Sociedade | 18-10-2020 12:30

Escultor de Montalvo expõe a sua arte pelas ruas do concelho

Escultor de Montalvo expõe a sua arte pelas ruas do concelho
SOCIEDADE

A escultura de ‘Zé de Malpique”, uma figura castiça do concelho de Constância, foi a que gerou mais controvérsia para João Reis, que trabalha por paixão e a expensas próprias.

Quem passa pela casa de João Reis, em Montalvo, não consegue deixar de reparar na escultura do escritor Fernando Pessoa, sentado a ler um livro e com uma chávena de café sobre a mesa. A imagem está colocada numa zona ajardinada da entrada da moradia e virada para a rua com o nome do poeta. Na varanda da habitação, já no interior, pode ver-se uma escultura do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, agarrado a uma idosa, numa representação da foto que se tornou conhecida durante os fogos que assolaram o centro do país em 2017. João Reis ofereceu-a à Câmara de Vouzela, um dos concelhos mais afectados pelos incêndios desse ano. Um dia depois da reportagem de O MIRANTE, elementos do município foram buscá-la.

Também pela principal rua de Montalvo, concelho de Constância, é possível ver várias esculturas criadas por João Reis e feitas com argila e cimento. À entrada, na Rua da Cantina, está a escultura de uma mulher com o cântaro à cabeça representando uma imagem muito comum nos anos 50 e 60 do século passado. Ao lado a história do que aquela obra representa. Mais à frente, embutido numa parede da rua, um pequeno memorial representa uma família com máscaras e conta a história desde o início da pandemia de Covid-19. Junto à capela da aldeia está colocada a imagem do Papa Francisco em tamanho real. O autodidacta, como gosta de se intitular, criou a imagem do conhecido actor Vasco Santana, que fez sucesso em meados do século passado, e está colocada no Largo do Terreiro.

No entanto, foi a escultura que inaugurou recentemente que mais tem dado que falar no concelho de Constância. João Reis decidiu criar a escultura de um cidadão que sofre de perturbações mentais causadas por traumas de guerra e abuso de drogas, conhecido por ‘Zé de Malpique’. A decisão gerou alguma surpresa e reacções diversas. Há quem considere que se pode tratar de um atentado aos direitos do cidadão ali representado. Outros vêem a escultura como um tributo a uma geração marcada pela guerra colonial.

João Reis explicou a O MIRANTE que criou esta escultura em jeito de homenagem. “Acho que a sociedade e o próprio Estado falharam com o Zé e com muitos homens que tiveram que ir para a guerra e vieram de lá irreconhecíveis. Poder-se-ia fazer mais alguma coisa por ele. Acompanhá-lo e ajudá-lo na medicação para que pudesse andar mais estável”, afirma.

A estátua foi colocada junto ao Largo do Pelourinho, em Constância, provisoriamente. João Reis vai oferecer a estátua à Junta de Santa Margarida, freguesia de onde Zé de Malpique é oriundo para ficar exposta, definitivamente, num espaço público.

Desde criança João Reis gosta de criar mas a vida profissional (desenhador de construção civil) e a vida familiar foram adiando a dedicação a esse passatempo. Aos 65 anos, na mesma altura em que se reformou, teve um problema grave de saúde e decidiu não adiar mais aquilo que gostaria de ter começado a fazer há mais tempo.

Todos os trabalhos feitos surgem de ideias suas e a expensas próprias. Alguns oferece a amigos. Não faz nada para ganhar dinheiro ou ser conhecido. Apenas para alimentar a sua paixão pela arte. O próximoque pretende fazer, para inaugurar em 2021, é um monumento aos militares da Guerra do Ultramar. “Quero criar algo que fique para as gerações futuras saberem que isto aconteceu”, realça.

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