“Eutanásia não deve ser a resposta para quem se encontra em sofrimento e fim de vida”
A eutanásia sempre foi um tema controverso e fracturante e está na ordem do dia em Portugal depois do Parlamento ter aprovado, no final de Janeiro deste ano, a legalização da eutanásia no país.
A eutanásia sempre foi um tema controverso e fracturante e está na ordem do dia em Portugal depois do Parlamento ter aprovado, no final de Janeiro deste ano, a legalização da eutanásia no país. A lei precisa da concordância do Presidente da República sendo que Marcelo Rebelo de Sousa enviou-a para o Tribunal Constitucional.
A nova lei, se for promulgada, permite o acesso à morte assistida para adultos em situação de “sofrimento extremo e danos irreversíveis”. Devem ser médicos e psiquiatras a avaliar cada situação, caso haja dúvidas sobre a capacidade do paciente de optar pelo procedimento de forma “livre e informada”. Os três médicos com quem O MIRANTE conversou sobre o tema manifestaram-se contra a lei e recusam praticar tal acto.
O coordenador da Unidade de Saúde Familiar Cortes de Almeirim, João Ferreira, e a coordenadora da Unidade do Centro de Saúde do Cartaxo, Bárbara Badim, defendem ser mais importante repensar a rede nacional de cuidados paliativos dando um maior suporte e com menos sofrimento aos doentes.
João Ferreira considera que a eutanásia não deve ser a resposta para os utentes que se encontram em sofrimento e fim de vida. “A eutanásia é uma solução para um problema muito sério que deve ser pensado de forma muito profunda. As pessoas escolhem morrer porque têm medo de sofrer e serem incapazes de tomar decisões autónomas”, afirma.
O médico diz ainda que a eutanásia, como está definida, coloca uma grande responsabilidade e uma decisão emocional no médico. “Não aceitaria fazê-lo porque vai contra aquilo que defendo, que é a vida”, garante, acrescentando que a solução mais fácil é a morte quando existem outras.
A mesma opinião tem Bárbara Badim. Defende que os médicos devem garantir a vida do utente e que a prática clínica deve assentar nesse pilar. “O princípio da eutanásia não deve estar em cima da mesa. Devemos empenharmos em diminuir o sofrimento do doente. Não podemos pensar numa solução fácil. A eutanásia é ajudar ao suicídio quando estas pessoas precisam é de muito apoio e auxílio”, realça.
Carlos Ceia, coordenador da Unidade de Saúde Familiar do Vale do Sorraia/Coruche, afirma que a lei, a ser aprovada, coloca no médico uma decisão muito importante a tomar, além de o deixar com muitas dúvidas. “Como é que um médico mede o nível de sofrimento? Como é que conseguimos perceber se é intolerável? Existem muitas contradições que têm que ser melhor esclarecidas. Nunca aceitaria praticar eutanásia porque a minha formação médica e crença religiosa vai contra”, afirma.


