Sociedade | 18-03-2022 07:00

A excelência de um museu ibérico que promete marcar a cultura e o turismo da região

Equipa que trabalha no MIAA é composta por 15 pessoas distribuídas por diversos departamentos
Equipa que trabalha no MIAA é composta por 15 pessoas distribuídas por diversos departamentos

Para assinalar os três meses da abertura do Museu Ibérico de Arqueologia e Arte (MIAA) de Abrantes O MIRANTE realizou uma visita-guiada acompanhado por Luís Dias e José Martinho, duas das pessoas que mais têm feito para dinamizar e tornar o espaço numa referência cultural.

O Museu Ibérico de Arqueologia e Arte (MIAA) de Abrantes completou, a 8 de Março, três meses da sua abertura e já recebeu milhares de visitantes num espaço que se assume como uma das maiores referências culturais da região. Com um investimento total superior a seis milhões de euros, o museu resulta da requalificação do Convento de São Domingos, numa empreitada que durou cerca de quatro anos.
É no imponente claustro principal do MIAA que Luís Dias, vereador do município, e José Martinho, coordenador do serviço de património e museus de Abrantes, recebem o repórter de O MIRANTE. No mesmo dia realiza-se uma visita guiada a cerca de meia centena de turistas, vindos de Coimbra. Entre gargalhadas, Luís Dias brinca com os visitantes afirmando, com convicção, que a partir daquele dia vão passar a olhar para a cidade com outros olhos. “Ainda há muita gente que só nos conhece pela Palha de Abrantes, mas depois de visitar este espaço tem muito mais para contar sobre o nosso concelho”, assegura.
Os anfitriões estão ligados há vários anos a projectos culturais e à história local, tendo realizado várias investigações e publicações na perspectiva de que a arte promove a valorização colectiva e o sentimento de pertença à terra.
A maior parte das obras do museu fazem parte da Colecção Arqueológica Estrada, da propriedade da Fundação Ernesto Lourenço Estrada e Filhos que disponibilizou à autarquia centenas de obras para serem mostradas ao público. Ao todo existem sete salas onde se podem observar, para além de peças da colecção municipal, gravuras, cerâmicas, esculturas, pinturas, lanças, espadas, entre muitos outros artefactos que remontam a vários períodos históricos.
Existem ainda mais seis salas disponíveis para visita, sendo que uma delas é dedicada à obra de Maria Lucília Moita, pintora que nasceu em Alcanena mas viveu mais de seis décadas em Abrantes. Antes de falecer, em 2011, cedeu ao município de Abrantes uma grande parte do seu espólio, nomeadamente quadros a óleo, um vasto conjunto de desenhos e diversa documentação que enquadra a sua vida e obra.
“O museu divide-se em duas categorias: a componente arqueologia e histórica, que tem mais de 600 peças da colecção Estrada, e cerca de 300 da colecção municipal; e depois a sala da Maria Lucília Moita, com cerca de uma centena de obras. Para além disso temos as salas de exposições temporárias”, esclarecem.
Questionados sobre se têm noção do valor material do conjunto de todas as obras expostas, respondem entre sorrisos: “Antes de mais existe um seguro para tudo isto. Há valores que são simbólicos, mas há outros que são estratosféricos. Estamos a falar de dezenas de milhões de euros”.

Um espaço intimista
A equipa que trabalha diariamente no MIAA é composta por cerca de quinze pessoas, espalhadas por vários departamentos: recepção e orientação de visitas, administrativo e a componente técnica ligada à conservação e restauro. “É um trabalho muito exaustivo. Não existe um museu a nível nacional que faça tão pormenorizadamente o percurso desde a pré-história até aos nossos dias”, vinca José Martinho.
Uma das frases mais vezes proferida durante a reportagem pelos dois historiadores é que “quem visita o museu sente-se em casa”. A expressão tem uma lógica que se prende com o facto de aquele lugar ter um espírito muito próprio uma vez que já teve várias funções nomeadamente sociais, educativas e militares. “Esse aspecto histórico é muito valorizado por quem nos visita; gostam de saber que há memória dentro deste espaço e que a continuamos a preservar. Por isso quase ninguém vem cá uma só vez. Felizmente temos tido muitos repetentes durante estes três meses”, afirma Luís Dias.

Um projecto com várias contrariedades

A empreitada de construção do MIAA sofreu várias contrariedades ao longo de três anos. O primeiro prazo para a conclusão da primeira fase da empreitada de requalificação do Convento de São Domingos apontava para Maio de 2019. Houve uma segunda data prevista para a sua conclusão, no início de 2020.
Em Agosto de 2020 o município aprovou a terceira prorrogação do prazo de execução da empreitada prevendo-se a sua conclusão para 14 de Outubro do mesmo ano. Um ano depois as intervenções continuavam por concluir porque a empresa construtora justificava ter problemas relacionados com a pandemia.
A permanência em obra mais tempo do que o previsto fez com que a empresa apresentasse duas propostas de reequilíbrio financeiro do contrato, uma de cerca de 300 mil euros e a outra de cerca de 400 mil euros. A câmara nunca concordou com os valores, embora reconhecesse que a empresa devesse ser recompensada. A construtora interpôs uma acção contra a Câmara de Abrantes que ainda decorre no Tribunal Administrativo e Fiscal de Leiria.

“Quem visita o museu sente-se em casa”, garantem os responsáveis do MIAA
“Quem visita o museu sente-se em casa”, garantem os responsáveis do MIAA

Trabalhar em rede é fundamental

Ambos consideram que uma promoção eficaz do património cultural de um concelho só é possível se houver trabalho em rede e se estabelecerem parcerias. O MIAA tem parcerias com várias escolas e universidades do país, mas também trabalha com operadores turísticos e instituições. Recentemente estabeleceu um protocolo com o Governo para receber a exposição de arte contemporânea do Estado passando simultaneamente a integrar a recém-criada Rede Nacional de Arte Contemporânea. “Estamos a trabalhar arduamente numa programação muito constante, regular, de qualidade e diversidade, porque queremos fazer deste espaço um centro cultural de excelência, na região e no país”, afirma.

Investimento cultural de valorização urbanística

O desenho da estratégia cultural no concelho assenta no programa político de regeneração urbana que visa transformar edifícios devolutos e dar-lhes uma função. Um bom exemplo disso foi a recente requalificação da Igreja de Santa Maria do Castelo, que integra o Panteão dos Almeida, um espaço que abriga vários túmulos, entre os quais os dos Condes de Abrantes. Mas tudo começou com a adaptação dos antigos escritórios da Metalúrgica Duarte Ferreira, no Tramagal, para museu. Foi inaugurado em 2017 e ganhou, um ano depois, o prémio de Museu Português do Ano.
“No Turismo do Centro temos quatro patrimónios mundiais, Coimbra, Batalha, Alcobaça e Tomar. Em Abrantes queremos ser complementares à oferta de quem visita Fátima ou Tomar porque aqui temos uma vasta oferta religiosa, cultural, desportiva e de natureza”, garante Luís Dias.

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