Sociedade | 03-06-2020 07:00

Um terço do que comemos resulta da acção das abelhas

Um terço do que comemos resulta da acção das abelhas

Engenheiro zootécnico de formação, Gonçalo Matos trabalhou com animais de grande porte até que há oito anos se dedicou a outros bem mais pequenos: as abelhas.

Gonçalo Matos, filho de pai veterinário e de mãe engenheira técnica agrária, graceja que ficou algures no meio. É engenheiro zootécnico. Durante algum tempo trabalhou com animais de grande porte até que há oito anos se dedicou a outros bem mais pequenos: as abelhas.

Fez o seu próprio projecto de jovem agricultor, na área da apicultura, e dedica-se agora, aos 40 anos, inteiramente a esta actividade.

Tem cerca de 150 enxames distribuídos por mais de uma dezena de apiários na região, em Santarém, Rio Maior, Alpiarça e Fazendas de Almeirim. Como não possui terrenos próprios utiliza terrenos “acordados” com os donos. Das colmeias em produção retira em média 15 a 20 quilogramas de mel, de cada uma, por ano. Mas tem também algumas que usa para produção de rainhas.

Mais difícil é fazer as contas ao número de picadelas que já sofreu. Quase sempre nos tornozelos, onde não tem por hábito usar protecções. Mas como a apitoxina é terapêutica, não o incomoda ser picado de vez em quando. Gonçalo aponta uma série de efeitos terapêuticos para o veneno encontrado nos ferrões das abelhas referindo que o combate ao reumático é o mais conhecido, mas há vários estudos que indicam que ajuda também a combater células cancerígenas e alguns vírus, como o HIV. “Até ver não sou alérgico, embora se defenda que se pode andar uma vida toda a levar picadelas e há um dia em que o nosso organismo despoleta uma reacção alérgica”, conta a O MIRANTE.

A aventura começou em Marianos, Paço dos Negros, no terreno de um amigo. Um terreno bom com muito rosmaninho, floração característica desta zona de charneca. Em Alpiarça já produziu junto a plantações de abóbora. “Não é o melhor sítio para ter abelhas, junto a um cultivo intensivo. Mas pediram-me, para ajudar na polinização, e acabei por tirar de lá algum pólen de boa qualidade e algum mel de abóbora em pequena quantidade, que acabei por misturar no multiflora”, conta, explicando de seguida que a designação multiflora se aplica quando não há uma flora que se destaque na produção do mel. Nos casos em que há uma flora predominante o mel distingue-se pelo tom, mas sobretudo pelo sabor. É o caso do eucalipto, que dá um mel mais escuro, do rosmaninho, com um tom entre o laranja e o amarelo, ou do alecrim, ainda mais claro.

Há cada vez menos abelhas

O Dia da Abelha, 20 de Maio, é assinalado desde 2018, uma data que para Gonçalo Matos peca por tardia para o reconhecimento da utilidade da abelha. “Afinal ⅓ dos nossos alimentos estão dependentes da sua polinização”, atira.

Já no início do século XX o físico teórico Albert Einstein alertava “se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais, não haverá raça humana.”

O apicultor reforça que as abelhas fazem muita falta e que nos últimos anos tem havido um decréscimo enorme do efectivo de abelhas no mundo inteiro. A agricultura intensiva e o uso de pesticidas são as grandes ameaças. Mas há também alguns factores ligados à intervenção humana e à globalização. Como a vespa asiática ou parasitas como a varroa, um ácaro que também veio da Ásia. Das 68 espécies existentes na Europa, 24% estavam em extinção em 2014, de acordo com números da Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas, da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais.

Contrariar a genética

O sistema natural de reprodução das abelhas é a enxameação. Quando a rainha velha parte com uma percentagem das abelhas, 30 a 40%, à procura de uma nova casa. Ficam as restantes com rainhas novas que foram desenvolvidas a partir dos alvéolos reais. Para o engenheiro zootécnico esta é a maior briga do apicultor, e uma tendência que tenta contrariar, mas que é complicado porque está na genética da abelha. Uma das formas de controlo é o melhoramento genético. “Tal como em qualquer área de produção animal, vamos buscar os filhos dos animais que produzem mais. Podemos também substituir rainhas que não interessam muito, que produzem mal ou que não têm um comportamento higiénico tão bom”, explica. O objectivo é evitar a enxameação que conduz à perda de abelhas.

Abelha-rainha ou abelha-mãe?

A forma como comunicam está bem estudada e documentada. Uma característica que encanta os humanos é a dança das abelhas. “Quando descobrem um sítio novo com muito alimento, sobretudo na Primavera, fazem uma dança na colmeia, tremem e fazem uns ‘oitos’ em voo. A frequência com que tremem tem a ver com a distância a que se situa o alimento, e o ângulo que faz ao desenhar os ‘oitos’ tem a ver com o ângulo zenital em relação ao sol”, explica-nos o apicultor acrescentando ainda uma outra curiosidade. Há quem defenda que a abelha-rainha se deveria chamar abelha-mãe. Porque não tem funções de comando. A sua função é pôr ovos. Tem outra função, mas indirecta, que é ajudar, com a sua feromona, a acalmar o enxame e a mantê-lo organizado. Se não houver rainha não há ordem, mas quem coordena e manda no enxame são as abelhas mais velhas, são essas que têm a experiência e tomam as decisões.

Um enxame chega a ter 100 mil abelhas. Todas conseguem comunicar entre si e saber qual a sua função específica dentro da colmeia. O tempo médio de vida de uma abelha depende da altura do ano e das horas de trabalho. Todas trabalham até morrer. Com dias muito grandes vivem cerca de três meses, mas uma abelha que nasça no final do Verão pode durar até seis meses. A rainha pode viver até cinco anos, embora seja produtiva no máximo durante três.

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