Sociedade | 20-07-2021 18:00

Moradores de Fátima dão sinal do inferno de viver entre pedreiras

Moradores de Fátima dão sinal do inferno de viver entre pedreiras
SOCIEDADE
Moradores que vivem junto a pedreiras dizem-se abandonados pelo presidente da Junta de Fátima que consideram só se preocupar com o interesse das pedreiras

Moradores que falaram a O MIRANTE acusam o presidente da Junta de Fátima, Humberto Silva, de abandonar população em defesa dos interesses dos empresários. Pó, barulho de noite e de dia e circulação de camiões são as principais queixas de quem vive em Casal Farto, Maxieira e Boleiros.

Os moradores de Casal Farto e Maxieira acusam o presidente da Junta de Freguesia de Fátima, Humberto Silva, de ter abandonado a sua população em defesa dos interesses das pedreiras. Fernando Laranjeira, 70 anos, vive há vários anos no Casal Farto e diz que o actual presidente da junta nunca teve uma palavra com quem ali mora, paredes-meias com as pedreiras, e sofre com o barulho e o pó constantes. “Nunca vi o presidente da Junta de Fátima preocupar-se connosco, mas defende bastante as pedreiras. Será que há algum tipo de interesse?”, questiona.

Da varanda da casa de Fernando Laranjeira vê-se a Serra d’Aire e Candeeiros mas também se vê uma das maiores pedreiras da freguesia. O morador de Casal Farto conta que há pedreiras que trabalham 24 horas por dia e não se consegue descansar com o ruído. É por isso que cada vez mais pessoas estão a vender as suas casas. E são os donos das pedreiras que as compram. As paredes de sua casa já apresentam diversas fissuras.

“Isto é o inferno. É ensurdecedor quando as britadeiras estão a trabalhar. É muito pó e barulho. Não podemos ter roupa estendida na rua porque o pó entranha-se na roupa”, explica Fernando Laranjeira, acrescentando que as pedreiras vão vencendo as pessoas pelo cansaço e teme que daqui a 20 anos já não haja moradores no Casal Farto.

José Carlos Prazeres, 42 anos, vive na Maxieira, outra aldeia da freguesia de Fátima prejudicada com a laboração das pedreiras. Na sua aldeia o maior problema é a circulação de camiões por dentro da localidade, além do pó e barulho. “Todas as semanas encontramos pedras no chão que caem dos veículos pesados porque a carga vai mal acondicionada e circulam em excesso de velocidade para a carga que levam”, afirma o empresário.

José Carlos Prazeres mostra a O MIRANTE o muro da casa de uma vizinha, que vive junto à escola primária da Maxieira, com fissuras porque os camiões roçam nesse muro quando travam por causa de um lomba limitadora de velocidade colocada no local. “Os camiões têm estradas alternativas mas passam por dentro da localidade por ser mais rápido”, refere.

“As pessoas estão cansadas de viver neste ambiente”

O empresário conta que, quando as pedreiras pediram licenciamento, uma das contrapartidas pedidas pelo município era o horário limitado até às oito da noite. “Não é o que se passa. Há pedreiras que fazem turnos nocturnos, o que não faz sentido. A pedra não é um produto perecível, não tem que se trabalhar 24 horas por dia. Isto é só ganância, não tem outro nome”, lamenta José Carlos Prazeres.

Para José Carlos, se a Polícia Judiciária esteve na Câmara e Assembleia Municipal de Ourém, na Junta de Freguesia de Fátima e na casa do presidente da junta é porque “deve haver indícios de alguma coisa. Nisto tudo quem sai prejudicado é a população”, critica, acrescentando que não condena os moradores que estão a vender as suas casas. “As pessoas estão cansadas de viver neste ambiente, que é mesmo um inferno. Daqui a 20 anos não existem moradores porque as casas vão ser ocupadas pelas pedreiras”, sublinha.

António Vicente tem 84 anos e recorda-se da sua infância em Casal Farto, onde nasceu. Não havia pedreiras e era o paraíso. O cenário inverteu-se e viver no Casal Farto é um pesadelo. Depois de vários anos em França regressou há cinco anos e não pretende vender a sua casa. “Não tenho vontade nenhuma de sair daqui mas não é fácil. Há noites em que acordo com o barulho das britadeiras. É impossível descansar. A junta de freguesia não está a defender a população, está preocupada apenas com as pedreiras”, critica.

Câmara vai interditar passagem de camiões nas aldeias

O presidente da Câmara de Ourém, Luís Albuquerque, disse em entrevista a O MIRANTE, publicada na semana passada, que iam interditar a passagem de camiões por dentro das aldeias. O autarca afirma não ser um defensor das pedreiras mas sabe que são importantes para a economia do concelho e que estão em causa muitos postos de trabalho. Albuquerque explicou que o novo Plano Director Municipal (PDM) dá poder à Câmara de Ourém para exercer maior controlo sobre a área de exploração das pedreiras.

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