Sociedade | 23-05-2020 18:00

O parto visto pelos olhos de uma doula e de uma enfermeira

O parto visto pelos olhos de uma doula e de uma enfermeira

Nascer é um milagre e tanto pode acontecer em casa como na maternidade do hospital. O MIRANTE conversou com uma doula e uma enfermeira especialista de saúde materna e obstetrícia sobre o parto e como é visto por ambas as profissionais.

Embora não sendo consideradas parteiras, pois não realizam procedimentos médicos como auscultação fetal, aferição de pressão e exame de toque do colo uterino, as doulas têm um papel importante de apoio físico e emocional à mulher em trabalho de parto. O MIRANTE foi conhecer melhor o seu trabalho, antes e depois do parto, e perceber se consideram que o parto hospitalar pode trazer mais riscos do que o parto em casa.


Susana Pereira, uma das poucas doulas em funções na região do Ribatejo, questiona quantas mulheres estão cientes dos riscos das cesarianas e das epidurais. Refere que não é contra nenhum dos procedimentos desde que sejam escolhas informadas e conscientes. Reconhece que as cesarianas salvam vidas e devem ser executadas sempre que o bem-estar estiver em causa, mas ressalva que é importante perceber porque é que o bem-estar não esteve assegurado. Para a doula podem ser múltiplos os factores que fazem a diferença na forma como se lida com o desconforto do parto, mas há um que considera determinante: a relação estreita entre a mente e o corpo. “É o pensamento que precede a emoção e que por sua vez precede o comportamento. Se é a mente que comanda é importante fazer este ciclo: informar - esclarecer - desmistificar - compreender o processo - empoderar. É essa a função da doula”, esclarece.


Susana Pereira garante que continua a haver um endeusamento da figura do médico quando na verdade, explica, “esquecemos que a medicina trata essencialmente da doença, não é da saúde e bem-estar. E estar grávida não é doença”.

Admitindo que quando existe acompanhamento de uma doula o trabalho de parto corre melhor a profissional diz que as pessoas ainda confundem muito uma doula com uma parteira. “Quem tem o mínimo de sensibilidade só se pode sentir grato e com uma alegria desmesurada de cada vez que acompanha um processo de dar à luz”, confessa a profissional, também fotógrafa de partos. "Queria registar o primeiro sopro de vida e a cumplicidade entre a mãe e o bebé. Por esta razão acabei por querer saber mais sobre o ambiente em que queria 'operar' e fiz o curso de doula. Apaixonei-me pela gravidez e o processo de dar à luz", confessa.

Susana Pereira explica que todas as doulas têm uma formação específica sobre a fisiologia da gravidez, parto e pós-parto. Algumas até contam com outras aptidões complementares que podem ajudar no suporte aos casais, como ioga ou terapia holística. Reafirma contudo que a doula não pratica actos médicos e por isso nunca substitui uma parteira. E garante que ainda existem algumas limitações à actuação da doula, nomeadamente o facto da classe médica continuar a não ter uma opinião unânime em relação à sua função e daí terem o acesso “vedado” durante os partos hospitalares.

“Em caso de emergência todos os minutos contam”
Sofia Sousa, enfermeira chefe do Bloco de Partos do Hospital Distrital de Santarém, confirma que não conhece o suficiente o trabalho das doulas para ter uma opinião formada sobre se podem ser uma mais-valia para a parturiente. Para esta especialista de saúde materna e obstetrícia, desde 2005, a ideia de que o parto hospitalar pode acarretar mais riscos que o parto em casa está “absolutamente errada”.


Considera que o parto em casa poderá ser mais “natural”, por não se utilizarem fármacos ou qualquer outro tipo de intervenção, mas o facto de os fetos não estarem monitorizados pode trazer graves consequências, tanto para o bebé como para a mãe. Como exemplo, refere a rotura prolongada de bolsa de águas. “Em caso de emergência todos os minutos contam e pode ser a diferença entre o bebé nascer saudável ou com graves sequelas ou uma mãe ser oportunamente assistida ou não”, afirma realçando que o parto hospitalar também pode ser natural. É dada à parturiente a oportunidade de elaborar o seu plano de parto cujas orientações são respeitadas pelos profissionais de saúde, “tendo sempre em conta a segurança do binómio mãe-feto”. A enfermeira refere ainda que a epidural é um recurso para alívio da dor de quem a pretende realizar e não é imposta. “Aliás, a grávida tem que dar o seu consentimento informado”, acrescenta. Já a cesariana é uma opção terapêutica usada apenas em casos extremos. Quanto há humanização dos cuidados de saúde, Sofia Sousa considera-a um pilar fundamental sobretudo na área obstétrica. Na inauguração do novo Bloco de Partos do HDS, em Dezembro de 2019, essa foi uma questão realçada, contudo a pandemia instalou-se e tiveram que ser criadas novas regras que dão primazia à segurança. “Somos defensores acérrimos e estimulamos a permanência e a colaboração dos pais durante o trabalho de parto, de modo a vivenciarem uma experiência única e gratificante, o nascimento dos seus filhos. Mas, nos tempos que correm, temos que pensar, e muito, em segurança”, remata a enfermeira.

O que é uma doula?

As doulas são mulheres que cuidam de outras, especialmente grávidas, mulheres lactantes ou com crianças recém-nascidas. Durante a gravidez acompanham a grávida durante a gestação através de apoio emocional, esclarecimento de dúvidas e procura de informação. No trabalho de parto a doula está ao lado da mãe criando uma esfera de protecção e confiança. A doula também presta serviços no pós-parto, nomeadamente no que respeita aos cuidados a ter com o recém-nascido, apoio na amamentação, adaptação da família a um novo elemento ou realização de pequenas tarefas domésticas.

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