Sociedade | 05-04-2022 12:00

Galeria de Fotos. A alegria de viver depois dos 100 anos

Elvira Moura comemorou os 101 anos em festa junto da família

Lucinda Durão chegou aos 100 com saúde, autonomia e vontade de aprender. Elvira Moura tem 101 e diz que a sua maior alegria é viver.

A idade para estas mulheres é um número ao qual não se apegam. Portugal tem mais de cinco mil centenários e a previsão é a sua duplicação até 2050. O importante, destaca a cardiologista Maria João Carvalho, é que se encare o envelhecimento como um processo natural.

Lucinda Durão mantém a sua autonomia aos 100 anos
Lucinda Durão mantém a sua autonomia aos 100 anos

Depois de ter celebrado uma centena de vezes o seu aniversário Lucinda Durão não se cansa de viver a vida. Saúde é o desejo que pede a cada ano que sopra as velas do bolo, rodeada pela família. Não pensa em sonhos por concretizar, nem enche os pensamentos com ambições; agradece apenas por “ter força nas pernas e a cabeça no lugar”. Aos 100 anos, na casa onde vive sozinha desde que enviuvou, mantém as suas rotinas mas sem grandes pressas porque “com esta idade uma pessoa levanta-se à hora que apetece”.
De cabelo grisalho e figura esguia, Lucinda Durão gosta de manter a casa em ordem. Tem a ajuda de uma empregada mas faz questão de ser ela a fazer a cama antes de se ir sentar no sofá da sala junto à porta de entrada e ligar a televisão. O telemóvel anda sempre por perto, assim como a lupa que a ajuda a ler “as letras miudinhas” do dicionário que utilizava no ensino primário. “Sempre que não percebo uma palavra que oiço na televisão vou consultá-lo. Mas só vejo programas educativos, telenovelas não vejo nenhuma”, atira.
Na escola não foi além da quarta classe, mas ao longo da vida foi buscando novos ensinamentos nos livros. Nascida a 6 de Março de 1922, na casa dos seus pais que fica a 100 metros da sua, ambas na Ribeira Branca, uma pequena aldeia do concelho de Torres Novas, viveu uma infância “pobre mas honesta”. Teve um filho, hoje com 74 anos, dois netos e quatro bisnetos.
Lucinda Durão solta uma gargalhada sempre que recorda o dia do seu casamento. “O banho que tomei foi muito engraçado porque o meu pai foi buscar a água em potes que tinham estado cheios de aguardente. Como se pode imaginar enquanto a água me caía em cima era um cheiro que não se podia”. O casamento durou 72 anos, até ao falecimento do marido. “Dia 27 de Dezembro faz cinco anos. Às vezes penso que estava bem ao pé dele, mas não sou eu quem manda”, diz. Depois explica, para que não fiquem dúvidas, que não perdeu a vontade de viver, mas há dias em que lhe custa estar sozinha.
Para Lucinda Durão continuar a viver no seu lar – o que lhe permite manter velhos hábitos como ir “beber a bica ao café”, visitar a irmã de 96 anos e ir à missa aos domingos – é, a par do amor que recebe da família, a fórmula “sem segredos” para a sua longevidade. “Por enquanto estou bem aqui mas não sei o dia de amanhã, se for preciso ir para um lar vou”, diz, agradecendo por aos 100 anos não ter “nenhuma doença”, o que se deve em parte, acredita, à genética e à vida regrada que sempre levou.
“A minha alegria é viver”
O encontro com Elvira Moura foi adiado uma vez, porque tinha acordado com muitas dores, avisou a neta Alexandra Almeida. Só quase uma semana depois é que fomos ao encontro daquela que se pensa ser a mulher mais velha de Rossio ao Sul do Tejo, no concelho de Abrantes. “Sei lá já quantos anos tenho, já não me lembro de metade das coisas. Espere são 101 feitos a 14 de Março numa grande festa que foi uma alegria para mim”.
Elvira Moura diz ter a sorte de poder viver na sua casa e de nunca estar sozinha. A morar há vários anos com a sua filha mais nova, Beatriz Almeida, e o genro, gosta de passar os dias à varanda e a ver televisão. Nos intervalos vai rezando o terço que traz sempre consigo. “Saúde e as minhas melhoras é o que peço. A minha alegria é viver”, atira.
Sorridente e a fazer pose sempre que lhe apontam a câmara fotográfica, conta que levou uma vida dura de trabalho, entre a agricultura, a apanha da cortiça e como operária fabril. Nas folgas aproveitava para fazer o que mais prazer lhe dava: dançar nos bailes que aconteciam junto ao coreto. “Quem me dera nesse tempo. Dançava que era uma beleza”. O par, ressalva, foi sempre Américo Moura, o homem que conheceu num desses bailes e com quem casou aos 19 anos.
Quando questionada sobre o segredo para viver tantos anos Elvira Moura responde: “O que faço é ir vivendo”. Mas já lá vai o tempo em que bebia um copo de vinho à refeição e degustava um bife com batatas fritas. Cuidados com a saúde sempre teve a partir do meio da sua vida. “Vai regularmente à médica, faz exames e análises”, explica a filha que atribui como causa para a longevidade da mãe o ambiente calmo e familiar em que vive, onde não lhe faltam cuidados nem amor. Numa curta retrospectiva da vida de Elvira aprender a ler e escrever foi o único desejo que ficou por cumprir.

Cardiologista, Maria João Carvalho
Cardiologista, Maria João Carvalho

Em 2050 Portugal terá mais de 10 mil centenários

“A longevidade é sobretudo genética”, afirma a cardiologista Maria João Carvalho, acrescentando que ajuda a ter uma velhice livre de grandes problemas de saúde se ao longo da vida não se “exagerar no consumo de substâncias como bebidas alcoólicas, que agravam doenças como a diabetes e hipertensão arterial, e medicamentos”.
“Envelhecer é um processo normal mas naturalmente traz incómodos que se têm de aceitar. Saber aceitar o envelhecimento é duro, mas é necessário. Não existem milagres quando a idade avança e se somam anos, com lucidez e saúde. É uma consequência de durar”, sublinha a cardiologista que dá consultas na Clínica Sentidos, na Golegã.
De acordo com um estudo da Pordata, em 1991 Portugal tinha 754 centenários, número que chegou aos 4.178 em 2019 e se prevê que ultrapasse os 10 mil em 2050. Com o aumento de centenários em 2020, que passou os cinco mil, “Portugal passou a ser o terceiro país da Europa com maior percentagem de idosos (21,7%, em 2018), depois da Itália (22,7%) e da Grécia (21,9%)”, lê-se no estudo “Como envelhecem os portugueses”, de Maria João Moreira, também publicado pela Pordata.

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