Sociedade | 28-04-2020 12:30

Professoras de Alcanena contam como é dar aulas na nova Telescola

Professoras de Alcanena contam como é dar aulas na nova Telescola

O #EstudoEmCasa arrancou a 20 de Abril na RTP Memória mas as gravações começaram duas semanas antes, poucos dias depois de a novidade ser anunciada pelo Governo.

Maria Leonilde e Catarina Deboeuf são duas das professoras do Agrupamento de Escolas de Alcanena que dão a cara no pequeno ecrã pela primeira vez.

“A câmara que tiver a luzinha encarnada acesa é a que está a filmar”. Foi com esta indicação que Maria Leonilde Pinto gravou a primeira aula de História do 7º e 8º ano, exibida na segunda-feira, 20 de Abril, na nova Telescola, que veio substituir as aulas presencias devido ao estado de emergência que obrigou ao encerramento das escolas.


“A equipa é simpática, mas deixou-nos completamente à nossa sorte”, refere a O MIRANTE a docente do Agrupamento de Escolas de Alcanena. Houve uma reunião online com o director de programação da RTP Memória e uma outra com uma técnica que informou que não haveria maquilhagem nem cabeleireiro e que cada um poderia vestir-se como bem entendesse, desde que evitasse os padrões pequenos.


Os 33 anos de experiência em sala de aula não deram a Maria Leonilde grande à vontade para enfrentar as câmaras e de cada vez que vai a estúdio para gravar mais duas aulas de 30 minutos os nervos ficam em franja. Depois respira fundo e avança, faz de conta que não está ali ninguém, nem câmaras e a aula corre de feição. “Somos professores e não apresentadores de televisão. Mas foi exactamente por isso que fomos chamados, para transmitir aos alunos o que lhes é familiar num contexto de sala de aula”, explica.
Catarina Deboeuf, a docente de Matemática com a missão de fazer chegar a mensagem da #EscolaEmCasa aos alunos do 7º e 8º ano, confessa que as câmaras não a assustam. A sua preocupação é não haver interacção com os alunos. “Gosto de ver a reacção deles. Habitualmente nas aulas até gosto que me respondam em coro.

Quando ouço poucos a responder é sinal que não entenderam, se ouço muitos está tudo bem. Esta resposta é preciosa para saber se posso avançar na matéria ou se tenho que repetir”, explica a professora com mais de vinte anos de experiência no ensino.


As gravações têm seguido ao ritmo de duas aulas por semana. Quando falámos com Catarina a primeira aula ainda não tinha sido exibida e a professora mostrava-se ansiosa em relação às reacções. “Das minhas colegas de trabalho conto ouvir críticas construtivas. Mas haverá vozes do contra e dessas não conto ouvir nada de bom”, refere acrescentando que esta não é uma situação ideal, mas é muito importante para não ficar desperdiçado e esquecido tudo o que os alunos trabalharam neste ano lectivo.


A primeira aula de História de Maria Leonilde Pinto também foi para o ar já depois da conversa com O MIRANTE. “Não vou ver”, assegurava-nos a professora. “Sou muito crítica de mim própria e sei que vou ver uma quantidade de coisas que não serão fáceis de mudar e podem enervar-me ainda mais. Quando acabarem as gravações vejo tudo”, remata Maria Leonilde confessando que se mostrou muito relutante aquando do convite da directora do agrupamento, Ana Cláudia Cohen, mas grata por ter aceite o desafio e poder contribuir de alguma forma para que os alunos que não têm computador nem Internet possam ter acesso às aulas.

Desafio aceite de imediato pelo agrupamento

“Recebi um telefonema do secretário de Estado da Educação a dizer que tinha um desafio muito grande para me colocar: responsabilizar o agrupamento pelos conteúdos do 7º e 8º anos para o #EstudoEmCasa”, conta a directora do agrupamento, Ana Cláudia Cohen. O desafio foi aceite de imediato e duas horas e alguns telefonemas depois estava formada a equipa que integra mais de três dezenas de professores.


Foram criados grupos de três a quatro professores por disciplina e, entre eles, escolheram os pivôs que têm por missão enfrentar as câmaras. Embora admita que as aulas pela televisão não são a solução ideal, Ana Cláudia Cohen reforça que dadas as circunstâncias são a solução possível e o pior seria não fazer nada. “Não sabemos o que se passa do outro lado. Há alguns alunos que estão sozinhos em casa, outros estão acompanhados mas não têm horários. Depois há também os que sofriam de violência doméstica e continuam a sofrê-la, talvez até com mais intensidade, porque quem as molestava está em casa. O facto de sentirem que está ali alguém [professores] a criar empatia com eles, a puxar por eles, é um conforto”, diz.

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