Sociedade | 26-10-2020 10:00

Aldeia da Pereira tem fibra óptica mas ainda vive sem saneamento básico

Aldeia da Pereira tem fibra óptica mas ainda vive sem saneamento básico
REPORTAGEM COMPLETA

Três dezenas de moradores da aldeia histórica da Pereira, no concelho de Constância, queixam-se há vários anos da falta de saneamento básico na localidade.

Embora inexistente, os habitantes continuam a pagar taxa de saneamento como se usufruíssem do serviço. Os esgotos correm a céu aberto para uma ribeira que, a cada ano que passa, está mais poluída. O MIRANTE foi à aldeia, num domingo de manhã, acompanhado pelo grupo Acção Pereira.

Os moradores da histórica aldeia da Pereira, concelho de Constância, vivem, desde sempre, sem saneamento básico. Os esgotos domésticos de várias habitações drenam para uma ribeira que atravessa a aldeia e que, a cada ano que passa, está mais poluída. Para piorar a situação, os 35 habitantes da Pereira continuam, há dezenas de anos, a pagar uma taxa de saneamento básico sem terem acesso a esse serviço.

O MIRANTE foi à aldeia da Pereira, num domingo de manhã, falar com alguns dos habitantes que se queixam de viverem numa localidade que tem fibra óptica, mas não tem acesso a um serviço que lhes garantia melhores condições de vida. Acompanharam a reportagem dois elementos do grupo Acção Pereira, constituído para lutar contra a inoperância e opacidade dos autarcas do concelho em relação a uma aldeia que em duas dezenas de anos perdeu dois terços dos seus habitantes.

Adelaide Rosa esteve emigrada em França mais de 20 anos. Regressou há cerca de dois meses e comprou casa na Pereira por ser uma aldeia histórica, com bonitas paisagens e, fundamentalmente, sossegada. Estava longe de imaginar, que vinha habitar uma casa com uma caixa de esgoto à entrada da porta principal, que entope quase todos os dias, provocando cheiros insuportáveis. Adelaide levanta a tampa de esgoto para mostrar ao repórter de O MIRANTE os motivos por que está desesperada: “tenho vergonha de lhe mostrar esta porcaria toda, mas é para ver com os seus próprios olhos como temos de viver nesta aldeia”, lamenta.

De seguida, e em conjunto, percorre-se o trajecto que leva os dejectos até à ribeira da Pereira, outrora utilizada para os animais e algumas pessoas matarem a sede. Alguns dos excrementos também se perdem pelas várias courelas espalhadas pela aldeia.

José Nogueira vive há cinco anos na Pereira e junta-se ao grupo. Afirma que se foi desenrascando e que, ao longo dos tempos, foi adaptando colectores mas nunca conseguiu resolver o problema. Nas traseiras da sua casa tem três buracos, com pouco mais de um metro de profundidade, que servem de fossa.

CANDIDATURA APROVADA A FUNDOS COMUNITÁRIOS CADUCOU

Em 2018, a Câmara de Constância viu aprovada uma candidatura a fundos comunitários, na ordem dos 280 mil euros, para a construção da rede de saneamento e da ETAR (estação de tratamento de águas residuais) da Pereira. O projecto não avançou porque, segundo o presidente do município, Sérgio Oliveira, havia terrenos que não estavam registados em nome dos actuais proprietários, condição base para que a autarquia pudesse intervir no espaço e contar com os apoios do POSEUR (Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos).

A notícia de que a aldeia já não ia ver as prometidas obras serem realizadas constitui uma grande desilusão para os moradores, sobretudo pelas razões que ditaram este desfecho. A autarquia não se preocupou em chegar à fala com os proprietários dos terrenos de forma a poderem legalizar a situação. O que, nas palavras dos elementos do grupo, dá a entender que as intervenções estavam destinadas, logo à partida, ao fracasso. “Descobrimos que as obras não iam ser realizadas depois de mais de um ano sem a autarquia dar notícias. Isto demonstra que não estão preocupados com a situação e com os moradores”, afirma Rui Pires, fundador do grupo Acção Pereira.

Rui Pires diz que esta realidade coloca vários investimentos em causa e que, ao município, não basta ter a Pereira identificada como bom valor paisagístico e rural: é necessário oferecer infra-estruturas e o mínimo de serviços públicos que permitam manter a população, desenvolver a localidade e criar condições de sustentabilidade de projectos e investimento. “São precisos sinais de confiança na promoção da coesão territorial e da manutenção das pessoas no concelho e interior do país”, conclui.

Uma aldeia com história

A Pereira é uma aldeia pertencente à freguesia de Santa Margarida da Coutada que sofre muito com o problema da desertificação do interior. No entanto, é um território antigo e de muitas tradições. Devido ao seu isolamento ainda conserva uma imagem tradicional que se enquadra na paisagem verdejante que a envolve. A Fonte da Ti Ana é uma das várias fontes públicas utilizadas pelos moradores da aldeia. Por toda a freguesia pode ainda visitar-se a Igreja matriz, a capela de Malpique, a capela de São Pedro e as ruínas romanas de Alcolobre.

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