Há falta de paz interior por causa da indústria do entretenimento
Se não fosse padre, José Abílio Costa estaria provavelmente ligado ao mundo das ciências, mas na altura de entrar para a universidade escolheu Teologia e entregar-se à graça de Deus.
José Abílio Costa é pároco há mais de meio século, tendo passado por várias paróquias na região, nomeadamente Rio Maior, S. João da Ribeira, Alcanhões, Vale Figueira, todo o concelho da Chamusca, Alpiarça, Benfica do Ribatejo e Almeirim, onde está actualmente. Afirma que um padre tem de estar de coração aberto e ter uma relação de amor com todos, inclusive os não crentes. Esta entrevista de O MIRANTE revela a personalidade de um homem franco, espontâneo, de mente aberta e que tem uma opinião sobre o Mundo e as relações humanas que vai muito para além do que é ser cristão.
Andamos muito distraídos na vida?
A sociedade anda muito distraída porque as pessoas são incapazes de viverem em silêncio. A sociedade criou a indústria do entretenimento que retirou a paz interior nas pessoas. Só no silêncio é que somos capazes de ouvir o apelo do nosso coração e de escutar os outros. A indústria tenta distrair-nos nesse sentido, não quer que pensemos no essencial. Vivemos numa época muito perigosa.
Alguma vez se sentiu à deriva?
Há três situações em que me senti perdido. Sempre me senti vocacionado para a área das ciências e aos 18 anos tive de fazer uma opção e seguir a área das letras, porque era o que se impunha. Não foi uma decisão fácil porque ia contra a minha vontade inicial. Outra situação teve que ver, quando tinha 23 anos, com as minhas dúvidas em relação à vontade de ser padre. Devido à minha estrutura humana e espírito crítico fui o último a ser ordenado, porque precisava de sentir interiormente, de ver mais claramente que este era o caminho. A última vez que me senti à deriva foi há seis anos e meio por causa de um problema de saúde, mas consegui recompor-me. Tiveram de me tirar o intestino grosso e fui para a operação no IPO (Instituto Português de Oncologia) com uma paz interior muito grande, sabendo que podia partir para a eternidade.
Como vive a experiência do luto?
Como qualquer ser humano. Não é fácil lidar com perdas, não é fácil lidar com a dor, com a doença. Eu vivi isso na minha doença e na do meu irmão mais novo, que durante 25 anos lutou com um cancro nos ossos. A dor e a doença quando são enfrentadas com fé tornam-se mais fáceis de digerir. Em relação ao luto é a mesma coisa. Estava a estudar em Madrid, em 1999, e não acompanhei a parte final da vida do meu pai, o que me deixou alguma mágoa. A minha mãe faleceu há ano e também não me consegui despedir dela por causa da pandemia. Ser padre e já ter acompanhado milhares de famílias enlutadas também me ajuda a lidar com o luto.
Não é suposto um católico não ter medo da morte?
Os católicos são seres humanos. A fé tranquiliza-nos, não impede a crise. A doença, a limitação, a perda de autonomia fazem parte da vida dos católicos e dos padres. Claro que a esperança da vida eterna ajuda a viver esses momentos com outra serenidade.



