Sociedade | 14-09-2021 10:00

Últimas lavadeiras de São Facundo mantêm tradição nos tanques comunitários da aldeia

Últimas lavadeiras de São Facundo mantêm tradição nos tanques comunitários da aldeia
Maria Ana, Aida Ezequiel e Celeste Rodrigues

Lavar roupa à mão em tanques comunitários é uma actividade cada vez mais em desuso. O MIRANTE conversou com três das últimas lavadeiras de São Facundo, que continuam a utilizar com gosto e orgulho o tanque em tempos muito concorrido e onde circulavam os mexericos da aldeia.

Desde que se conhece que Aida Ezequiel utiliza o tanque da aldeia de São Facundo, no concelho de Abrantes, onde aprendeu a lavar roupa com a mãe. É com saudade que relembra os tempos em que as mulheres da aldeia faziam fila para usar o espaço, antes de as máquinas de lavar roupa se tornarem vulgares. As idas quase diárias ao tanque passaram a ser mais espaçadas, mas garante que duas vezes por semana continua a marcar presença. Fala a voz de quem sabe: “Há roupa que fica melhor quando é lavada à mão, sobretudo a branca, e esta água é muito boa, sem calcário e descasca bem”, explica a O MIRANTE, enquanto se dirige ao local com o balde de roupa debaixo de um braço e o sabão na mão.

Também a caminho do local, junta-se à conversa Maria Ana que lava roupa no tanque desde há quatro décadas, quando foi viver com o marido para a aldeia. “Eu aprendi com a minha mãe na ribeira e quando vim para cá trazia o meu filho ao colo e estranhei, porque era muita gente que eu não conhecia; elas falavam todas e eu mantinha-me calada com vergonha”, conta divertida a lavadeira de 68 anos, enquanto molha a primeira camisa na água ainda límpida.

Lavar à mão exige alguma técnica e a melhor forma de tirar uma nódoa continua a ser a pedra do tanque, acompanhada da barra de sabão. “As peças mais fáceis são as toalhas de mesa e a roupa interior”, explica Aida Ezequiel, que guarda na memória o tempo em que os lençóis se estendiam numa corda perto do tanque e ali ficavam até ao dia seguinte a secar e corar.

“Eram tempos muito difíceis, mas éramos todos mais felizes. Todas as pessoas da aldeia vinham lavar ao tanque porque não havia máquinas. Tínhamos um sentido de comunidade muito forte e isso perdeu-se, já pouca gente vem lavar, devemos ser no máximo uma dúzia”, lamenta Aida Ezequiel, de 65 anos, admitindo gostar de calçar as botas de borracha para lavar o próprio tanque.

Ao local recentemente renovado chega entretanto Celeste Rodrigues, que se junta à conversa. Tal como as companheiras, aprendeu com a mãe e nos dias de hoje vai lavar apenas a roupa que não aguenta as altas temperaturas da máquina de lavar. Agora reformada, conta que viveu muitos anos na zona de Lisboa. “Quando voltei há quase duas décadas custou-me, mas não tanto como ir embora. Quando estive fora até falta de lavar a roupa à mão no tanque eu sentia”, desabafa a lavadeira de 76 anos enquanto esfrega com garra a nódoa que encontrou na camisa do marido.

A falta do tanque também é um sentimento que Aida Ezequiel conhece, sobretudo quando esteve emigrada em França e na Suíça. “Chorava todos os dias com saudades da minha aldeia”, conta enquanto esfrega com a escova o par de sapatos que trouxe no balde. Nem homens, nem jovens se juntam a elas e lamentam que esta seja uma tradição que certamente se vai perder com a passagem do tempo. “Ainda coloquei o meu filho em pequeno a lavar, mas talvez por ser rapaz tenha perdido o interesse. Os maridos normalmente vinham ajudar a levar os alguidares de roupa molhada para casa, sobretudo quando lavávamos os cobertores”, diz.

O sítio onde se sabiam os mexericos da aldeia

As segundas-feiras continuam a ser os melhores dias para encontrar a água límpida e em tempos distantes era também durante a partilha do tanque que circulavam os mexericos da aldeia. “Sabia-se as novidades todas, os namorados, quando algum apanhava uma bebedeira. Agora não, agora vem uma, daqui a um bocadinho vem outra e às vezes lá nos encontramos aqui”, conta Maria Ana, de roupa e alguidar preparados para abandonar o local, não sem antes deixar a triste notícia que tem um familiar doente.

Para quem não conhece o tanque, parece estranho que as lavadeiras tenham lugares preferidos. “Há zonas ligeiramente mais altas e inclinadas que só quem usa se apercebe, antigamente tínhamos sítios quase sempre fixos e ficávamos todas encostadas por sermos muitas”, relembra com saudade Aida Ezequiel que admite sentir falta até das “zaragatas” que por ali havia. “Recordo-me de uma discussão tão feia que se ouviu ao cimo da aldeia. Até água atirámos uma à outra e até hoje não nos falamos”, conta animada enquanto acaba de enxaguar as últimas peças de roupa.

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