Sociedade | 03-05-2022 12:00

Aldeia da Palhota é um dos últimos redutos da cultura avieira

Pedro Santos presidente da Associação Palhota Viva. Maria Tomás é uma das mais antigas moradoras da Palhota. Manuel Gregório morador em Palhota

Aldeia tradicional avieira, em Valada, concelho do Cartaxo, é uma das mais bem preservadas do Tejo, muito por mérito de quem lá mora e da Associação Palhota Viva que deixa críticas às autarquias por não quererem saber da aldeia.

A aldeia da Palhota, em Valada, concelho do Cartaxo, tem sido deixada ao abandono pelas autarquias, que se têm alheado das responsabilidades sobre o território e descartam responsabilidades para o Governo central alegando que a aldeia se encontra numa zona de leito de cheia. Quem o diz é Pedro Santos, presidente da Associação Palhota Viva, que tem trabalhado em prol da preservação da aldeia.
O actual presidente da associação, residente no Cartaxo, conheceu a Palhota em 2000 durante uma caminhada com o grupo de escuteiros que frequentava e apaixonou-se imediatamente pelo local. Foi na altura recebido por Humberto Vasconcelos, fundador da Palhota Viva em 1988, jornalista reformado que se mudou de armas e bagagens para a aldeia. Desde então nunca mais se desligou da aldeia nem da associação.
Pedro Santos considera que é necessário que a Câmara do Cartaxo mostre algum interesse em revitalizar o local, que poderia fazer parte dos roteiros turísticos do Tejo. “Há várias empresas a fazer passeios de barco e mesmo privados que aqui passam, mas não param porque não têm um cais seguro”, vinca, acrescentando que a falta de infra-estruturas como casas-de-banho públicas ou abastecimento de água potável mantém os turistas ao largo da aldeia.
Já a falta de rede de saneamento básico mantém novos moradores afastados da aldeia. Pedro Santos refere a O MIRANTE a necessidade de a câmara intervir a nível legal. As casas sempre foram construídas sem licença e como cada um quer. “Como associação tentamos sensibilizar quem vai reconstruindo e remodelando as suas casas para manterem aquele aspecto tradicional, mas não os podemos obrigar”, vinca Pedro Santos sublinhando que isso seria papel das autarquias.
A aldeia da Palhota é um dos últimos redutos da cultura avieira em terras ribatejanas. Quem visita a aldeia consegue perceber com relativa facilidade o traçado que identificava as casas dos avieiros que, durante o século XX, se foram estabelecendo ao longo das margens do Tejo vindos da Praia da Vieira, de Leiria. As casas são elevadas, assentes em estacas com cerca de 2 metros, para que quando o leito do rio transbordasse, não entrasse pelas casas dos pescadores. As cores não fogem aos tons de verde, azul ou ao branco. A madeira com que os pescadores construíam as casas foi sendo substituída por alvenaria por ser mais resistente às intempéries e à humidade das margens do rio. Hoje, com 15 pessoas de duas famílias, a Palhota continua a albergar avieiros como Maria Tomás e o filho Marco.

Avieiros ainda não são uma cultura extinta
Maria Tomás, ou a “Ti Maria” como é conhecida, é uma das mais antigas moradoras da Palhota. Nasceu na aldeia há 80 anos e diz que também é lá que quer morrer. “Não nasci dentro do barco por meia hora”, vinca a antiga pescadora, que conta a O MIRANTE que a sua vida foi passada entre a agricultura de dia e a pesca de noite. Ainda chegou a emigrar para o Luxemburgo, onde teve vários empregos, mas nenhum a satisfazia tanto como a pesca que, apesar de já não ser a principal actividade dos habitantes da aldeia, ainda é praticada por quem ali vive
A Ti Maria já não sai no barco com os filhos, pois as artroses não a deixam mexer bem a mão, mas recorda com saudade os tempos de criança, em que andava descalça pelas ruas de terra da Palhota e em que as facilidades não eram as de hoje. “Antigamente não havia máquinas para nada, era tudo à mão”, conta. Nesses tempos as redes de pesca eram feitas e cosidas à mão, os barcos eram a remos e as redes puxadas à mão. A tradição já não é o que era e hoje os barcos, apesar de se manterem muito idênticos aos tradicionais, já são movidos a motor e as redes são puxadas para terra com a ajuda de um tractor.

Os nómadas do rio

No seu livro “Avieiros” Alves Redol retratou os avieiros, que apelidou de nómadas do rio. Oriundos da zona da Praia da Vieira, Leiria, subiam o Tejo durante o Inverno onde se iam estabelecendo e no Verão regressavam para pescar no mar.

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