Sociedade | 23-02-2021 12:30

Há relógios biológicos que nunca chegam a despertar

Há relógios biológicos que nunca chegam a despertar
REPORTAGEM COMPLETA
Ana Vicente e Estela Ribeiro

Além de mulheres na casa dos cinquenta, Estela Ribeiro e Ana Vicente partilham uma convicção: nunca quiseram ter filhos. Enfrentaram o estigma e a pressão da sociedade formatada para a maternidade e não se arrependem.

Já em criança Estela Ribeiro dizia que não queria ter filhos. Na altura não a levavam a sério mas com o passar do tempo foram percebendo que ser mãe não fazia parte dos seus planos de vida. Mais velha de três irmãos, conta que a mãe, que foi sua professora primária, sempre foi muito exigente consigo. “Na escola, quando era para ficar de castigo, eu ficava sempre mais tempo porque tinha que dar o exemplo. Essa rigidez influenciou a minha vida adulta”, recorda a O MIRANTE.

Outro factor que ajudou a não querer descendência foi o facto da sua grande amiga Célia ter morrido de cancro aos dez anos, o que foi muito traumatizante. “Na altura eu tinha oito anos e, naquele momento, tive a percepção da morte e nunca quis ter um filho, por saber que ele iria morrer. Colocar alguém no mundo sabendo que ia morrer para mim era uma grande preocupação”, conta. Apesar de hoje acreditar que existe vida para além da morte nunca se arrependeu da decisão.

Mesmo não querendo ser mãe, a assistente social de Ourém adora crianças e tem uma afilhada que sempre que pode está consigo. “A primeira vez que a minha afilhada foi dormir a minha casa ficaram todos à espera que ela telefonasse aos pais a dizer que queria voltar para casa. A verdade é que passou a noite toda comigo e está sempre pronta para mais um fim-de-semana com a madrinha. Sou a tia maluca que ela adora”, refere bem-disposta.

Nos dois relacionamentos que teve nunca sentiu pressão para ter filhos. Nem foi por esse motivo que as suas relações terminaram. A pressão veio da comunidade. Em Ourém os amigos e conhecidos perguntavam-lhe quando teria um filho. Alguns diziam que estava a ser egoísta. Estela Ribeiro explicava, assertiva, que era uma opção e, aos poucos, foram desistindo de perguntar. Os pais e os irmãos sempre aceitaram bem as suas decisões.

Aos 54 anos, Estela diz que nunca sentiu o “relógio biológico” e não se arrepende da decisão que tomou nem tem medo de ficar sozinha na velhice. Não ter filhos levou-a a dedicar-se mais aos outros e confessa que nas situações a que assiste diariamente, como assistente social, vê que os idosos mais sós são aqueles que têm filhos.

“Nunca senti
que queria ser mãe
e vivo bem com essa decisão”

Estela Ribeiro não é um caso raro numa sociedade onde a pressão da maternidade ainda se faz sentir, mas onde também há cada vez maior aceitação social sobre o tema. Acompanha-a na decisão Ana Vicente, de 51 anos, que não tem memória de um dia se ter imaginado rodeada de filhos, nem mesmo quando namorou durante cinco anos e o assunto veio a lume.

“Nunca senti que queria ser mãe e vivo bem com essa decisão. O meu objectivo de vida sempre foi conseguir uma carreira profissional. Nem na altura em que namorei mais tempo cheguei a pôr em equação”, conta a directora adjunta do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) de Santarém. Se deu por si a evitar o assunto? “Sim, talvez para não magoar a pessoa”.

Imaginar um bebé a crescer dentro do ventre causa alguma confusão a uma mulher que não vê “beleza nenhuma numa gravidez”. Mas não se é menos mulher por isso. É uma opção de vida e nem sequer significa que não se tenha afinidade por crianças. “Adoro os meus sobrinhos e trato-os quase como se fossem meus filhos. Acho até que se tivesse sido mãe teria sido uma daquelas mães galinha, demasiado protectoras”, diz.

Ana Vicente acrescenta que quando as colegas de trabalho a viam com os sobrinhos lhe diziam que “daria uma boa mãe”. Comentários como esse não a incomodavam, mas também nunca serviram de corda para fazer funcionar o seu relógio biológico. “Esse nunca funcionou. Aos 34 anos achei que poderia estar grávida e fiquei cheia de medo, porque era algo que não queria”, conta.

Para Ana Vicente, admitir que nunca quis ser mãe é tão natural como dizer que nada lhe sabe melhor do que poder estar sozinha em casa depois de um daqueles dias difíceis no trabalho. Não se trata de egoísmo, esclarece, para revelar que é uma mulher com sentido de família e que não ter tido filhos permite-lhe “acompanhar melhor as necessidades que os [seus] pais começam a sentir” com a idade. “Se tivesse filhos já não poderia ser assim. A minha atenção teria que ser repartida”, frisa.

Querer muito ser mãe não significa que se venha a ser uma boa mãe. E Ana Vicente sabe-o bem, pelo trabalho social que desenvolve. “Não consigo compreender as pessoas que não têm condições financeiras e têm filhos quando sabem que não lhes conseguem garantir o básico”, diz, embora considere que a questão material “não é de todo a mais importante” na relação mãe-filho.

Por outro lado, revela, “há pessoas que têm filhos para dar resposta a tudo menos a elas”, pessoas que os têm só porque “fica bem” ou porque “acham que vão ter maior aceitação social”. E não há nada de certo nisso, até porque, sublinha, “uma mulher não tem que ter filhos para demonstrar que tem valor”.

Nasceram mais bebés em Santarém em 2020

O número crescente de mulheres que optam por não ter filhos, ou que os têm com uma idade cada vez mais avançada, está a contribuir para a baixa taxa de natalidade no país. Dados do teste do pezinho indicam que Portugal registou em 2020 o valor mais baixo de nascimentos desde 2015. O distrito de Santarém é uma das poucas excepções, com números superiores a 2019. Nasceram no distrito, no último ano, 2.709 bebés, mais 48 que em 2019, quando se registaram 2.661 nascimentos.

A par dos distritos de Bragança e Portalegre, que também aumentaram o número de nascimentos em relação ao ano anterior, Santarém está assim em contraciclo com a tendência nacional. Em todo o país nasceram, em 2020, cerca de 85.500 bebés, o valor mais baixo desde 2015, ano em que foram realizados 85.056 testes do pezinho.

Vila Franca de Xira e Azambuja integram o distrito de Lisboa, onde em 2020 foram rastreados 25.014 bebés, menos 1.267 comparativamente a 2019, ainda de acordo com o teste do pezinho, realizado a partir do terceiro dia de vida através da recolha de gotículas de sangue no pé da criança.

Maioria das crianças nascidas em 2020 foi concebida antes da pandemia

Comentando estes dados à agência Lusa, a demógrafa Maria João Valente Rosa afirmou ser “ainda prematuro tirar algumas ilações sobre o impacto directo que a pandemia teve nos nascimentos”, porque “grande parte das crianças que nasceram ao longo do ano de 2020 foram concebidas antes da pandemia de Covid-19”.

“O efeito vai ser forte em 2021”, comentou a professora universitária, sublinhando ainda que se vier a confirmar-se uma diminuição do número de nascimentos isso significa que vai haver um saldo natural negativo em 2020 devido ao número de óbitos resultados já da pandemia.

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