Sociedade | 29-11-2019 20:00

“O teatro salvou-me a vida várias vezes”

“O teatro salvou-me a vida várias vezes”

O Círculo Cultural Scalabitano celebrou 65 anos e homenageou fundadores e sócios da Orquestra Típica, do Coro e do Veto Teatro Oficina, que comemorou 50 anos de existência e vai dar nome a uma rotunda da cidade.

“Perdi uma filha com 21 anos. É talvez a maior dor que o ser humano pode sentir. Nunca tinha sentido uma dor assim e nunca mais voltei a sentir. Foi o teatro que me salvou a vida”. As palavras, ditas de olhos embargados fixos no chão, são de Francisco Selqueira, que sempre que pode veste a pele do seu alter ego, o palhaço Cabeça de Nabo, no grupo amador Veto Teatro Oficina.

Em 1973, na altura com 19 anos, foi convidado a ingressar no Veto. E ali permanece até hoje. “O gosto pelo palco nasce connosco”, diz, mas a experiência começou aos 11 anos pela mão da professora Mariana Viegas, mãe do actor Mário Viegas, nas actividades escolares que incluíam as artes teatrais. “Nunca vou esquecer. Foi uma peça de fantoches em que fazia de um velho cego”, recorda entre risos, numa conversa com O MIRANTE, durante o jantar de aniversário dos 65 anos do Círculo Cultural Scalabitano e dos 50 anos do Veto Teatro Oficina, no sábado, 23 de Novembro.

O actor, que tem carteira profissional obtida na companhia Teatro Animação de Setúbal, participou em vários cursos em Portugal e no estrangeiro. Ao mesmo tempo era empregado de escritório em Santarém. “Não estou arrependido, mas tenho pena de ter optado pela estabilidade”, refere. Motivo que sustentou a sua permanência no Veto. “Foi uma forma de conseguir ter o melhor dos dois mundos”, aponta.

Tímido por natureza, algo que não se notou nesta entrevista tal é o entusiasmo com que fala sobre o teatro e a história da sua vida, revela que o Cabeça de Nabo foi totalmente imaginado por si. “É uma autêntica criança, muito inocente, só diz dá-dá. Todos fazem o que querem dele”, descreve.

Francisco Selqueira diz que a entrega que dá a este palhaço o ajudou a ser um bom profissional. “Nunca seria um bom comercial se não fosse o Cabeça de Nabo. É uma terapia que faço enquanto pessoa, que me dá uma preparação incrível para a minha vida social. E o mesmo acontece quando estou no palco: todas as dores desaparecem”. O actor diz mesmo que quando morrer quer ir vestido de palhaço. “É a figura da minha vida”, sublinha.

Da vasta carreira do actor, não é preciso pensar muito para responder à questão: que peça mais o marcou até hoje? “Macbeth... Talvez!”. A resposta sai da sua boca como um tiro. Uma adaptação de Fernanda Narciso, que estreou em 2008. “Eu interpretei Macbeth, que é uma figura oposta daquilo que sou: um ditador, prepotente, um Hitler da Idade Média. De cada vez que ia para o palco tinha que me fechar no camarim durante meia hora para encarnar aquela personagem. Foi a primeira vez que isso me aconteceu. Sinto que nesta peça me superei e até fiquei admirado comigo próprio”.

Actualmente, Francisco Selqueira integra a equipa dos Jograis do Veto e participa na peça de Fernanda Narciso “Na Cidade”, que estreia no dia 29 Novembro, sexta-feira, no Teatro Taborda.

Veto precisa de juventude

Nuno Domingos, fundador e actor do Veto, refere que o grupo precisa de reciclar os actores e as portas estão sempre abertas para os amantes das artes de palco. “Neste momento o Veto está reduzido a cinco ou seis sexagenários. O que tem dado algum fôlego a este grupo são os filhos de alguns de nós que cresceram aqui e ganharam o gosto”.

Nuno Domingos é o mais antigo desde a formação de 1969 e que ainda permanece. O amor ao teatro e a carolice de não querer ver morrer este projecto leva a que o esforço de passar mais horas no Teatro Taborda e de volta de textos para decorar, em detrimento da vida familiar, faça sentido. “O que o Veto tem de diferente é que somos um grupo de amigos verdadeiros, entre os 64 e os 78 anos. Somos uma segunda família, não de sangue mas escolhida a dedo”.

Veto Teatro Oficina vai dar nome a rotunda em Santarém

O grupo Veto Teatro Oficina vai dar nome à rotunda que fica entre a Avenida José Saramago e a Avenida António Maria Batista, perto do presídio de Santarém. A rotunda localiza-se perto da que tem o nome do Círculo Cultural Scalabitano (CCS), junto ao tribunal. A novidade foi dada pelo presidente da direcção do CCS, Eliseu Raimundo, e confirmado pelo presidente da União de Freguesias da Cidade de Santarém, Carlos Marçal.

Durante o jantar, o CCS atribuiu a medalha de sócio honorário a José Ramos, primeiro fundador do Veto, que apesar de não ter comparecido no jantar, foi alvo de rasgados elogios e fortes aplausos. António Júlio e António Oliveira Luís receberam a mesma distinção. O Veto Teatro Oficina recebeu a medalha de honra, pelos seus 50 anos de vida. Carlos Carranca recebeu a medalha de honra a título póstumo.

De realçar ainda a atribuição da medalha de honra do CCS ao administrador do W Shopping de Santarém, Rui Rosa, “pela amizade e generosidade” que tem mostrado ter pelo associativismo da cidade e pelo apoio financeiro que tem dado ao CCS, referiu Eliseu Raimundo.

A distinção de Amigo Ilustre do CCS foi atribuída a Francisco Jerónimo, sócio do CCS há mais de 30 anos e actual presidente do conselho fiscal. Alguns membros do Coro do CCS e da Orquestra Típica Scalabitana foram também distinguidos com a medalha de mérito.

A vice-presidente da câmara de Santarém, Inês Barroso, marcou presença no jantar e referiu-se ao CCS como a Gulbenkian de Santarém.

O sangue novo do Veto

Lia Baptista, Margarida Ferreira e Rafael Raimundo são as mais recentes aquisições do Veto Teatro Oficina. Rafael, de 15 anos, é filho do presidente da direcção do Círculo Cultural Scalabitano, Eliseu Raimundo, e foi praticamente criado no seio do Veto. Desde 2015 que participa como actor no Veto mas não tem dúvidas que o gosto pelo teatro nasce com as pessoas.

Ainda assim, o benjamim do Veto Teatro Oficina, refere que vai optar por uma carreira com mais estabilidade na área das ciências. O jovem já fez de palhaço na peça “O sonho do palhaço Soneca”, em 2018 integrou a peça “Cantando Espalharei” e integra o elenco da nova peça “Na Cidade”. Ambas a frequentar as aulas do curso profissional Artes do Espectáculo – Interpretação, na Escola Dr. Ginestal Machado, Lia Baptista e Margarida Ferreira, de 17 e 18 anos respectivamente, estão há dois anos no Veto. Ambas pretendem seguir para a universidade para o curso de Teatro, e sublinham que os pais apoiam esta decisão. “Ao início não é fácil, até porque este gosto não nasceu comigo. Foi literalmente da noite para o dia, já tinha uns 15 anos quando começei a falar de teatro em casa. Talvez algo que tenha visto e tenha despertado em mim esse click”, refere Margarida Ferreira.

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