Paulo Bento é ex-recluso e dedica a vida a ajudar os mais necessitados
Encontrar um novo caminho não é fácil para um ex-recluso. A discriminação e o preconceito geralmente atrapalham, mas Paulo Bento conseguiu reinventar-se. Com a ajuda da família e amigos abriu uma empresa de construção e fundou uma associação que conta com sócios voluntários de vários concelhos, nomeadamente de Vila Franca de Xira e que se dedica a ajudar sem-abrigo, refugiados e pessoas carenciadas.
Depois de cumprir 20 anos de prisão efectiva por homicídio, Paulo Bento regressou à vida em liberdade. “Com uma mão à frente e outra atrás”, como a maioria dos ex-reclusos que deixa para trás as grades da cadeia. Tentou arranjar emprego durante três meses, mas sem sucesso. Nas entrevistas de trabalho “evitava falar do passado”, consciente de que muito poucos dariam trabalho a alguém que cumpriu uma pena tão pesada. “Se não tivesse família e amigos que me deram a mão para começar uma vida nova estaria na rua” como aqueles que já moraram numa cela e aos quais estende agora a sua mão e ajuda a alimentar.
Paulo Bento é um rosto conhecido no concelho de Vila Franca de Xira e os voluntários da associação que fundou em Outubro de 2020 distribuem, duas vezes por semana, um total de 640 refeições, compostas por um prato de comida quente, bebida, fruta, um bolo e uma sandes, aos sem-abrigo. “Todas as noites encontro ex-reclusos que estiveram comigo na prisão. A reinserção é das maiores fachadas que existem no Estado português”, diz a O MIRANTE, enquanto mostra os sacos com produtos de higiene pessoal e íntima que também distribui aos homens e mulheres que, “por falta de ajuda”, não souberam o que fazer com a liberdade.
Foi depois de fundar a sua empresa de construção, que emprega três pessoas e é especializada em remodelação de habitações, que Paulo Bento começou o projecto solidário, doando a famílias carenciadas mobílias e electrodomésticos que “iam para o lixo”. Uma ajuda que se mantém e que cresceu. “Actualmente apoiamos perto de 50 famílias todos os meses com cabazes de alimentos que nos são doados por particulares e empresas”, que desta forma contrariam o desperdício alimentar.
Esta ajuda a famílias, que vai desde o concelho de Loures, Vila Franca de Xira, Odivelas, até ao Montijo não é atribuída sem critério nem sem receber algo em troca. Todos os que recebem ajuda alimentar têm que dar 10 horas à associação, por exemplo, a confeccionar as refeições para os sem-abrigo ou a recolher alimentos doados por empresas. Desta forma, a associação que tem 150 sócios e não recebe qualquer apoio do Estado, acredita que “está a incutir responsabilidade social nas pessoas”, explica Carla Santos, que é de Castanheira do Ribatejo e tem colaborado com a associação nomeadamente no processo de divulgação e recolha de bens.
A duplicação de ajudas é uma realidade que acontece, mas que nalguns casos não o preocupa. E o motivo é simples: há associações que até são apoiadas pelo Estado e que entregam por mês um frango, uma lata de ervilhas, um pacote de massa, quatro litros de leite e duas latas de sardinha. “Onde está o azeite, óleo, a farinha, o peixe e o açúcar?”, questiona, depois de ler um plano de ajuda alimentar de uma outra associação a uma família que a sua também apoia. Situação semelhante acontece com os sem-abrigo que “ao domingo não comem” e que recebem de algumas associações “apenas uma sandes de manteiga congelada e uma maçã”.
Mais de 70 toneladas de alimentos entregues a refugiados
A associação Projecto Solidário Paulo J Bento não fechou os olhos à crise humanitária gerada pela invasão russa à Ucrânia e mobilizou-se para uma missão de apoio aos refugiados na Moldávia, que contou com o apoio de várias corporações de bombeiros do país. Paulo Bento conta que conseguiram levar medicamentos, produtos de higiene, roupas e mais de 77 toneladas de alimentos, dos quais 1000kg eram fruta – um bem que mais nenhuma outra associação estava a levar em quantidades consideráveis e que lhes valeu um certificado da embaixada da Moldávia onde o país agradece a ajuda significativa no apoio aos refugiados.
No total, a associação que está sediada em Loures e que conta com voluntários e colaboradores de vários concelhos, como é disso exemplo Carla Santos, natural de Castanheira do Ribatejo, além dos bens essenciais angariados, conseguiu recolher perto de 20 mil euros em donativos que permitiram financiar o combustível dos camiões e estadia em duas viagens de Portugal até à Moldávia e regresso. “Ainda trouxemos refugiados que foram acolhidos num apartamento [cedido à associação] que disponibilizamos e pelo qual já passaram mais de uma dezena de ucranianos”, refere Paulo Bento. O cansaço das viagens, diz, foi pago com os rostos de felicidade dos refugiados durante a entrega dos bens.
Solidariedade genuína e não uma espécie de redenção
Paulo Bento era um jovem quando foi acusado e enfrentou a justiça pelo crime de sequestro que resultou no suicídio de um indivíduo. Condenado a oito anos de prisão recorreu da decisão tendo sido posteriormente acusado e condenado por homicídio qualificado. A O MIRANTE, diz ter merecido o tempo que cumpriu atrás das grades por se sentir responsável pela perda de uma vida, embora considere que não merecia a acusação que lhe foi feita. “Sinto-me arrependido pelo que me levou à condenação. Se pudesse voltar atrás era algo que mudaria na minha vida”, confessa. No entanto, prossegue, “se não tivesse passado pelo que passei não era a pessoa que sou hoje”, que se dedica a ajudar os outros.
Tem 50 anos e quase metade da sua vida foi passada em estabelecimentos prisionais, onde garante que “não se vive, mas sobrevive-se”. Por opção, cortou o contacto com a família e proibiu as visitas durante 15 anos, uma decisão da qual se arrependeu quando soube da morte do pai. Durante as duas décadas em que esteve privado da liberdade nunca recebeu apoio psicológico. “Nunca me foi proposto, mas também nunca o pedi. Curiosamente quando vim cá para fora a juíza disse-me que tinha que frequentar um psicólogo para saber se estava apto para estar em sociedade, mas pago às minhas custas”.
Trabalhou em todas as cadeias por onde passou, fosse a gerir o bar dos reclusos ou nas oficinas. Mas se a vontade de se sentir útil e de trabalhar não mudou, da sua personalidade já não se pode dizer o mesmo. “Tornei-me uma pessoa fria, calculista, desconfiada e que não gosta de demonstrar as suas emoções”. Porque lá dentro, fazê-lo era o mesmo que “demonstrar uma fraqueza” aos restantes reclusos. Mas as lágrimas caíram-lhe muitas vezes pelo rosto, sempre à noite, em silêncio e na solidão da sua cela.
Pai há 32 anos é casado há cinco com uma mulher que conheceu durante as saídas precárias da prisão. Orgulhoso do rumo que tem tomado o seu projecto solidário, Paulo Bento diz não procurar nele uma espécie de redenção. “Estou cá para fazer o que algumas instituições apoiadas pelo Estado não fazem, que é olhar por aqueles que mais precisam”.


