Sociedade | 09-08-2020 15:00

O pronto-a-vestir invadiu o mercado  mas a modista volta a estar na moda

O pronto-a-vestir invadiu o mercado  mas a modista volta a estar na moda
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Depois de uma vida inteira a costurar por outras paragens Geraldina Santos abriu no Sardoal o ateliê da Gigi, onde não tem mãos para tanta encomenda.

Depois de uma vida inteira a costurar por outras paragens Geraldina Santos abriu no Sardoal o ateliê da Gigi, onde não tem mãos para tanta encomenda. Eliane Sousa criou o seu espaço em Alverca e assegura que dentro de uma década uma costureira vai ganhar o dinheiro que quiser, embora de momento o negócio não esteja fácil.

Geraldina Santos tinha 12 anos quando decidiu aprender a costurar. Tirou o curso de corte e costura com uma mestre em 1981. Gigi, como é conhecida, não gostava de estudar e optou por trabalhar. Começou aos 14 numa fábrica de confecção de roupa na zona de Lisboa, na margem sul. O pai é de Alcaravela, concelho do Sardoal, e a mãe de Mouriscas, concelho de Abrantes. Foram viver para Lisboa onde Gigi nasceu e viveu até há cinco anos. Todas as férias eram passadas na terra do pai, de onde guarda boas memórias.


“Costumava dizer que quando me reformasse iria viver para o Sardoal. O destino acabou por me trazer antes da reforma”, conta com um sorriso rasgado. Passou por várias fábricas de costura até que, após o nascimento do primeiro filho, aos 18 anos, decidiu trabalhar em casa. Aos fins-de-semana começou a trabalhar numa empresa de limpezas. Entretanto deixou a costura e trabalhou nessa área nos últimos 20 anos. Aos 30 anos, e já com filhos adolescentes, voltou a estudar e concluiu o 12º ano.


Há seis anos conheceu o actual marido que trabalhava em Lisboa, mas vive no Sardoal desde criança. Apaixonaram-se e Gigi, de 53 anos, despediu-se da empresa onde era supervisora de limpeza e regressou ao Sardoal para voltar a trabalhar na sua grande paixão, a costura. Abriu o Ateliê da Gigi, no centro da vila. Arriscou e o negócio não podia correr melhor. Gigi não tem mãos a medir para as encomendas. Diz que esta é uma profissão de futuro e que em Lisboa ganharia muito mais.


“A profissão de modista está na moda porque as pessoas, sobretudo as mais novas, não sabem costurar e não querem aprender”, afirma a O MIRANTE. Os trabalhos mais procurados são os arranjos. Os jovens pedem-lhe para fazer bainhas ou colocar fechos. As senhoras, além dos vestidos, pedem para apertar os casacos ou camisolas de malha. Aos domingos de manhã vai ao mercadinho, em Alcaravela, onde mostra o seu trabalho. Uma aposta que lhe tem valido novos clientes. Para Gigi, antigamente o trabalho de costureira era desvalorizado, mas agora ser modista está na moda e as pessoas gostam de fazer roupa à medida do seu corpo.

“Está-se a perder a estima pela roupa de qualidade”


A roupa barata e de má qualidade que se vende no pronto-a-vestir e que invadiu o mercado português nas últimas décadas condenou a vida dos alfaiates e das modistas e muita gente deixou de ter a estima que tinha noutros tempos pela roupa de qualidade, consideram Eliane Sousa e Paulo Pereira, o casal que gere um ateliê de confecção de roupa em Alverca.


Ela é a modista de serviço e ele o gestor do negócio. Quem os conhece diz que são um casal lutador que não verga perante a adversidade e que é apaixonado pela confecção de vestidos à medida. É um dos poucos locais naquela cidade, senão o único, onde ainda se consegue fazer um fato ou um vestido à medida. “Hoje as pessoas preferem ir a uma loja dos chineses comprar duas ou três peças baratas que depois duram uma semana, em vez de comprar roupa de boa qualidade. Estão a perder a estima que havia antigamente pela boa roupa. Preferem estar sempre a trocar”, contam.


Eliane Sousa, brasileira, apaixonou-se pela profissão de modista aos nove anos por influência da mãe. Quando era pequena fazia os vestidos para todas as suas bonecas e veio para Portugal a pensar seguir essa profissão. Acabou por começar na restauração, mas assim que teve oportunidade abriu o seu espaço de confecção e não se arrepende. Vive com o marido, Paulo, na vizinha localidade de Vialonga. Para o casal, dentro de uma década, uma costureira vai ganhar o dinheiro que quiser porque é uma profissão cada vez mais rara.


“Há pessoas que sabem fazer uma bainha ou meter uns botões, mas raramente se encontra quem consiga agarrar numa peça de tecido e fazer um vestido”, contam, acrescentando que ainda há a ideia de que um vestido por medida é caro. “Às vezes é mais caro comprar um nas grandes lojas. E aqui sempre se fica com uma peça única”, dizem.


A pandemia veio complicar o negócio e o número de encomendas caiu nos últimos meses, já que a procura era elevada para casamentos e baptizados, agora cancelados. Quem mais procura a loja de Eliene e Paulo são as mulheres, mas os homens também já começam a aparecer. “Querem fatos distintos e com corte perfeito que não há nas lojas”, explicam. Fazem também fardamentos, brindes e agora máscaras de protecção. “É um negócio duro e nem as pessoas que vamos buscar ao centro de emprego querem seguir a profissão”, lamenta Eliene.


Há quem goste tanto de uma determinada peça de roupa que pede a Eliene para a replicar usando novos tecidos. Há também quem apareça com uma ideia em mente que não pode ser concretizada. “Esta é uma profissão que vamos alimentando apesar das dificuldades. Somos apaixonados por isto. O que me dá prazer é ver a satisfação dos clientes. Alguns até nos mostram as fotos de quando usaram os fatos”, confessa.
O casal tem três filhos e nenhum parece querer seguir a profissão. “É preciso ter um dom para isto e gostar muito do que se faz”, concluem.

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