Sociedade | 09-04-2022 10:00

António Cardador trocou a Baixa da Banheira pela Caniceira onde as couves dão mais folhas

Maria Fernandes e António Cardador regressaram à Caniceira, em Vale de Cavalos, 40 anos depois de se terem mudado para o distrito de Setúbal à procura de uma vida melhor

António Cardador e Maria Fernandes regressaram à Caniceira, em Vale de Cavalos, 40 anos depois de se terem mudado para o distrito de Setúbal à procura de uma vida melhor. O MIRANTE fez uma visita surpresa ao casal que cuida diariamente de uma couve com mais de cinco metros de altura e que diz que a solidão também é sinónimo de liberdade.

No lugar da Caniceira, freguesia de Vale de Cavalos, concelho da Chamusca, António Cardador e Maria Fernandes cuidam diariamente de uma couve com mais de cinco metros de altura como se cuida de um filho. Não sabem se a sua dimensão é suficiente para entrar no Livro de Recordes do Guiness, mas também não é isso que lhes interessa. “Gosto mesmo de cuidar dela. Não lhe sei explicar o que sinto, mas é algo parecido com carinho e pertença. Pareço um maluco a falar?”, questiona António Cardador, em jeito de brincadeira.
Apesar da casa estar bem murada a couve vê-se da rua e a curiosidade obriga a parar. O repórter de O MIRANTE bate ao portão da casa para saber quem lá vive e que histórias tem para contar. António Cardador abre o portão, protegido por um chapéu-de-chuva: “o São Pedro esqueceu-se de fechar a torneira, entre!”, convida, com um sorriso no rosto.
Quatro cães e um gato acompanham a visita guiada ao quintal que também tem uma capoeira com mais de uma dezena de galinhas e galos. Numa pequena parcela de terra está a famosa couve e mais duas que lhe seguem o caminho. “É a vida de um reformado; temos de ocupar o tempo de alguma forma”, afirma. Maria Fernandes, ainda surpreendida com a visita inesperada, oferece ao repórter uma dúzia de ovos para a viagem de regresso porque a necessidade de receber bem, mesmo os que se fazem de convidados, é inata.
Já sentados à mesa da sala de estar, António Cardador recua aos tempos em que, aos 12 anos, guardava gado nas propriedades de uma família abastada, situada a poucas centenas de metros da casa onde vive. Maria Fernandes escuta com atenção, mas não participa no diálogo, a não ser para corrigir o marido quando a memória lhe prega rasteiras.
De guardador de gado passa para aguadeiro de latifundiários. “Nos campos da Chamusca fiz-me homem aos 13 anos. Trabalhei para os “Misérias” (nome por que é conhecida uma família de proprietários da Chamusca) a andar com um barril de água às costas e a acarretar lenha para mais de meia centena de homens e mulheres. Ganhava 15 escudos por mês”, conta.
Aos 17 anos vai como voluntário da Marinha Portuguesa para dar um rumo à sua vida. Quer ser electricista, mas os exames psicotécnicos não acompanham a sua vontade e decide ir para fogueiro, um ofício que implica operar caldeiras a vapor. Combate na guerra da Guiné durante dois anos e, ao fim de quase sete, abandona a carreira militar.
Não regressa para Vale de Cavalos porque, já nessa altura, as oportunidades escasseavam. Vai com a mulher para a Baixa da Banheira, uma vila no distrito de Setúbal, numa época em que a indústria estava a crescer. Aprende a arte da siderurgia, que consiste na fabricação e tratamento de aços e ferros fundidos. Em 1974, depois do 25 de Abril, conquista um posto de trabalho na empresa onde viria a passar os 35 anos seguintes, a Setenave.
Enquanto António Cardador trabalha na montagem de blocos, guindastes e torres de iluminação Maria Fernandes vai exercendo o ofício de empregada doméstica até ser convidada para integrar os quadros da função pública na Câmara da Moita, onde esteve 16 anos.

O regresso às origens
Regressar à Caniceira não estava nos planos, mas um processo de reestruturação na Setenave antecipou a vinda. “Ou despediam 800 trabalhadores ou entrávamos na pré-reforma. Depois de muita negociação reformei-me aos 55 anos”, explica, acrescentando que se sentiu injustiçado e que viu a sua vida andar para trás. “Aos 55 anos ainda estava na plenitude dos meus sentidos e com muita vontade de trabalhar. Centenas de famílias saíram prejudicadas e perderam muito dinheiro”, lamenta.
Venderam o apartamento onde viviam e com esse dinheiro requalificaram a casa na Caniceira, que sempre pertenceu aos pais de Maria Fernandes. Juntos há 57 anos, o casal, para além da horta, envolve-se em projectos sociais na freguesia e fez parte da comissão de utentes que lutou contra o encerramento da Extensão de Saúde de Vale de Cavalos. O casal tem uma filha, Fernanda Cardador, e vive uma vida tranquila, sossegada e sem medo do isolamento porque, sublinham, a solidão também é sinónimo de liberdade.

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