Sociedade | 15-09-2021 07:00

Maternidade aos 40: o adiar do sonho em prol da estabilidade

Maternidade aos 40: o adiar do sonho em prol da estabilidade
Sónia Gonçalves e a filha Leonor com dois dias de vida. Obstetras no Hospital de Santarém, Paula Barroso Rolha e Maria Helena Esteves alertam para os riscos da maternidade a partir dos 35 anos (foto DR)

Sónia estava ciente do risco mas adiou ser mãe até à chegada da estabilidade financeira e emocional. O útero de Tânia obrigou-a a esperar . A gravidez aos 40 anos é cada vez mais frequente, muitas vezes adiada em nome da carreira profissional. É positiva a maior maturidade e a estabilidade financeira, mas há riscos para a mãe e bebé, alertam as obstetras Paula Rolha e Helena Esteves.

Sónia Gonçalves sempre quis ser mãe e nunca escondeu esse desejo. O relógio biológico despertou antes de chegar ao trigésimo aniversário, mas o sonho foi sendo adiado. Não se sentia confortável em trazer um bebé para o mundo sem ter estabilidade financeira e profissional. Aos 34 anos teve o primeiro filho e seis anos depois, aos 40, foi mãe pela terceira vez. Muitos a questionaram sobre o porquê de voltar a ser mãe com esta idade, mas tal como Sónia Gonçalves são cada vez mais as mulheres que arrancam o estereotipado “rótulo de prazo de validade” e arriscam a viagem gestacional cada vez mais tarde.

“Nunca tive pressa de ser mãe, porque apesar dessa vontade queria ter estabilidade financeira antes de avançar. Ter três filhos e ter um trabalho incerto não era compatível e não queria depender de outros”. Foram estes os motivos que levaram a professora de matemática de Azambuja a atrasar a chegada do Gabriel, do Rafael e da recém-nascida Leonor. Também o relacionamento pesou na equação, pois entre namoros que foram caindo esperou pela pessoa certa.

A gravidez tardia traz riscos associados para a mãe, mas sobretudo para o bebé. Não é regra, mas também não é excepção. Importa, alerta a obstetra do Hospital Distrital de Santarém (HDS), Paula Rolha, conhecer as complicações “associadas às gestações em idades avançadas”, numa tentativa de “ajudar a decidir e planear o melhor momento para uma primeira gravidez”. No caso de avançar, “a vigilância é fundamental e deve ser iniciada precocemente, entre as oito e as 10 semanas”, permitindo “detectar atempadamente alguma alteração, com o intuito de actuar rapidamente para se evitar ou minimizar complicações”.

A decisão é do pai, da mãe e do corpo da mulher

O estado de graça nem sempre vem quando a mulher quer. Tânia Ribeiro sentiu que tinha chegado o momento de viver a maternidade pela primeira vez, mas uma lesão no útero, detectada numa citologia, trocou-lhe as voltas. Tinha 37 anos e alguns de espera por uma “vida mais estável para ser mãe”. O impasse prolongou-se, mas a vontade de gerar vida não diminuiu. “Em Setembro de 2020 fiz novos exames e a ferida estava sanada. Três meses depois estava grávida e em Junho fiz 40 anos”. A mãe do pequeno José Miguel, natural de Santarém, recorda estes momentos no quarto da maternidade do HDS, dois dias depois do parto, entre choros que afligem e a alegria da “realização de um sonho”.

Para a obstetra do HDS, Helena Esteves não há dúvidas: “Efectivamente é mais frequente a primeira gravidez ser adiada para depois dos 35, idade a partir da qual já se considera existir risco aumentado de complicações obstétricas”. E são sobretudo para o feto. “Atraso no crescimento, prematuridade, anomalias congénitas e alterações cromossómicas (trissomias 21,18 e 13)” que podem levar à “necessidade de interromper a gravidez de modo a evitar desfechos indesejáveis”, explica a médica, acrescentando que também o risco de aborto espontâneo e a mortalidade perinatal aumentam nestas faixas etárias.

Em nenhum dos dois testemunhos de mães aos 40 que aceitaram falar a O MIRANTE houve complicações, mas a vigilância foi redobrada. “Sabia que podia haver algumas complicações. Tomei suplemento extra de ferro, fiz os rastreios necessários e felizmente não cheguei a fazer a amniocentese (exame invasivo para colheita de líquido amiótico)”, conta Sónia Gonçalves, ao lado da bebé Leonor nascida de parto normal a 5 de Setembro na maternidade do HDS.

A espera pelas condições ideais

Na maioria dos casos de gravidez tardia que passam pelas mãos e cuidados das médicas de ginecologia e obstetrícia, os motivos são pessoais e profissionais. E a culpa pode ser atribuída à “nossa sociedade que se tornou muito competitiva”, levando a que “muitas vezes a necessidade de manter um emprego estável não se compadeça com longos períodos de ausência laboral que a gravidez exige”, diz Paula Rolha, acrescentando que “também cada vez mais o casal deseja reunir as condições ideais para o nascimento e educação de um filho”.

Na perspectiva das profissionais de saúde, não é a melhor opção engravidar tão tardiamente pois os riscos associados são muitos. A solução? “O Estado proporcionar maior apoio para as grávidas e jovens mães, não devendo a maternidade pôr em risco os seus postos de trabalho”, defende Helena Esteves.

De uma maneira geral são grávidas mais ansiosas, no caso de ser a primeira gravidez e pelo conhecimento dos riscos associados à idade. Por outro lado, refere Paula Rolha, por se tratarem de casais mais ponderados e responsáveis, são habitualmente mais cumpridores das recomendações médicas.

Nasceram menos bebés em 2021

No distrito de Santarém nasceram menos bebés nos primeiros oito meses de 2021, comparativamente aos últimos três anos e acompanhando a tendência nacional. Na maternidade do Hospital Distrital de Santarém registaram-se até 31 de Agosto 703 nascimentos, menos 27 que em 2020 e menos 21 que em 2019, quebrando para já, a tendência crescente que se verificava desde 2018. No Centro Hospitalar do Médio Tejo nasceram, até 26 de Agosto de 2021, 460 bebés, menos 366 que em igual período de 2020 e menos 330 do que 2019. O número de partos ocorrido em 2020, já não era alcançado desde 2014, ano em que se registaram 801 partos.

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