Edição Semanal. Vítor Graça é o mestre da calçada em Alverca e Sobralinho
Começou a trabalhar como serralheiro aos 14 anos; teve um restaurante em Cabo Verde e na Holanda, trabalhou na construção civil e na produção de tulipas. Vítor Graça regressou a Alverca, sua terra natal e descobriu que ser calceteiro é a sua verdadeira paixão.
Vítor Graça, 54 anos, é um dos poucos calceteiros do país que faz obras de arte em calçada portuguesa. A sua veia artística já lhe valeu vários convites internacionais, mas é em Alverca do Ribatejo e no Sobralinho, concelho de Vila Franca de Xira, que quer deixar a sua marca. O MIRANTE encontrou-o no Largo da Torre do Relógio a trabalhar a pedra para desenhar o brasão do Sobralinho. Reside na Póvoa de Santa Iria e é um bom exemplo de como a vida pode ter sempre um recomeço.
Aos 14 anos começou a trabalhar como serralheiro. Mais tarde chegou a vender peixe e a trabalhar como cozinheiro numa cadeia de restaurantes. Como o ordenado era baixo e não chegava para sustentar a família decidiu viajar com a sua esposa da altura e os filhos para outro continente à procura de melhores condições. Escolheram Cabo Verde, em África, e abriram um restaurante, mas o negócio não vingou por causa do baixo poder de compra local.
Voltou ao continente europeu e rumou à Holanda para trabalhar novamente como serralheiro. A O MIRANTE confessa que a adaptação à língua foi muito complicada, mas desistir nunca foi uma opção. A primeira experiência, diz, foi marcante e altamente enriquecedora. Trabalhou num projecto que transformava centrais de exploração petrolífera abandonadas em hotéis de luxo. A opção de emigrar também foi para se colocar à prova e por isso abraçou novos projectos relacionados com a manutenção de torres eólicas. Antes de regressar a Portugal, por não estar a conseguir fazer um bom “pé-de-meia” ainda trabalhou para uma das maiores empresas holandesas de produção de tulipas para exportação.
Uma vida nova
Vítor Graça conheceu a fundo muitas cidades e o avanço que têm para Portugal em termos de acessibilidades para pessoas com mobilidade reduzida. Reparou que na Holanda e Alemanha a calçada é utilizada de uma forma coerente para não prejudicar a deslocação das pessoas. Como a calçada portuguesa é uma marca registada nacional candidatou-se à Escola de Calceteiros de Lisboa para aprender o ofício.
Começou por desenhar pequenas coisas, mas num instante já estava a esculpir retratos de figuras ilustres como Fernando Pessoa ou José Saramago. O seu talento valeu-lhe um posto de trabalho na Junta de Freguesia de Santo António, em Lisboa, onde esteve dois anos, mas as saudades de casa eram muitas e decidiu voltar para Alverca do Ribatejo.
Vítor Graça conta que quando começou a aprender a arte de calceteiro tinha cerca de duas dezenas de colegas a acompanhá-lo; quando terminou o curso já só tinha quatro pessoas consigo. Trabalhar a calçada portuguesa é, sublinha, uma honra e uma arte que deveria ser promovida. “Há estrangeiros que vêm estudar para a escola de calceteiros e voltam para os seus países para fazer brilharetes. Lá fora esta profissão está a ser cada vez mais valorizada”, refere, acrescentando, no entanto, que há cada vez menos pessoas interessadas em seguir a profissão porque “ganhamos o salário mínimo, trabalhamos de sol a sol e ainda arranjamos uma grande dor de costas”, afirma em jeito de brincadeira.
Vítor Graça não hesita em afirmar que encontrou o seu lugar e algo que o faz realmente feliz.” Não me vejo a fazer mais nada na vida. As pessoas já me conhecem e todos os elogios que recebo só me motivam a fazer mais e melhor. Sou um homem feliz”, conclui, com um sorriso no rosto.


