Sociedade | 06-04-2021 15:00

A luta de Luís Jejum para voltar a andar

A luta de Luís Jejum para voltar a andar
SOCIEDADE
Luís Jejum

Um acidente de bicicleta, na Carregueira, atirou Luís Jejum para uma cadeira de rodas há cerca de três anos. Nos primeiros 10 meses não foi a casa, tendo passado por vários centros de reabilitação para acelerar o seu processo de recuperação.

A minha força depende dos obstáculos que vou ultrapassando. A frase é repetida várias vezes por Luís Jejum que vive há três anos e meio “amarrado” a uma cadeira de rodas. Uma hora de conversa com Luís é suficiente para acreditar que a força de vontade não tem limites. No seu estado, o mais fácil é desistir, mas essa palavra não vem no seu dicionário. A história de Luís é de superação, onde não há tempo, nem espaço, para desculpas.

Tudo acontece a 3 de Setembro de 2017, numa prova de bicicleta (BTT) na Carregueira, concelho da Chamusca. A prova corre bem a Luís Jejum que segue entre os primeiros classificados. A entrada num trilho irregular acaba da forma mais dramática possível: “Não reparei num salto, perdi o equilíbrio no ar e caí de cabeça. O capacete ficou completamente destruído”.

Depois de cair, vê que tem as pernas em cima de silvas mas não as consegue mover; toca-lhes mas não as sente. Nunca perde a consciência e, quando se apercebe que a lesão é muito grave, o seu pensamento viaja até às duas filhas: Francisca, de 3 anos, e Mafalda, nascida há um mês. “As imagens delas não me saíam da cabeça. O choque é indescritível e pensar que podia ficar agarrado a uma cama para o resto da vida é uma fatalidade”, confessa.

A ambulância leva-o para o Hospital de São José, em Lisboa, onde é operado duas vezes numa semana. No final das operações surge o diagnóstico: paraplégico. “Caiu o mundo aos meus pés”, desabafa. A mulher, Sara, que acompanha a conversa com O MIRANTE, recebe a notícia pouco tempo depois e fica em choque. O abalo da família é o primeiro impulso para iniciar a recuperação. “Custou-me muito vê-los assim e decidi logo que jamais iria ficar de braços cruzados mesmo que isso implicasse estar longe deles”, conta.

Assim é, ao longo de 10 meses. De hospital em hospital, Luís Jejum é incansável na sua recuperação. Durante o dia faz entre cinco e seis horas de fisioterapia. A mulher e as filhas viajam, todos os dias, cerca de 130 quilómetros para estar com ele durante um par de horas. Os amigos da Golegã organizam eventos solidários para angariar verbas que lhe possibilitem condições dignas quando regressar a casa. “Foram tempos de solidão, mas nunca me senti sozinho”, garante.

Luís Jejum só regressa a casa quando conquista alguma independência. Já tem um carro adaptado, uma cadeira para tomar banho e um quarto equipado de acordo com as suas necessidades. Continua a dormir com a mulher que, diz sem hesitar, tem sido o seu anjo-da-guarda. Ainda assim, há momentos em que não consegue controlar a revolta. “Inicialmente sentia muita raiva por estar a ser um fardo. Mas tive de ficar em paz comigo e perceber que a minha família gosta de mim e quer ajudar-me”, afirma.

Um homem do desporto

Luís Jejum é, e sempre foi, um homem do desporto. Antes de ficar paraplégico praticava futsal, hóquei em patins, natação e bodyboard. Actualmente, para além de ginásio volta a conseguir nadar e a percorrer quilómetros numa handbike, uma bicicleta adaptada em que os braços substituem as pernas. “O desporto tirou-me as pernas, mas tem-me dado forças para me continuar a agarrar à vida”, sublinha.

A seguir à conversa com O MIRANTE, vai andar 40 quilómetros de bicicleta, dando início ao plano para se tornar federado e, quem sabe, chegar a competir nuns jogos paralímpicos. “Os limites sou eu que os imponho a mim próprio. Se não tiver limites posso chegar onde quiser”, afirma com convicção.

Para além do desporto, Luís Jejum trabalha oito horas por dia no sector administrativo de uma empresa na Golegã. Os seus dias, garante, são mais preenchidos agora do que quando mexia as pernas e podia andar para onde quisesse. Sem hesitar, afirma que é mais feliz hoje do que era antes do acidente. Construiu, nos últimos três anos, uma armadura difícil de penetrar, e passou a dar mais valor às pequenas coisas, e a não perder tempo com “futilidades”.

O prognóstico inicial de Luís Jejum era de que nunca mais voltaria a andar. Hoje já consegue levantar-se sozinho e caminhar com a ajuda de canadianas e próteses nas pernas. “Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para andar. Se não conseguir até morrer, na última semana vou dar uns passos sozinho, nem que depois nunca mais me levante”, garante.

À margem

A luta de um paraplégico por melhores condições de vida desperta, em muitos casos, o pior que há nas pessoas. São muitas as que gostam de acompanhar a evolução de Luís Jejum e o ajudam a ter uma vida com mais dignidade, mas também há as “más-línguas” que criticam as ajudas que recebe. O facto de estar a construir uma moradia de rés-do-chão para facilitar a sua circulação dentro de casa é motivo de comentários na Golegã sobre se o dinheiro angariado nos eventos solidários está a servir o propósito ou se está simplesmente a servir para encher os cofres da família. Também já aconteceu ir de férias e ouvir comentários a acusarem-no de estar a utilizar o dinheiro para se divertir.

Os equipamentos que Luís precisa para conseguir ter uma vida com menos limitações custam dezenas de milhares de euros e nem todos são comparticipados pelo Estado. Por exemplo, se quiser continuar a lutar pelo sonho de competir nuns jogos paralímpicos precisa de uma bicicleta que custa entre 7 a 12 mil euros, muito mais caras dos que as normais. “As pessoas não sabem que a vida de um paraplégico custa muito dinheiro. É triste, mas é mesmo assim”, lamenta.

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