemas assumimo-los, com a certeza que o vamos resolver. O que nos move é que exista a garantia de que a população não seja afectada pela nossa actividade e mantemo-nos à margem dessas polémicas.

Como estão os recursos humanos na empresa, agora que passou a crise?

Houve uma alteração nos recursos humanos, como aconteceu nas várias empresas na fase de crise. Agora estamos numa fase em que temos dificuldade em encontrar pessoas para algumas funções e não somos só nós. Há muita gente que vai sair para a reforma e já estamos a admitir novos colaboradores para o rejuvenescimento da fábrica. Estamos a aproveitar o conhecimento que os mais antigos têm para formarem os mais novos e assim reforçar a equipa de Alhandra.

Não há gente que queira trabalhar ou não há gente com formação para as funções?

Ambas. Já temos tido contacto com a embaixada de Cabo Verde e com a comunidade brasileira para ver a possibilidade de importar mão-de-obra, o que não está a ser fácil. Se calhar há falta de uma estratégia europeia nesta matéria.

A Cimpor foi a primeira fábrica a utilizar o rio Tejo para transportar produtos, o clinquer, em barcaças. Essa estratégia está a ter resultados?

É uma situação benéfica para a empresa. Já conseguimos carregar um navio com cerca de sessenta toneladas de clinquer. Este transporte tem vantagens em termos de custos e em termos ambientais, com menos camiões a circularem e menos poluição atmosférica.

A empresa saiu da bolsa um ano antes de ter sido vendida ao grupo turco Oyak. Foi uma operação para facilitar a venda?

Já fazia parte da estratégia do anterior acionista brasileiro. Ainda estamos numa fase de integração à nova realidade, mas as perspectivas para a Cimpor são de expansão. Este novo acionista está a apostar no nome Cimpor, na marca, e isso é muito importante, porque a empresa já esteve em doze países antes de ter sido adquirida pelos brasileiros da InterCement. É uma marca forte no mercado internacional e a Oyak valoriza isso e a competência técnica que temos em Portugal.

Está a ver um rumo mais dinâmico para a empresa?

O objectivo da Oyak com a aquisição da empresa é a expansão e internacionalização do negócio cimento, porque a Oyak estava limitada à Turquia e a compra da Cimpor foi o primeiro negócio fora desse país.

A imagem da Cimpor estava a cair?

Internamente não teria caído, mas também não teria sido valorizada.

A Cimpor faz co-incineração em Alhandra?

Fazemos co-processamento de resíduos em Alhandra, mas também nas unidades de Souselas e Loulé. É uma solução para tratarmos os resíduos e termos uma forma alternativa de energia que usamos na fábrica, que tem várias vantagens. Uma vantagem ambiental evitando a deposição dos resíduos em aterros, outra em termos de emissões de CO2 e uma vantagem em termos de redução do uso de combustíveis fósseis. Estamos a seguir o que na Europa já se faz há muito tempo.

Garante que há segurança para a população com esta solução?

Temos uma licença que nos obriga a não ultrapassar determinados limites. Somos auditados todos os anos. Daqui posso garantir que não advém problema algum.

Quem é o administrador da Cimpor

Luís Alves Fernandes, CEO da Cimpor Portugal e Cabo Verde, tem 63 anos de idade, é desportista e está na empresa de cimentos há quase quatro décadas. Entrou para a empresa em 1983 para funções na área da engenharia. Ao fim de onze anos foi para a fábrica da empresa em Loulé, de onde é natural, para assumir a responsabilidade pela manutenção, chegando depois a director da fábrica. É até agora o único louletano que dirigiu esta unidade algarvia. De Loulé, Luís Fernandes foi dirigir a fábrica de Alhandra, no concelho de Vila Franca de Xira, onde depois do trabalho treinava karaté, deporto que pratica desde os 16 anos, com o mestre João Carreiro.

O seu percurso foi crescendo ao longo dos anos e esteve cinco anos e três meses no Egipto como director industrial e depois CEO da empresa neste país. Passou pela China e Índia como responsável pela área de negócios. Quando a empresa brasileira InterCement comprou a Cimpor em 2012, Luís Fernandes foi convidado para dirigir a empresa em Portugal e Cabo Verde, funções que iniciou em Setembro desse ano.

Os anos seguintes não foram fáceis devido à crise que se instalou no cimento, a par da crise mundial na economia, que fizeram cair a produção a pique. Ainda não há um ano o grupo turco Oyak adquire a Cimpor Portugal e Cabo Verde, disposto a dar um novo fôlego e dinâmica à empresa, tendo entendido que Luís Fernandes é a pessoa certa para gerir o negócio, devido também à sua larga experiência no sector e na empresa.

O CEO diz que o grupo turco vê como uma vantagem ter um administrador português. “A Oyak sempre disse que a gestão deve ser local respeitando a estratégia do grupo”, realça.

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