Sociedade | 13-01-2021 07:00

Diziam-lhe que o mundo da dança não era para rapazes mas ele seguiu em frente

Diziam-lhe que o mundo da dança não era para rapazes mas ele seguiu em frente
REPORTAGEM COMPLETA

João Baptista Lopes é um bailarino de Benavente com orgulho nas origens ribatejana.

Na infância diziam-lhe que a dança não era para rapazes mas João Baptista Lopes fez ouvidos moucos e tem dado cartas no mundo artístico. O bailarino, que deu o salto depois de participar num programa de revelação de novos talentos, falou a O MIRANTE do tempo em que era gozado e de como é levar a vida a dançar no fio da navalha, num país onde as artes ainda são “um mundo cão”.

Tinha dois anos quando começou a balançar-se em traves e a rodopiar em piruetas no Clube União Artística Benaventense e aos sete já lhe diziam nas danças de salão que tinha um dom. É como se a dança já tivesse nascido com ele e lhe comandasse os passos. Agora guia também a sua vida. Para João Baptista Lopes, o mundo do bailado não pertence exclusivamente ao sexo oposto, mas os rapazes têm que enfrentar algo mais além das exigências habituais: “O estigma que vem dos outros e que afecta ao ponto de se achar que se é uma aberração”.

Nasceu há 30 anos, em Benavente, e cresceu “a achar que era só mais um” a tentar perseguir um sonho que não era bem visto aos olhos dos outros. Menos da família, que sempre o apoiou. “Naquele tempo ainda não se falava de bullying mas já existia, sempre existiu. Diziam-me que fazia desportos de menina, e por isso era posto de parte. Era gozado e sofria calado”, diz. Para depois vincar que “embora não tenha sido fácil” não desistiu, e que “ninguém tem o direito de roubar os sonhos dos outros”.

Chegou a ponderar outros caminhos. Terminou o ensino secundário com média de 18 valores e não fosse a sua mãe ter-lhe dito que “não queria um filho frustrado” teria seguido jornalismo. Hoje agradece-lhe as palavras. Estudou na Escola Superior de Dança e em paralelo frequentou, como aluno externo, a Escola de Dança do Conservatório Nacional, onde começou a dançar ballet aos 18 anos. Mais tarde aprendeu canto e representação com nomes como Diogo Infante, Filipe La Féria e os irmãos Feist.

João Baptista Lopes já tinha sido campeão nacional de danças clássicas e latinas e campeão regional de ginástica, quando em 2010 decidiu participar no “Achas que Sabes Dançar”, o programa de talentos da RTP que lhe mudou a vida depois de ter terminado em segundo lugar. “Foi aí que percebi que era especial e que tinha muito para dar. A minha auto-estima voltou e permitiu-me deixar de ouvir os outros e seguir o meu coração”.

Um caminho que já o levou a dançar pelo mundo a bordo de cruzeiros de longo curso, a ser o bailarino dos Casinos do Algarve e a participar noutros programas de televisão e em musicais, como a versão portuguesa de Chicago que esteve em cena no Teatro da Trindade, em Lisboa.

“As artes são um mundo cão”

A morar sozinho há 12 anos na capital, João Baptista Lopes diz que tem conseguido, até agora, viver em exclusivo da dança. Mas nem por isso deixa passar ao lado os problemas do sector: contratos precários, recibos verdes, apoios ridículos e hierarquias impostas sem regra.

“Em Portugal as artes são um mundo cão e ninguém dá importância a um bailarino. Nas hierarquias é o mais baixo da cadeia alimentar, ou seja, o que trabalha mais e recebe menos. Acima de nós estão os cantores e actores”, afirma. Depois vinca: “Falta evolução. Perceber-se que os bailarinos são actores mudos que transpiram emoção e que têm mais por onde crescer”.

Quando em Março rebentou a pandemia em Portugal, João regressou a Benavente com uma mão à frente e outra atrás. A “ninharia” que diz ter recebido do Estado pelos espectáculos cancelados deu apenas e só para “pagar a renda em Lisboa”. Foram quatro meses a viver em casa dos pais com os dois irmãos mais novos.

Um bailarino aficionado e orgulhoso das suas origens

Não é por ao longo dos anos ter apurado a sensibilidade do mundo das artes que João vê crueldade nos espectáculos tauromáquicos. Pelo contrário, diz-se um aficionado que cresceu ao ritmo da festa brava de Benavente, Samora Correia e Vila Franca de Xira.

“É um assunto sensível e raramente falo dele. Mas se me perguntam não o escondo. Não sou intransigente e respeito a opinião dos outros, por isso espero que respeitem a minha”, destaca o bailarino que herdou da avó Angélica Baptista o gosto pelo fado.

Sempre que regressa à vila “onde se algo acontece todos sabem” não se fecha em casa dos pais. Vai ao café, põe a conversa em dia, gosta de se misturar com aqueles que o viram crescer. Agora, já ninguém lhe diz que bailarino não é coisa de rapazes. “Pelo contrário, hoje sinto-me bem recebido em Benavente e sou muito agradecido pelo apoio que me deram na altura do programa”.

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