Sociedade | 12-09-2021 18:00

Charneca da Glória do Ribatejo continua um barril de pólvora

Charneca da Glória do Ribatejo continua um barril de pólvora
António Matias alertou, semanas antes do incêndio, a Autoridade Nacional de Protecção Civil para a falta de limpeza na charneca da Glória

Bombeiros e o município investiram na prevenção, mas a charneca da Glória do Ribatejo voltou a arder. O problema continua a ser o mesmo: a falta de ordenamento do território. Uma semana depois, O MIRANTE percorreu os 98 hectares de terra ardida onde pequenos produtores ainda fazem contas ao prejuízo. Quem viu o fogo de perto não esquece o susto.

O verde da charneca que se via do quintal da pequena vivenda de Jaime Pirralha e Jacinta Inocêncio deu lugar a um cenário negro com cheiro a cinza. Foi ali, a escassos metros da sua habitação, na Rua das Janeiras, na Glória do Ribatejo, concelho de Salvaterra de Magos, que teve início o incêndio que consumiu cerca de 98 hectares de floresta a 22 de Agosto.

Jaime Pirralha estava a dormir quando o barulho das sirenes dos carros dos bombeiros o despertaram para um pesadelo. Gritou pela esposa, saíram à rua, mas decidiram ficar. “Íamos para onde? A nossa casa é aqui”, diz sentado numa cadeira à sombra onde passa parte do dia.

“Tivemos medo, claro, que nos ardesse isto tudo. Só víamos bombeiros e aviões pelo ar e o fogo mesmo aqui ao lado”, atira Jacinta Inocêncio, queixando-se que já está “velha para estes sustos”. A casa ficou intacta, mas uma propriedade, mais ao fundo, ardeu toda.

António Matias, de 71 anos, ofereceu-se para nos guiar pela terra que as chamas devastaram. “Isto tudo ardeu há cinco anos e não foi feito rigorosamente nada”, diz enquanto sacode as folhas de uma pequena árvore queimada. “Com o combustível que cá ficou o que não foi consumido neste incêndio está pronto para arder outra vez”, reclama mais à frente, na estrada que liga a Fajarda à Glória do Ribatejo, por onde o fogo andou em 2016.

Milhões gastos todos os anos no combate a incêndios

Na primeira semana de Agosto, António Matias, que tem uma propriedade na Fajarda, no concelho vizinho de Coruche, contactou a Autoridade Nacional de Protecção Civil. “Alertei para o problema, que não é novo mas é recorrente. As bermas de estradas estão por limpar, os restos de madeira ardida de há cinco anos continuam nos terrenos. Isto preocupa-me”. Como resposta disseram-lhe que tinha que contactar a Protecção Civil Municipal. Entendeu que não, porque um problema com esta dimensão não se resolve localmente.

Grande parte da charneca de Glória do Ribatejo, à semelhança de 9 por cento do território nacional, é ocupada pela plantação de eucaliptos, espécie conhecida por ser mais inflamável que outras.

Não é entendido na matéria, avisa António Matias, mas não deixa de especular sobre o negócio dos fogos. “Já alguém pensou que com o que se gasta em aviões e combustível para os carros dos bombeiros dava para pagar a madeira aos produtores e abrir mais corredores e mais largos, e afastar as árvores das estradas?”, questiona.

O combate ao incêndio durou mais de oito horas e envolveu 277 operacionais apoiados por 82 viaturas e 12 meios aéreos. Estiveram presentes bombeiros de cinco distritos: Santarém, Lisboa, Portalegre, Leiria e Setúbal. Tudo isto custa dinheiro, muito dinheiro.

“O problema é nacional, não é de Salvaterra nem da Glória”

Em Março deste ano, ao mesmo tempo que num Conselho de Ministros se aprovava o Programa Nacional de Acção do Plano Nacional de Gestão Integrada dos Fogos Rurais, deu-se luz verde à compra de doze helicópteros, dois aviões bombardeiros anfíbios e formação de pessoal para o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais, no valor de 155 milhões de euros.

O reforço de meios próprios é sem dúvida importante para o país, mas essa medida não pode funcionar isoladamente. O problema, diz a O MIRANTE o comandante dos Bombeiros de Salvaterra de Magos, Paulo Dionísio, está na “falta de ordenamento do território e no tipo de espécies plantadas” nas florestas.

“O problema é nacional, não é de Salvaterra nem da Glória do Ribatejo. Os pequenos produtores florestais até podem limpar os seus terrenos, mas não têm capacidade de actuar e resolver o problema sozinhos”, sublinha, acrescentando que é urgente reflorestar com a plantação de espécies autóctones.

O risco de incêndio, alerta o comandante, está a subir à medida que se acentuam as alterações climáticas. “Este ano é verdade que não temos tido muito calor, mas os solos secos e o vento são suficientes para aumentar o risco”, diz, recordando que no incêndio de 22 de Agosto “estavam reunidas [estas] condições”.

Destacando “o trabalho exímio” dos bombeiros, que conseguiram controlar o incêndio ao fim de quatro horas sem que habitações ficassem em risco, Paulo Dionísio sublinha o esforço dos Bombeiros de Salvaterra de Magos ao nível da prontidão. “Colocámos sete operacionais com várias viaturas em postos estratégicos na Glória e em Marinhais, o que nos permite reduzir em 20 minutos o tempo de chegada”, explica.

O presidente da Câmara de Salvaterra de Magos, Hélder Esménio, destaca ainda as quatro equipas de vigilância da Protecção Civil Municipal. “Desde há cinco anos que não tínhamos um incêndio de grandes dimensões, aliás a área ardida tem tido uma regressão significativa”, refere o autarca, fazendo notar que o incêndio de 22 de Agosto eclodiu no interior da charneca e não junto a nenhuma estrada municipal.

A gestão, afirma Hélder Esménio, “tem de ser feita ao nível do Estado”, não tendo  a câmara municipal competência para limpar dentro da charneca. “Não há cabimento legal para isso”, vinca.

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