Testemunhos inspiradores numa demonstração de Boccia em Benavente
Uma dezena de atletas com paralisia cerebral realizaram uma demonstração de Boccia no último dia do Festival do Arroz Carolino, em Benavente. O MIRANTE esteve presente e falou com os dois atletas mais medalhados da modalidade.
O Festival do Arroz Carolino das Lezírias Ribatejanas, em Benavente, foi palco de uma demonstração de Boccia que contou com uma dezena de atletas da Associação de Paralisia Cerebral Almada Seixal (APCAS). Num recinto improvisado, na tenda da restauração, os atletas e os seus assistentes proporcionaram à assistência uma tarde animada e que teve a participação de André Ramos e Rita Patrício, campeão e vice-campeã nacional da modalidade. A representar a seleção das quinas, os atletas medalhados em provas internacionais viram neste evento uma oportunidade de se divertirem juntamente com amigos e familiares.
“Detesto quando me tratam como uma coitadinha”
Rita Patrício, 25 anos, é uma das atletas mais experientes da APCAS. Várias vezes medalhada, já percorreu o mundo atrás dos seus sonhos e por amor à modalidade. Carlos Teixeira é o treinador da equipa e revela que Rita Patrício tem uma ambição e convicção inabaláveis. Para além de atleta, Rita Patrício estreou-se este ano como professora de história no terceiro ciclo. “As pessoas têm a tendência para serem condescendentes e tratarem-me como uma coitadinha só porque sofro de paralisia cerebral. Quando descobrem que tenho uma licenciatura e um mestrado perguntam-me como é possível, algo que considero ser uma desconsideração. Sou uma pessoa como as outras” exclama. A sua condição não a impede de ser autónoma nem de ambicionar tirar a carta de condução e ter a própria casa para alcançar sua independência.
André Ramos, 26 anos, é actualmente o atleta português mais cobiçado no mundo do Boccia devido à sua visão estratégica e ao seu desempenho em provas. De sorriso fácil, o jovem capitão da seleção nacional garante que cada treino é uma aprendizagem e cada torneio é um passo mais próximo dos seus grandes objectivos: competir na taça do mundo e nos Jogos Paralímpicos. Auxiliado em prova pelo pai, Manuel Ramos, é fácil de perceber que a cumplicidade entre os dois é um dos segredos do seu sucesso. André Ramos trabalha numa empresa de advogados e apenas precisa de um assistente pessoal para realizar tarefas que requerem maior coordenação motora.
Uma associação que aposta na integração
A Associação de Paralisia Cerebral Almada Seixal, fundada em 2005, conta com mais de mil sócios e presta apoio a mais de 150 famílias e respectivos agregados familiares. Para além do Boccia a associação tem outras modalidades disponíveis, como slalom em cadeira de rodas, tricicleta, polybat, natação terapêutica e dança inclusiva. José Patrício, presidente da associação, explica que o objectivo da APCAS é estimular os seus utentes ao máximo. Para isso contam com um conjunto de fisioterapeutas, psicólogos e técnicos que orientam os utentes para alcançarem a sua autonomia. Um dos grandes desafios da associação é continuar a lutar pela sua representatividade na sociedade e ajudar a combater os preconceitos, exclusão social e barreiras físicas. José Patrício sublinha que há ainda um longo caminho a percorrer, “mas graças a eventos como este, espera-se que os autarcas trabalhem mais para facilitar a integração de pessoas com necessidades especiais na comunidade”.


