Sociedade | 11-05-2021 15:00

Dois irmãos ciganos são um exemplo  de mérito escolar em Azambuja

Dois irmãos ciganos são um exemplo  de mérito escolar em Azambuja
SOCIEDADE
Nuno e Raissa Martins são irmãos ciganos que têm um aproveitamento escolar invejável na Escola Secundária de Azambuja

Nuno e Raissa Martins passam ao lado da discriminação e da má imagem que alguns têm da etnia cigana para marcarem um percurso escolar considerado de sucesso e fugirem das feiras.

Ela é aluna de mérito na Escola Secundária de Azambuja. Ele também se destaca por boas notas. Os irmãos, considerados exemplos na escola, querem seguir Direito e desejam chegar ao doutoramento.

Os irmãos Nuno e Raissa Martins são ciganos com um aproveitamento escolar invejável na Escola Secundária de Azambuja. Ela, com 14 anos, é aluna do quadro de mérito e quer ser um exemplo para as raparigas da sua etnia. Ambos querem entrar na universidade e seguir Direito, embora os percursos que desejam sejam diferentes. Ele quer ir para a Polícia Judiciária e ela quer ser advogada. O sucesso nos estudos é facilitado pelo facto de não sentirem racismo e de terem amigos fora da comunidade cigana.

Raissa, que está no 9º ano de escolaridade e é aluna de quatros e cincos, contraria a ideia de que as adolescentes ciganas são obrigadas pelas famílias a abandonarem os estudos. A adolescente considera que o motivo de muitas raparigas da sua etnia abandonarem a escola não é para casarem ou para trabalharem nas feiras, por exemplo. É sim porque não conseguem lidar com o racismo de que são alvo todos os dias. “Os ciganos são discriminados na escola, ouvem muitas vezes coisas que não gostam”, o que lhes cria revolta e os desmotiva a prosseguirem os estudos, realça a aluna de mérito, que no próximo ano lectivo pretende seguir a área das Ciências Socioeconómicas.

Os irmãos sentem-se integrados na escola e o seu grupo de amigos integra ciganos e não ciganos. Nos tempos livres, Nuno, de 16 anos, a frequentar o 10º ano, com notas de 14 valores, gosta de tocar guitarra com os amigos tocando músicas flamencas. Raissa prefere conviver com as amigas. Na secundária são respeitados e tidos como um exemplo, mas já se sentiram discriminados noutros níveis de ensino. Raissa conta que um dia um colega de escola lhe disse que por ser cigana nunca iria chegar a lado algum. Mas o que a podia fazer desanimar fez com que tivesse ainda mais forças para provar que pode ir longe e calar as bocas de quem olha de lado para as pessoas desta etnia.

O apoio dos pais e familiares tem sido fundamental no percurso escolar de Nuno e Raissa, convictos que hoje há mais oportunidades de trabalho para os ciganos do que havia quando os seus pais eram jovens. Na altura vender nas feiras era a melhor oportunidade de vida e foi o destino dos pais destes alunos. O exemplo dos pais feirantes é um estímulo para se agarrarem aos estudos e fugirem de uma actividade incerta, em que algumas vezes nem ganham para as deslocações, como contam os irmãos. É por viverem as dificuldades de quem tem de andar de terra em terra sem saber o que conseguem vender que os pais de Nuno e Raissa também incentivam os filhos a lutarem por uma vida melhor.

O entusiasmo pelos estudos leva os irmãos a sonharem com um futuro doutoramento na área do Direito. E não escondem o que são apesar da má imagem que as pessoas têm da etnia. A família vive num apartamento no Beco Madre Teresa de Calcutá, um bairro social que é conhecido por Bairro da Quinta da Mina e onde vivem outras famílias ciganas. “Já tive colegas e amigos que me disseram para esconder aquilo que sou para conseguir chegar mais longe e é isso que não quero”, diz Raissa, que granjeia a simpatia e orgulho de colegas e professores.

Os dois irmãos foram contemplados com bolsas de estudos ao abrigo do programa Roma Educa, que tem como objectivo incentivar o sucesso escolar das comunidades ciganas, o que lhes dá ainda mais estímulo e sentido de responsabilidade. Cada bolsa tem o valor de cinquenta euros mensais e permite ajudar nos gastos relacionados com a escola.

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