A dureza de trabalhar ao sol em dias de temperatura recorde
Permanecer em ambiente fresco e evitar a exposição solar são recomendações triviais durante uma onda de calor. Mas há quem, devido ao trabalho, não as possa seguir. O MIRANTE acompanhou o dia de trabalho de um pedreiro e dos funcionários da Junta de Manique do Intendente, Vila Nova de São Pedro e Maçussa que passaram a pegar ao serviço mais cedo para poderem fugir às horas de maior calor.
O calor começou a apertar e o despertador dos funcionários responsáveis pela limpeza e corte da vegetação da Junta de Freguesia de Manique do Intendente, Vila Nova de São Pedro e Maçussa passou a tocar mais cedo. É assim desde há uma semana, quando as temperaturas atingiram valores recorde e o presidente, José Avelino Correia, decidiu antecipar o horário de entrada das 08h00 para as 07h00 para que possam resguardar-se nas horas em que o sol aquece mais. “Agora faz-se melhor pela fresca e até rende mais”, garante o funcionário Hugo Cação, de 32 anos, enquanto ajusta a roçadora às costas.
A mudança roubou-lhes tempo na cama. Não deixou margem para a preguiça matinal, mas todos a agradecem. Especialmente João Desidério, de 62 anos, que é o mais velho do grupo e leva muitos anos de trabalho debaixo de sol. Não é adepto de protector solar, embora reconheça que deveria ter esse cuidado, mas a água, salienta, “anda sempre à mão” e o chapéu só sai da cabeça para limpar as gotas de suor que lhe vão escorrendo pela testa.
A roça mecânica que lhes ocupa grande parte do tempo faz-se por estes dias com mais cautela. Trocaram-se os discos metálicos da roçadora, que são mais eficientes, por corda para evitar que algum toque numa pedra ou no alcatrão quente faça faísca, provocando um incêndio. “Com estas temperaturas todo o cuidado é pouco, por isso também não temos andado a fazer estes trabalhos fora das zonas urbanas”, explica João Ramos, que aproveita para lamentar que haja por aí muitos terrenos privados com vegetação alta por limpar.
Água é companhia inseparável
As horas passam e o corpo vai pedindo pausas. A roçadora encosta-se para aliviar as costas do peso e a sede vai-se matando com goles de água, mais morna que fresca, das garrafas que guardam na carrinha. Mas as camisolas de manga comprida, para proteger o corpo dos efeitos nocivos dos raios solares, só se despem da pele suada quando o serviço termina cerca das 11h00, altura em que o calor começa a subir nos termómetros. “Tentamos sempre que o trabalho mais pesado seja feito mais cedo quando está menos calor para protegermos as pessoas”, sublinha o autarca da freguesia, preocupado com o recorde de temperaturas em Portugal.
Terminado o corte da vegetação na Travessa 25 de Abril, em Manique do Intendente, a equipa regressa à carrinha. João Ramos apressa-se a tirar a camisola verde e as botas de borracha. Fica em manga curta e calça umas sapatilhas. Está mais fresco e pronto para se dedicar a varrer as ruas até às 13h00, tarefa final do dia de trabalho e que com o aproximar da festa da terra requer atenção redobrada.
Isabel Desidério pegou ao serviço às 07h00 em ponto. De pele morena e avental, a funcionária da união de freguesias chega a Manique vinda da Maçussa, onde esteve a fazer limpeza. Amante desta estação do ano, diz que apesar do calor dificultar o trabalho, prefere-a ao Inverno. “Custa mais um bocado, mas vai-se bebendo mais água e este horário também ajuda”, diz minutos antes de regressar a casa onde vai passar o resto do dia a descansar “de janelas fechadas e ventoinha ligada”.
“Há dias em que o corpo vai abaixo”
Perto da hora de almoço encontramos, em Vila Nova de São Pedro, Vítor Santos a remover o estuque de uma parede com um martelo. É pedreiro desde os 14 anos, profissão que abraçou depois de largar a escola para ajudar os pais a alimentar os nove irmãos. O trabalho debaixo de sol com temperaturas a bater nos 40 graus centígrados ganha uma dureza maior. A sede aperta e o corpo amolece mais depressa, mas as tarefas do dia têm que ser levadas até ao fim. “Há dias em que o corpo vai abaixo. Bebo uma pinga de água, molho a cabeça, mas já me aconteceu ter que descer de um telhado com receio de cair lá de cima”, conta, acrescentando que mesmo habituado ao calor “não estava preparado para isto”.
Por baixo da roupa a pele é clara, já a que anda destapada exibe um tom bronzeado de quem passou uns dias de toalha estendida na praia. “Mas é do trabalho, férias só as tiro daqui a umas semanas”, diz para que não fiquem dúvidas. Defende que num país ensolarado como Portugal a legislação devia proteger quem trabalha debaixo de sol intenso, prevendo que sejam feitas menos horas e se privilegie a flexibilização de horários para evitar danos para a saúde.
Vítor Santos trabalha acompanhado de um servente e até podia ter mais caso houvesse interessados. A prova de que o trabalho a céu aberto atrai cada vez menos pessoas. Um dia, mete-se a adivinhar, vão ser precisos pedreiros e não os há. “É mais fácil ficar em casa a receber subsídios do que andar nesta vida desgastante”, vinca minutos antes de se meter na carrinha branca para ir “saber do almoço”. Durante a tarde seguir-se-ão outras tantas horas a puxar pelo corpo com o martelo na mão e o calor a apertar.


