Foi visitar a avó ao lar e encontrou-a morta e já em decomposição
Dona de lar de Riachos confessou que sabia que a utente estava morta quando o seu neto se deparou com o seu corpo já irreconhecível. O julgamento arrancou com a arguida a mostrar arrependimento e a tentar convencer o tribunal que o cadáver esteve no lar no máximo três dias e não os 12 de que fala a acusação.
Ana Paula Alves, dona de um lar ilegal em Riachos, Torres Novas, admitiu que já sabia da morte de uma utente quando permitiu que o neto da mesma entrasse no quarto e a encontrasse na cama, já em avançado estado de decomposição. Na primeira sessão do julgamento, que decorreu a 2 de Fevereiro, no Tribunal de Santarém, a arguida passou uma imagem de arrependimento, mas também tentou convencer o colectivo de juízes que a idosa estava morta no máximo há “dois ou três dias”, contrariando a acusação do Ministério Público onde se lê que estaria morta há 12 dias, dado o “avançado estado de decomposição e esqueletização”.
Numa tentativa de explicar o facto de ter ocultado a morte à família e às autoridades Ana Alves disse ter entrado em “bloqueio” por causa da pandemia de Covid-19. “Confesso que errei. Fiquei atrapalhada sem saber o que fazer. O neto subiu, foi ver a avó e foi quando lhe disse que já tinha falecido”, disse, negando a teoria de que escondeu a morte durante quase duas semanas para receber a mensalidade (600 euros) desse mês.
A proprietária do lar, onde morreram três idosos no espaço de três meses, recorde-se, está a ser julgada por quatro crimes de maus-tratos, dois deles agravados por terem resultado em morte, e por um crime de profanação de cadáver. No mesmo processo está ainda a ser julgado um médico que passou uma certidão de óbito onde alega que morreu de Alzheimer, sem nunca o ter consultado.
Reconheceu a avó pelos brincos dado o estado de decomposição
O neto da idosa, Pedro Guerra, que também prestou declarações na primeira sessão do julgamento, contou que assim que chegou à porta do apartamento que funcionava como lar sentiu um forte “odor a podre”. Quando entrou no quarto, que era partilhado por mais duas utentes, encontrou a avó toda tapada com a roupa de cama. “Destapo-a e vejo-a toda preta, quase sem nariz. Reconheci a minha avó por causa dos brincos que tinha”, afirmou, acrescentando que nesse momento Ana Alves continuou a negar que a idosa estava morta tendo-lhe feito “festinhas” na cara e falado para a acordar.
Pedro Guerra, disse que durante vários dias Ana Alves não lhe atendeu o telefone e o impediu de entrar no apartamento para visitar a avó e ir buscar os seus pertences depois de ter avisado que ia levá-la para outro lar, no Entroncamento. No dia 2 de Março de 2021, quando encontrou a avó morta na cama, o neto garante que Ana Alves lhe disse à porta do prédio que a idosa se estava a sentir mal e que não queria ver ninguém porque não queria que a levassem dali.
A 28 de Fevereiro, dois dias antes da morte da idosa ser descoberta, Ana Alves terá, segundo a acusação, enganado uma técnica de laboratório que foi ao lar, a pedido de Pedro Guerra, realizar um teste à Covid-19 à utente, que já estava morta. Confrontada pela juíza, a arguida acabou por confessar que enganou a técnica mandando-a fazer o teste a uma outra utente não admitindo porém que já sabia que a avó de Pedro Guerra estava morta.
Utentes conviveram 12 dias com cadáver
Questionada pela juíza se não pensou na saúde das utentes que durante 12 dias conviveram no mesmo quarto com um cadáver em decomposição, já com membros mumificados, sem olhos, nariz e larvas nas partes mucosas, Ana Alves limitou-se a dizer: “não tive cabeça, não pensei em nada disso”, sublinhando o seu arrependimento.
A procuradora do Ministério Público foi insistente em algumas questões justificando-se com a necessidade de perceber como é que a responsável de um lar não tem certezas do dia em que morreu uma das suas utentes. Nas declarações, Ana Alves disse que ficou “tão bloqueada” que não se recorda do dia admitindo que não cuidava da idosa há dois ou três dias tentando justificar a dúvida sobre o dia exacto do falecimento e a fralda suja de dejectos contendo larvas.
Fingiu reanimar segunda idosa encontrada morta
Sobre a segunda morte a ser descoberta no lar, a 3 de Março de 2021, um dia depois de as autoridades terem estado no local a investigar a primeira morte, o Ministério Público refere na acusação que Ana Alves escondeu o corpo “emagrecido” que apresentava feridas, escaras e sinais de desnutrição. Confrontada pela procuradora, a arguida negou alegando ainda que fez de tudo para salvar a idosa tendo ligado para o 112 assim que a utente se começou a sentir mal e que, tal como lhe indicaram, fez manobras de reanimação até à chegada do socorro. No relatório do INEM, ao qual a juíza fez referência, é dito que Ana Alves parecia estar muito calma e nada ofegante para quem estava empenhada nesse tipo de manobras, que exigem esforço físico. Durante as mesmas ainda enviou uma mensagem, da qual há registo, à sobrinha da utente, com uma mão enquanto tentava reanimar a idosa com a outra, explicou a própria arguida.
Arguida nega má alimentação aos utentes
Tanto a juíza como a procuradora confrontaram Ana Alves, recorrendo a imagens recolhidas na cozinha pelas autoridades, com a alegada má alimentação dada aos utentes. Além de ter negado que faltasse comida aos idosos, a arguida insistiu que tinha no frigorífico legumes frescos e iogurtes, alimentos que não constavam nas fotografias captadas na investigação. Ovos, queijo, leite e molhos eram os únicos alimentos no frigorífico. Ana Alves alegou ainda que gastava por mês entre 200 a 300 euros para alimentar as quatro utentes do lar e que depois de pagar todas as despesas correntes (água, electricidade e renda) o seu vencimento era de 600 euros.
Testemunhas arroladas pela defesa já faleceram
As duas idosas e ex-utentes do lar de Ana Alves, que haviam sido arroladas pelo advogado de defesa da arguida, faleceram entretanto, sendo que uma delas chegou a ser convocada para depor na primeira sessão do julgamento tendo o tribunal sido informado durante a manhã da sua morte.


