Sociedade | 20-05-2020 10:00

Tradições do Pego em documentário para valorizar o fandango

Tradições do Pego em documentário para valorizar o fandango

Sérgio Oliveira gostaria que documentário integrasse candidatura do Fandango a Património Imaterial da Unesco.

Sérgio Oliveira vive na Alemanha mas nunca esqueceu as suas raízes. Nasceu no Pego e sempre que pode regressa à terra natal. Em 2013 decidiu produzir um documentário sobre as tradições e a arte do fandango preservados pelo rancho folclórico local, principal embaixador da aldeia do concelho de Abrantes. Para que as futuras gerações saibam como era viver no Pego no início do século XX.

Sérgio Oliveira pretende que o documentário que realizou sobre as tradições do Pego, aldeia do concelho de Abrantes, que inclui a arte do fandango, integre a candidatura dessa dança a Património Imaterial da Humanidade da UNESCO, que a Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo está a preparar. Esse foi um dos principais objectivos quando decidiu produzir um documentário sobre a sua aldeia.


Sérgio nasceu há 47 anos no Pego mas viajou logo para a Alemanha, onde os pais estavam emigrados. Em 1983 os seus pais decidiram regressar definitivamente à aldeia natal. Sérgio tinha 11 anos e aproveitava os tempos livres para passear pela aldeia e conversar com os mais velhos que encontrava pelo caminho. Foi assim que ficou a saber das histórias e tradições do Pego e que o rancho folclórico é o principal embaixador da aldeia. Também integrou o Rancho Folclórico do Pego durante três anos, onde tocou cântaro, castanholas e ferrinhos. Apesar de ser apaixonado pela aldeia onde nasceu decidiu regressar à Alemanha aos 21 anos depois de cumprir o serviço militar. Vive em Dusseldorf desde essa altura.


Casado e com duas filhas, de 23 e 19 anos, nunca esqueceu a sua terra e regressa sempre que pode. Em 2013 começou a pensar que não existiam registos das tradições pegachas e da história do rancho, fundado em 1952. Foi isso que o levou a dar corpo e vida à sua ideia. Preservar e passar às futuras gerações como se vivia no Pego antigamente para as histórias não se perderem no tempo. Contou com a colaboração das pessoas da aldeia e com elementos do rancho que contam no documentário as tradições pegachas.


O documentário tem duas versões, uma apresentada em 2014 e outra concluída em Dezembro de 2019. A montagem inicial do documentário era diferente. Na primeira versão faltavam pormenores sobre o fandango e algumas histórias, por isso decidiu melhorá-la. “Nesta última versão consegui o depoimento do senhor Joaquim Martins, um dos pioneiros do Rancho do Pego, que infelizmente faleceu no dia em que terminei a segunda versão do documentário”, conta a O MIRANTE em entrevista realizada por videochamada.

No Pego o fandango é uma dança de sedução entre homem e mulher

O documentário foi todo produzido por Sérgio, que é técnico comercial de transportes aéreos num aeroporto em Colónia, a 100 quilómetros de casa. Juntou vários dias de folga para poder fazer as filmagens que decorreram no Pego e também na Suíça. “Um dos fandaguistas mais carismáticos que passou pelo Rancho do Pego, Manuel António, vive nos Alpes, e decidi pô-lo a dançar fandango no cimo de uma montanha ao mesmo tempo que Cristina Sousa dançava no Pego. Quis fazer o contraste dos locais para mostrar que em qualquer lado se pode dançar o fandango do Pego”, explica.


O fandango no Pego dança-se de maneira diferente. Enquanto na maioria dos grupos ribatejanos esta dança é entre dois homens, no Pego é uma dança de sedução entre um homem e uma mulher. Segundo o autor do documentário, cada um faz os seus próprios passos de dança. “Quando são pequenos aprendem vendo os mais velhos mas depois sentem a música e criam os seus próprios passos. Essa é a beleza do fandango”, considera.


Sérgio Oliveira pretende realizar um segundo documentário para destacar outras particularidades do Pego como as lendas e as histórias em torno da gastronomia, que é muito rica nessa aldeia do concelho de Abrantes. “Um bom pegacho tem que saber fazer um bom par de migas”, afirma com convicção.

Jovens não encaram o bairrismo do Pego como antigamente

Nos tempos livres Sérgio Oliveira é cantor. Canta ‘covers’ em bares e lançou o seu último álbum de música portuguesa em 2013. Com o duo “Alma Real” concorreu ao Festival da Canção três vezes mas nunca foi seleccionado para a final. Apesar de ser um apaixonado pelo Pego não se conseguiu habituar a fazer da sua aldeia a sua casa para viver. Por isso optou pela Alemanha, onde é tudo mais evoluído e moderno. Mas regressa ao Pego sempre que pode. Diz que quando se reformar vai viver entre a Alemanha e Portugal porque sabe que as filhas não vão deixar o país onde vivem.


Lamenta que os mais jovens já não vivam tanto o bairrismo que sempre existiu no Pego e garante que, no que depender dele, vai fazer tudo para que as tradições prossigam e continuem a passar de geração em geração. “É importante sabermos as nossas raízes e de onde viemos. Foi por isso que fiz o documentário. Para haver um registo histórico das nossas vivências”, conclui.

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