Sociedade | 22-11-2020 07:00

Golegã não deixa morrer a tradição em dia de São Martinho

Golegã não deixa morrer a tradição em dia de São Martinho

A Feira Internacional do Cavalo, na Golegã, não se realizou este ano por causa da pandemia. Ainda assim, dezenas de pessoas, quase todas da terra, cumpriram a tradição e desfilaram a cavalo na manga principal da feira. O MIRANTE foi à capital do cavalo num dia de São Martinho como nunca se viu.

O dia de São Martinho, 11 de Novembro, é o mais esperado do ano para quem vive na Golegã. No feriado municipal, as ruas da vila enchem-se de pessoas que chegam de todos os cantos do país e do mundo. Este ano não foi assim. A pandemia estragou os planos e a Feira Internacional do Cavalo não se realizou. As ruas estiveram despidas, os negócios com as portas fechadas, os vendedores de castanhas não apareceram e a água-pé não saiu da adega para ser provada. Contudo, e apesar das circunstâncias, os goleganenses não quiseram deixar morrer a tradição. Várias dezenas de cavaleiros montaram os seus cavalos e, durante uma tarde, desfilaram na manga principal da feira. Várias famílias assistiram à parada. As crianças puderam dar festas e, algumas até, montar a cavalo.

A reportagem de O MIRANTE foi à Golegã para sentir o pulsar de um ambiente que, desde que existe a secular Feira do Cavalo, nunca se tinha vivido. A primeira pessoa que encontramos chama-se Régine Fridli. Vive na Golegã há três anos, vinda de Genebra, Suíça. Não é a primeira vez que Régine fala a O MIRANTE. Na feira do ano passado já tinha contado o que sente por viver numa vila que tem no cavalo lusitano a sua grande bandeira. Nos últimos 12 meses comprou três habitações e está a decorá-las ao seu gosto. Afirma que se sente cada vez mais goleganense e que a sua grande paixão continua a ser a égua Harpa, uma puro-sangue lusitano. Foi montada em cima da Harpa, que ia dançando, elegante, ao ritmo da conversa, que Régine confessou sentir tristeza por não haver feira. “É triste, mas é triste para todo o mundo. Não há aniversários nem casamentos. Muitas pessoas não podem dizer o último adeus aos entes que partiram. Não haver feira é um mal menor”, lamenta.

Frederico Galinha e Raimundo Claro assistem ao desfile na manga principal da feira enquanto avaliam a beleza dos animais e a postura dos cavaleiros. “Aquele nota-se que não percebe nada disto; o outro já deve ter bebido uns copos de água-pé ao almoço”, comentam. Ambos estão a caminho dos 70 anos e garantem que nunca viram um dia de São Martinho tão calmo e silencioso. Raimundo conta que produz, por esta altura, vinho abafado e que chega a ter, ao mesmo tempo, meia centena de cavaleiros à porta da sua garagem para o provar. “Este ano é todo para a família e amigos. Nós damos conta dele na mesma”, garante, com um sorriso no rosto.

A reportagem já leva cerca de uma hora de conversas e histórias de gente da terra. Os cavaleiros que desfilam na manga principal da feira são já perto de meia centena. Carlos Fialho, 58 anos, puxa as rédeas do seu cavalo, pára-o e fala com o repórter. É encarregado agrícola da família Maltez há mais de 30 anos. Monta a cavalo há mais de 50. O cavaleiro aplaude a iniciativa dos que, como ele, não quiseram deixar morrer a tradição em dia de São Martinho. “Este dia é, por princípio, para quem é da terra e tem aqui as suas raízes”, salienta.

UMA FACADA PARA A SAÚDE ECONÓMICA DOS GOLEGANENSES

Um dos grandes protagonistas do dia de São Martinho na Golegã é, como habitualmente, o presidente do município, José Veiga Maltez. Não há um único cavaleiro que, durante a parada, não se dirija ao presidente para lhe prestar homenagem. Veiga Maltez responde ao seu jeito, tirando o chapéu e inclinando-se para agradecer.

O autarca explica a O MIRANTE que não haver Feira do Cavalo tem implicações graves para a comunidade. “Há muitos cursos superiores pagos por esta feira, por exemplo. É uma facada muito grande na sua saúde económica. Partilho com os goleganenses um sentimento de tristeza e lamento”, confessa.

José Veiga Maltez quis, no entanto, deixar claro que a Golegã é muito mais do que um dia, ou semana, no ano. “A feira e o cavalo são o grande chamariz, mas o que a vila tem para oferecer é muito mais do que isso. Temos a Casa Relvas, o Museu Martins Correia, o Museu da Máquina de Escrever, entre outros espaços. Trabalhamos para que as pessoas nos queiram visitar durante todo o ano”, conclui.

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