Sociedade | 11-04-2021 10:00

Lesões ortopédicas: exercício faz bem mas pode correr mal se o passo for maior que a perna

Lesões ortopédicas: exercício faz bem mas pode correr mal se o passo for maior que a perna
SOCIEDADE
Gonçalo Martinho

Gonçalo Martinho é ortopedista no Hospital CUF Santarém e foi um dos primeiros médicos a usar o bloco operatório, em 2011.

Desde então muito mudou na forma de tratar as lesões graves e há cada vez mais crianças a aparecerem com problemas articulares, o que o leva a afirmar que as crianças devem brincar, e não serem atletas. Vivemos numa sociedade sedentária e é preciso estimular o exercício físico, mas para que não haja lesões o clínico alerta que é importante o acompanhamento e a supervisão.

Que efeitos tem a pressão colocada nas crianças para serem atletas de excelência?

Cada vez assistimos mais a mais crianças com lesões articulares. Somos um país de futebol e os miúdos querem ser jogadores. Pais e treinadores incentivam à prática em vez de diversificarem as actividades. Os riscos de lesão estão inerentes a esta prática muito concentrada e exigente numa idade muito precoce. Era importante mudar esta mentalidade. Com treinos quase todos os dias e jogos ao fim-de-semana, a exposição ao risco é maior. São muitas horas em cima dos tornozelos, dos joelhos e das ancas. As crianças devem brincar, e não ser atletas.

Com a pandemia, muitas pessoas que não praticavam qualquer actividade física começaram a fazê-lo. Têm maior risco de sofrer lesões?

Sim, porque a maior parte das pessoas começou sem qualquer acompanhamento profissional. É importante fazer o aquecimento e alongamentos. Qualquer desporto precisa de uma fase de adaptação, experiência e treino. Quando há um excesso de solicitação de determinada estrutura, seja um tendão ou um músculo, pode haver lesão.

Têm aparecido na CUF muitos casos desses?

É muito frequente aparecerem doentes com síndrome de sobrecarga que ocorrem nas pessoas menos preparadas. Quando queremos dar um passo maior que a perna pode correr mal. O exercício é bom para a saúde. Isso é indiscutível. Vivemos numa sociedade muito sedentária e é preciso estimular o exercício, mas para que não haja lesões é importante o acompanhamento e a supervisão.

A rotura do menisco é uma lesão comum nos desportistas?

As lesões ligamentares e lesões musculares que não carecem de tratamento cirúrgico são as mais frequentes. Dentro das que dão chatices e que exigem tratamento cirúrgico a lesão do menisco é a mais frequente. Habitualmente surge por um traumatismo directo do joelho, uma entorse ou uma torção.

Há desportos mais propícios a este tipo de lesão?

Acontece principalmente nos desportos de contacto como o rugby, o futebol, o basquetebol ou o andebol. Ou no ténis, padel e squash, onde há movimentos repentinos do joelho.

Quais as queixas associadas a esta lesão?

A dor é o sinal óbvio que algo não está bem. Mas nem sempre as lesões do menisco se traduzem no início por uma dor muito forte. Pode também ocorrer inchaço, incapacidade ou pouca tolerância para a marcha. Em casos mais complicados e mais raros o joelho fica bloqueado. Não é possível mexê-lo.

Como tem evoluído o tratamento desta patologia?

Todas as cirurgias têm uma aprendizagem inerente. Aperfeiçoamos técnicas que permitem reparar lesões que antes não conseguíamos. Diria que hoje estamos habilitados a fazer qualquer cirurgia ao menisco.

É importante agir o mais cedo possível?

No nosso corpo tudo tem o seu tempo. O que é o mais sensato, numa fase inicial, é esperar sete a dez dias com repouso e gelo. Uma dor e um inchaço que não passam numa semana devem ser avaliados por um médico especialista.

Com a pandemia aguenta-se mais a dor por receio de ir ao hospital?

As lesões do menisco devem ser reparadas nos primeiros três meses. Não faz sentido esperar, por receio da pandemia, porque o bloco operatório não representa riscos. Não é que não se possa fazer depois deste tempo, mas a taxa de sucesso diminui bastante. A taxa de sucesso depende também do ânimo do paciente.

É possível recuperar a actividade desportiva pré-lesão?

Antes de termos a possibilidade de reparar os meniscos o que fazíamos era removê-los. Se há pessoas que toleram razoavelmente bem a ausência dessa estrutura, há outras que não e deixam de praticar o desporto que praticavam antes da lesão. A longo prazo, a remoção de parte do menisco também tem consequências no desgaste da articulação. Tentamos fazer um restabelecimento da função daquela estrutura, o que permite depois voltar à prática desportiva normal.

Tiago Lázaro

Futebolista recupera de lesão grave e consegue entrar para a Força Aérea

Tiago Lázaro tinha 15 anos quando num jogo de futebol pelos Águias de Alpiarça, em Coruche, sofreu uma grave lesão no joelho esquerdo. Pensou que já não conseguiria voltar a jogar e que tinha de desistir do sonho de ser militar. Mas a intervenção do Hospital CUF Santarém fê-lo concretizar os objectivos.


Uma lesão num jogo de futebol ao serviço do Águias de Alpiarça quase deitava por terra o futuro que Tiago Lázaro sonhava. Queria entrar para a vida militar e seguir uma carreira na GNR. Depois de uma operação bem-sucedida ao joelho, não só conseguiu entrar para a Força Aérea como continua a jogar futebol no clube ao qual regressou após ter representado outros emblemas.


O jovem de Santarém esteve em risco de não conseguir entrar para aquele ramo das forças armadas, quando disse que já tinha sido operado ao joelho. Mas superou os exames médicos e as provas que deu mereceram um voto de confiança e logo para uma missão mais exigente, a da polícia aérea, que requer mais esforço físico. Tiago Lázaro está quase a acabar o curso da área na Força Aérea e depois de superado este desafio, que prova o trabalho feito na recuperação de uma lesão bastante grave, pretende continuar na vida militar e esperar o momento para concorrer à Guarda Nacional Republicana.


O jogador e militar recorda como se fosse hoje aquele jogo no campo do Coruchense, equipa que estava a defrontar pelo Águias na posição de defesa central. O dia parecia estar de azares para Tiago, na altura com 15 anos e no segundo ano de iniciados. Na primeira parte, a cabecear uma bola, caiu desamparado com a perna esquerda. Mas superada a dor forte voltou ao jogo. Na segunda parte é que teve de ser tirado do campo em ombros, quando a defender uma bola torceu a mesma perna. Na altura sentiu logo que a situação tinha sido grave. Percebeu que tinha a rótula fora do sítio.


Tiago Lázaro foi para o hospital, onde lhe disseram para meter gelo e esperar que passasse. Como sentia não estar bem accionou o seguro desportivo e foi mostrar a lesão ao ortopedista do Hospital CUF Santarém. Feito o diagnóstico foi operado de urgência ao menisco e ligamentos cruzados, cerca de uma semana depois. O jovem, agora com 20 anos, não pensava que um dia fizesse a vida normal sem sequelas e diz que tem muita sorte em poder continuar a jogar futebol, perante a gravidade da lesão que sofreu.


A recuperação estava prevista para um período de cerca de um ano, mas ao fim de nove meses começou a fazer exercício, o que vaticinava uma rápida melhoria do estado de saúde. Para o que contribuiu, confessa, o acompanhamento do médico Gonçalo Martinho da CUF Santarém, conjugado com uma grande força de vontade de superar a lesão.

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