Sociedade | 30-11-2019 07:00

Teatro militante de Alves Redol e do grupo Cegada em Alverca

Teatro militante de Alves Redol e do grupo Cegada em Alverca

Teatro Cegada tem em cena Fronteira Fechada, de Alves Redol, um dos escritores mais importantes da literatura portuguesa de todos os tempos. A peça tem um excelente desempenho com destaque para os três actores principais.

Numa altura em que o Governo português decidiu cortar os apoios a muitas companhias de teatro, como é o caso do Cegada, de Alverca, o grupo pôs de pé uma peça de Alves Redol, o escritor português mais emblemático do neo-realismo e, talvez, um daqueles poucos que vai ficar para a posteridade devido a obras como Gaibéus, A Forja, Avieiros, Barranco de Cegos, A Fanga, Barca dos Sete Lemes e Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos, entre muitos outros livros de grande qualidade literária.

Fronteira Fechada não é dos livros mais conhecidos. Mas a peça de teatro é um pouco o espelho da militância na literatura de Alves Redol, que procurava nos seus textos relatar a vida dura dos portugueses das classes mais baixas. A peça, que está em cena no teatro Ildefonso Valério, em Alverca, tem cerca de 90 minutos, sem intervalo, e conta com interpretações de grande qualidade dos actores João Cabral, Marques D’Arede e Susana Sá, os três papéis principais, num conjunto de nove actores em palco.

Fronteira Fechada foi editado postumamente, relata a vida na fronteira entre um “passador” e o seu filho, e um guia de cinco mulheres, de quem usam e abusam aproveitando-se da fragilidade das suas vidas. É uma história cheia de sentido num tempo em que as fronteiras entre países existem cada vez mais, e criam dramas tão semelhantes como os dos anos trinta e seguintes, como é o caso do que se passa no mar mediterrâneo, com os imigrantes dos países mais pobres a quererem emigrar para a Europa e a morrerem afogados.

A Sala Estúdio do teatro Cegada é o lugar ideal para ver uma peça de Alves Redol cheia de frases marcantes de um tempo sempre presente em que o ser humano abusa e é abusado, trafica e é explorado, ganha dinheiro e vende a dignidade, é insensível ao amor mas sabe que é o amor que salva o mundo.

O encenador, Rui Dionísio, diz que teve que cortar algumas partes do texto para que a peça não se alongasse muito no palco. E fez bem. A encenação resulta em pleno e vê-se que tem muito trabalho de palco, os actores têm uma excelente presença, e todos eles têm interpretações que merecem reconhecimento artístico. Esta peça merece uma vida mais longa do que apenas os espectáculos que estão agendados entre 15 de Novembro e 1 de Dezembro, às sextas e sábados à noite e domingos à tarde.

Os cortes do Governo no apoio ao teatro profissional certamente que não vão permitir a digressão da peça quanto mais a sua permanência em palco por mais tempo. Por isso, a encenação de Alves Redol parece premonição: Alves Redol foi, e ainda é, uma das figuras mais importantes da literatura mundial, utilizando a literatura para o combate e a defesa dos trabalhadores e das classes mais desprotegidas. A sua obra não é só disso que fala e trata, mas estão lá todas as vicissitudes de um tempo de injustiças, exploração e totalitarismo ideológico.

Os actores do Cegada, por estar agora em causa a sua continuação como grupo profissional, podem erguer a bandeira da militância cultural na melhor companhia, ainda por cima um autor do concelho (VFX), ali nascido e criado, que em Gaibéus deixou esta epigrafe: “Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso será o que os outros entenderem”. Que melhor companhia para um grupo de actores, e outros profissionais de teatro, ter Alves Redol no palco como companhia para ganhar as lutas políticas e culturais que são de nós todos que também amamos o teatro e somos parte da comunidade?.

À Margem

Cerca de meia centena de militantes da associação Alves Redol, de Vila Franca de Xira, ajudaram a encher o Teatro Estúdio Ildefonso Valério na noite de sexta-feira, dia 22 de Novembro, para mais uma sessão de Fronteira Fechada. Rui Dionísio não deixou escapar a oportunidade de ter na plateia admiradores e militantes da obra de Alves Redol e, antes e depois do espectáculo, fez tudo para os sensibilizar para a importância do teatro na comunidade, a realidade do teatro em Alverca, os cortes do Governo nos apoios à cultura e o Orçamento Participativo da Câmara de Vila Franca de Xira a que o Cegada concorreu.

Logo que o espectáculo terminou, Rui Dionísio saltou para o palco e improvisou uma conversa à volta de Alves Redol, da peça e da oportunidade da encenação. O público ficou nas bancadas, na sua grande maioria, mas só dois ou três é que resolveram interagir. Havia um problema de logística que o grupo não podia resolver: o condutor do autocarro só podia trabalhar até à meia-noite e a peça acabou por voltas das 23h30.

Mesmo assim ainda deu tempo para que os actores voltassem ao palco, onde voltaram a receber aplausos e elogios pelo desempenho.

A afluência de público à sessão de sexta-feira fez com que Eduarda Oliveira trouxesse a bilheteira para a porta do teatro, já que a zona de entrada é minúscula, e a aglomeração cá fora permitiu que o encenador fizesse as honras da casa e saudasse os elementos da associação Alves Redol. Mesmo assim ainda ouvimos reclamar os cinco minutos de atraso com que o espectáculo começou, por parte de um professor do concelho que resolveu ir ao teatro nessa noite, ver uma peça do autor que muito lhe ensinou e admirou nos tempos da sua formação como homem e professor.

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