Sociedade | 13-01-2021 18:00

Hipnose está ao serviço da medicina mas ainda é considerada um último recurso

Hipnose está ao serviço da medicina mas ainda é considerada um último recurso
REPORTAGEM COMPLETA
foto DR

A hipnose é hoje reconhecida pela ciência e pratica-se em hospitais para substituir anestesias em procedimentos cirúrgicos ou mesmo em parto sem dor.

Fascinada pelos mistérios da mente e ligada à área da saúde há vários anos, primeiro na área da fisioterapia e mais tarde na área das medicinas naturais e orientais, Rosinda Flores pratica hipnotismo de forma profissional e a tempo integral há cinco anos. Em 2018 abriu consultório próprio em Santarém, no Espaço Cidade, junto à Rodoviária.

Os estudos no Instituto Português de Hipnose, em Lisboa, tiveram início para autoconhecimento e para ultrapassar as dificuldades que sentia na altura, mas cedo sentiu na pele o potencial da hipnose e optou por aprofundar os estudos com a Sociedade Inter Americana de Hipnose. Rosinda Flores tem 53 anos e é natural de Gavião, no Alentejo. Passou a infância, adolescência e início da fase adulta em França. Regressou aos 20 anos e desde então viveu em várias localidades até assentar em Marinhais, Salvaterra de Magos, onde reside desde 2006.

O que é a hipnose e como funciona?

A hipnose é um estado de relaxamento que nos permite aceder ao nosso inconsciente, lá onde estão guardadas todas as nossas memórias, crenças e hábitos, no fundo, o nosso programa completo, tudo o que somos. Caracteriza-se, acima de tudo, por um relaxamento e uma focagem de atenção num determinado pensamento, imagem, sensação ou sugestão. O inconsciente não distingue o que é real ou imaginário e por isso é o momento perfeito para reprogramar emoções e pensamentos. Com o auxílio de metáforas, que é a linguagem que o inconsciente entende, o terapeuta ajuda a pessoa a ressignificar as situações que o perturbam, seja com o intuito de cura ou de alto-desempenho.

O que motiva as pessoas a procurar a hipnose?

De início as pessoas procuravam-me mais por distúrbios como fobias, traumas, necessidade de largar um vício, ansiedade, depressões, necessidade de aumentar o foco e concentração nos estudos, auto-estima e confiança em si mesmo. Mas com o tempo e principalmente desde Março há um padrão recorrente nas pessoas que me chegam. Há uma grande necessidade de autoconhecimento, a necessidade de se encontrarem. As pessoas sentem um enorme vazio interior e não entendem o motivo.

Quem a procura? Há um padrão de idade ou sexo?

Procuram-me, principalmente, as mulheres. Têm mais facilidade em falar sobre os sentimentos e as emoções, é-lhes mais natural assumir que algo não está bem. Os homens são mais reservados e quando chegam à consulta trazem um problema muito específico que querem resolver: uma fobia, um vício, ansiedade. Quanto à idade, a maioria situa-se entre os 24 e 50 anos, mas tenho atendido pessoas de todas as idades. Tem sido comum ultimamente chegarem muitas crianças e adolescentes com perturbações de ansiedade e depressão, o que é preocupante.

Todas as pessoas podem ser hipnotizadas?

Basicamente sim, se assim o quiserem. Entrar em hipnose é entrar em um relaxamento mais ou menos profundo, logo qualquer pessoa pode ser hipnotizada, e mesmo ficando num relaxamento muito superficial os benefícios da sessão são consideráveis.

Entrar em hipnose é sinónimo de ficar inconsciente?

Em nenhum momento o consulente fica inconsciente, até porque é necessária a sua colaboração e precisa relatar ao terapeuta o que está a visualizar e a sentir. Se estivesse inconsciente não o poderia fazer. Na verdade, o transe hipnótico pode ser comparado ao estado de pré-sonho em que ainda se está plenamente consciente do que está a acontecer no exterior, mas a atenção está plenamente concentrada naquilo que a pessoa que o guia ao estado de transe lhe vai indicando.

Os benefícios do hipnotismo são reconhecidos pela ciência?

Sem dúvida. Hoje já se pratica hipnose em hospitais para substituir anestesias em procedimentos cirúrgicos ou mesmo em parto sem dor. Também já tenho recebido pessoas enviadas por psiquiatras e psicólogos como complemento terapêutico e isso é muito benéfico para a pessoa, evita assim ser sobrecarregada com medicação.

Ainda há muito preconceito em relação ao hipnotismo. Como se pode desmistificá-lo?

Sim, é verdade, mas já foi mais tabu. Hoje já existem muitos programas na televisão que abordam esse assunto, o que tem ajudado muito o nosso trabalho.

“Saber que faço a diferença na vida de uma pessoa não tem preço”

Rosinda Flores diz que há vários casos que a marcaram e abalaram, principalmente quando se trata de crianças ou jovens. Geralmente, quando um paciente procura a hipnoterapia já experimentou outras soluções, sem sucesso. “Somos sempre o último recurso e, por isso, quando nos chegam o estado já vem agravado”, afirma.

A terapeuta recorda o caso de uma jovem de 19 anos com depressão profunda: “A mãe procurou-me desesperada por não saber mais o que fazer. A rapariga ia todos os dias às urgências e estava altamente medicada, se lá fosse mais uma vez ficaria internada na psiquiatria, algo que a mãe queria evitar a todo o custo. Arranjei forma de a consultar o mais rápido possível e quando a vi deu-me um nó no coração. Tão jovem e completamente apática e desconectada da vida. Só me falava em querer morrer. Senti a sua dor e um peso enorme de responsabilidade. Essa consulta prolongou-se por mais de quatro horas. Felizmente quando terminámos vi o mais lindo sorriso que alguma vez vislumbrei. Devolver a alegria e a vontade de viver a alguém que se sente na completa escuridão, é das coisas mais recompensadoras para mim. Saber que faço a diferença na vida de uma pessoa não tem preço, enche-me o coração”.

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