Dona do lar de Riachos admite que escondeu morte e diz-se arrependida
Ana Paula Alves confessou que errou, mas também tentou convencer o colectivo de juízes que uma das idosas não estava morta há 12, mas no máximo há três dias. O julgamento arrancou esta quarta-feira, 2 de Fevereiro.
Ana Paula Alves, a dona do lar ilegal de Riachos, Torres Novas, onde o cadáver de uma das utentes foi encontrado num quarto partilhado com outras duas utentes, mostrou-se arrependida por não ter informado a família e as autoridades da morte da idosa. Na primeira sessão do julgamento, que decorreu esta quarta-feira, 2 de Fevereiro, no Tribunal de Santarém, a arguida afirmou que a idosa estava morta há “dois ou três dias”, contrariando a acusação do Ministério Público onde se lê que estaria morta há 12 dias, dado o “avançado estado de decomposição e aparente esqueletização”.
A proprietária do lar, onde morreram três idosos no espaço de três meses, está a ser julgada por quatro crimes de maus-tratos, dois deles agravados por terem resultado em morte, e por um crime de profanação de cadáver.
Questionada pela juíza se não pensou na saúde das utentes que durante 12 dias conviveram no mesmo quarto com um cadáver em decomposição, já com membros mumificados, sem olhos, nariz e larvas nas partes mucosas, Ana Paula Alves, limitou-se a dizer: “não tive cabeça, não pensei em nada disso”, sublinhando que está arrependida.
A procuradora do Ministério Público, foi insistente em algumas questões, justificando-se com a necessidade de perceber como é que a responsável de um lar não tem certezas do dia em que morreu uma das suas utentes. Nas declarações, Ana Paula Alves disse que ficou “tão bloqueada” que não se recorda do dia, mas que foi quando o neto da utente lhe comunicou que a ia buscar para a levar para um outro lar no Entroncamento. A expressão “bloqueio” foi também usada para explicar o motivo para não ter informado a família e autoridades sobre a morte da idosa.
Neto encontrou a avó morta na cama e em decomposição
O neto da idosa, que também prestou declarações nesta primeira sessão do julgamento, contou que ligou para Ana Paula Alves a informar que uma técnica de laboratório ia ao lar para realizar o teste à Covid-19 à sua avó. No dia do teste, confessou a arguida, enganou a técnica mandando-a fazer o teste a uma outra utente, não admitindo porém que já sabia da morte.
Emocionado durante o depoimento, o neto da idosa afirmou que Ana Paula Alves não lhe facilitou a entrada no apartamento onde funcionava o lar e que lhe disse que a sua avó se estava a sentir mal e que não queria ver ninguém.
Quando conseguiu entrar no apartamento, o familiar, diz que sentiu um forte “odor a podre” e que viu a sua avó toda tapada com a roupa de cama. “Destapo-a e vejo-a toda preta, quase sem nariz. Reconheci a minha avó por causa dos brincos que tinha”, afirmou, acrescentando que nesse momento Ana Paula Alves continuou a negar que a idosa estava morta, tendo-lhe feito “festinhas” na cara e falado para a acordar.
Para esta sessão estava incialmente previsto serem ouvidas outras testemunhas, das quais a filha de um outro idoso que faleceu no mesmo lar e o médico que está a ser julgado por ter passado uma certidão de óbito sem nunca ter visto o utente, mas foram dispensadas pela procuradora. Recorde-se que no apartamento veio a falecer ainda uma outra idosa, cuja morte foi anunciada por Ana Paula Alves, a 3 de Março, de 2021, no mesmo dia em que as autoridades foram chamadas ao lar pelo neto da outra utente.
*Notícia desenvolvida numa próxima edição semanal de O MIRANTE.


