Sociedade | 09-04-2021 07:00

Misericórdia de Santarém encerra  oficina de encadernação que dava prejuízo

Misericórdia de Santarém encerra  oficina de encadernação que dava prejuízo
SOCIEDADE
Hermínio Martinho

Era a última valência do que foram as oficinas-escola do Lar dos Rapazes, onde havia formação de carpintaria, marcenaria, correaria, latoaria e sapataria.

A Misericórdia de Santarém vai encerrar a sua oficina de encadernação, transferindo o último funcionário para apoiar no restauro do arquivo histórico da instituição. O provedor Hermínio Martinho disse à Lusa que a assembleia-geral da Santa Casa da Misericórdia de Santarém (SCMS) deliberou encerrar aquela que é a última valência do que foram as oficinas-escola do Lar dos Rapazes, perante o prejuízo anual que vem gerando à instituição.

Contudo, o provedor admite que esta possa ser apenas uma suspensão da oficina, caso surja a oportunidade de retomar o serviço de encadernação, na possibilidade de vir a ser requerido por alguma instituição, como universidades.

A oficina de encadernação da Misericórdia de Santarém foi uma das actividades artesanais promovidas pela instituição em complemento da formação que dava aos jovens que acolhia, a par da carpintaria, marcenaria, correaria, latoaria, sapataria (esta encerrada na década de 80 do século passado).

Há duas décadas, a oficina contava ainda com cinco artífices que continuavam a usar métodos artesanais, manuais, desde a preparação, costura, encadernação e douramento, que foram adaptando às alterações sofridas pelos materiais usados (peles, tecidos, papéis, cola, ouro), como refere um artigo do boletim da SCMS, publicado em Setembro de 2000.

A oficina chegou a receber, em Abril de 2006, a visita de Allen Duston, director internacional dos Patronos dos Museus do Vaticano, que quis verificar ‘in loco’ a qualidade do material e dos acabamentos, bem como a “perfeição da execução” atribuídas a este serviço da SCMS, para possível encaminhamento de trabalhos.

Contudo, apesar de várias manifestações de interesse por parte de várias instituições, Hermínio Martinho salienta que essas intenções nunca se concretizaram, o que, com o fim das encadernações dos Diários da República antes solicitadas por vários serviços públicos, acabou por deixar a oficina reduzida apenas a encomendas ocasionais. O único funcionário que resta vai passar a dedicar-se ao restauro de centenas dos cerca de dois mil livros antigos existentes no arquivo histórico da SCMS, na Igreja da Misericórdia, adiantou.

António Monteiro, responsável pelo arquivo histórico, afirmou que este contém três secções, uma com documentos ainda anteriores à fundação da SCMS (que terá ocorrido antes de 1500), relativos a hospitais e gafarias, outro desde a fundação até 1900 e outro desde esta data até 1985, ano em que fechou o hospital, com a inauguração do Hospital Distrital de Santarém.

“Não faz sentido vender património”

Para Hermínio Martinho, provedor da SCMS desde Dezembro de 2019, não faz sentido a instituição ter de vender património todos os anos para fazer face ao passivo e poder assegurar aquela que é a sua principal missão, a de garantir todas as condições de bem-estar e qualidade de vida aos idosos e crianças servidos pela Misericórdia.

Uma das decisões tomadas no seu mandato foi a de não vender, como estava previsto, o edifício contíguo à Igreja da Misericórdia, no centro histórico da cidade, antigo hospital dos incuráveis que quer recuperar para musealização de peças do acervo da instituição, como paramentos e peças do antigo Hospital de Jesus Cristo, adiantou.

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