Sociedade | 06-06-2021 18:00

58 famílias reclamaram os seus mortos no cemitério de São Sebastião em Alverca

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58 famílias reclamaram os seus mortos no cemitério de São Sebastião em Alverca

Após quarenta anos de impasse, abandono e degradação o cemitério de São Sebastião, em Alverca do Ribatejo, está a ser desactivado. O MIRANTE foi acompanhar os trabalhos. Há 564 campas para libertar, 144 por identificar e sepulturas a virar peças de museu. Apenas 58 famílias reclamaram os seus mortos.

Dentro da cova o trabalho faz-se em silêncio. O único som é dos ossos levantados da terra a serem colocados num saco preto identificado com um número. Não há nenhum familiar a assistir e os coveiros nada sabem sobre a quem pertencem aquelas ossadas. O número que está no saco reserva a identidade, mas identifica a nova morada daqueles restos mortais que vão ficar temporariamente na capela do cemitério de São Sebastião até, neste caso, serem cremados e depositados num cendário no novo cemitério da Cruz das Almas, também em Alverca.

Este conjunto de tarefas que se vão repetir ao longo de vários dias são o fim de um impasse com 40 anos, com avanços e recuos, promessas e brigas políticas entre Câmara de Vila Franca de Xira e União de Freguesias de Alverca e Sobralinho. Não se sabe ao certo quanto tempo vai levar até o cemitério ficar completamente desactivado, o que implica o levantamento de todos os ossários das 564 campas e 14 jazigos. Em média prevê-se que sejam levantados 10 corpos por dia, com a ajuda de pás e uma mini-escavadora. No primeiro dia, entre as 08h30 e as 15h30, tinham sido levantadas ossadas de 16 defuntos.

Horácio Oliveira, encarregado responsável dos dois coveiros ao serviço, confirma que a tarefa tem sempre inerente o “factor surpresa”. No coval onde cavam o solo já remexido pela escavadora, segundo a indicação que tinham, “não existia nenhum corpo, apenas a sepultura” mas afinal entre diferentes camadas de terra estavam sepultados dois corpos.

Na campa ao lado a indicação foi certeira: quatro corpos da mesma família foram levantados em duas horas. “Mais tempo do que numa exumação normal”, porque neste cemitério o procedimento é, desde logo, mais moroso devido à compactação do solo, que não é mexido desde 1986, ano do último funeral ali realizado - à excepção da dezena e meia de corpos sepultados em campas temporárias, que foram exumados em 2011.

Lúcio Silva, o coveiro de terço ao peito, afasta um pedaço de tecido que foi no século anterior uma peça de roupa. Ainda há restos de madeira do caixão onde foi metido um saco de cal, para acelerar a decomposição. “Mas os ossos estão cá, não todos, os mais pequenos desaparecem, mas o fémur de cada perna, os ossos da bacia e o crânio não”, explica Paulo Duarte, o coveiro de 36 anos, natural de Pontével, concelho do Cartaxo.

Quatro exumações vão ter as famílias presentes

A experiência de 17 anos como coveiro já lhe mostrou que as pessoas não reagem à perda nem cuidam dos seus mortos da mesma forma: há os que ao fim de alguns anos continuam a chorar e a levar flores aos seus mortos e os mais frios ou indiferentes que depois do funeral não voltam ao cemitério. No cemitério de São Sebastião apenas quatro campas eram cuidadas e apenas quatro pessoas pediram para estar presentes durante as exumações dos seus familiares, mas, diz Paulo Duarte, com ou sem a presença de familiares o trabalho faz-se com o máximo de respeito.

Das quase 600 campas apenas 58 foram reclamadas pelas famílias dos mortos do cemitério de São Sebastião, há quatro décadas em estado de abandono. A junta de freguesia ia fazendo alguma manutenção que cessou assim que chegou a acordo com a Câmara de Vila Franca de Xira para a desactivação daquele espaço. As ervas daninhas tomaram o seu lugar entre as campas de pedra e os vasos e jarras quebradas que um dia tiveram flores; algumas das sepulturas abateram ou partiram deixando ossadas a descoberto, num cenário que parece saído de um filme de terror.

O contrato para a desactivação do cemitério foi aprovado e assinado em Março deste ano, representando o “retomar de um processo que já estava definido em edital desde 2008”, refere o presidente da Junta de Alverca, Carlos Gonçalves que vai assim poder cumprir uma “promessa eleitoral” e acabar com um espaço que “não dignificava os mortos”. Foi dado tempo às famílias, explica, para “reclamarem e decidirem o destino a dar aos seus mortos”, que as autarquias vão respeitar.

A maior parte escolheu o cemitério da Cruz das Almas, mas pelo menos um corpo vai ser trasladado para um cemitério no Algarve. No caso dos que não responderam - ainda podem fazê-lo - os corpos vão ser considerados como abandono. “A própria legislação prevê que ao fim de 30 dias sem manutenção e conservação haja posse administrativa”, sublinha o autarca.

Sepulturas convertidas em peça de museu

Catarina Conde, directora do Departamento de Ambiente e Gestão de Espaço Público da Câmara de Vila Franca de Xira, acompanha os trabalhos de mapa na mão para evitar erros e para resolver imprevistos. “Há campas que estavam tapadas e que não faziam parte da planta inicial”, diz, explicando que é atribuído um número para o caso de algum familiar ir ao local e reclamar essas ossadas. Além das que podem ainda surgir à medida que se levanta a terra há 144 campas não identificadas, ou seja, não se sabe quem lá está ou quantos lá foram enterrados.

Algumas das campas estão marcadas com fitas pretas e amarelas. Vão ser as últimas a ser abertas, na presença de um responsável de museu. Trata-se de casos com interesse histórico e patrimonial que vão ficar preservados - as lápides e artefactos que possam estar no interior do coval - no núcleo museológico do cemitério da Cruz das Almas. Uma dessas campas assinaladas é a mais antiga, do princípio do século XIX, e pertence a um cirurgião sangrador. O mais provável, explica Carlos Gonçalves, é que tenham sido enterrados com o corpo utensílios utilizados na profissão. As restantes campas vão para aterro.

Terreno com futuro incerto

Durante o arranque dos trabalhos o presidente do município, Alberto Mesquita, que deixa as lides autárquicas este ano, afirmou que a desactivação do cemitério era uma das questões pendentes que queria deixar resolvidas. Os trabalhos vão custar ao município cerca de 90 mil euros e à junta caberá suportar os custos de trasladação e transferência de restos mortais.

A grande incógnita neste momento é o que vai ser feito daquele terreno. Mesquita gostaria que fosse uma continuação do Jardim Municipal José Álvaro Vidal uma vez que os Bombeiros de Alverca, a quem tinha sido prometido o terreno, não terão interesse nessa área propriedade da junta de freguesia.

Carlos Gonçalves já pensa na possibilidade de nascer naquele lugar a nova sede da autarquia, uma biblioteca ou até um auditório, mas ainda há para o autarca comunista uma questão pendente: “Temos um compromisso assumido com a direcção dos bombeiros e só depois de uma reunião oficial e se disserem que não querem o terreno definiremos o destino a dar-lhe”. Por isso, para já, certezas há apenas uma, a de que o terreno nunca será para construção de prédios de habitação.

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