Sociedade | 04-09-2022 12:00

Idosos de Torres Novas combatem demência com realidade virtual

Estimulação cognitiva através de jogos de realidade virtual é uma das áreas do projecto Demências em SOS

A instituição de solidariedade social Grupo de Amigos Avós e Netos, em Torres Novas, está a desenvolver um projecto inovador de colocar idosos a usar a realidade virtual para combater ou prevenir as demências. Com o programa Demências em SOS já foram realizadas mais de duas mil intervenções no concelho de Torres Novas mas vai acabar este ano, se não aparecerem investidores que apostem nele.

Nazaré Alves é a primeira do grupo a jogar. Uma das técnicas mede-lhe a tensão arterial enquanto outra a ajuda a colocar os óculos de realidade virtual. Tem 72 anos e de tecnologias percebe pouco, mas na cozinha lá de casa, em Vale Carvão, movimenta-se como ninguém. Não é que goste de cozinhar mais ainda hoje faz o almoço, lanche e jantar para as duas filhas e o filho. Agora prepara-se para meter as mãos na massa e fazer um bolo, só que virtualmente.
“Parta os ovos e separe as gemas das claras. Depois junte a farinha”, começa por lhe dizer Matilde Faria, terapeuta ocupacional no Grupo de Amigos Avós e Netos, Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), das Lapas, concelho de Torres Novas. Os passos do jogo são simples de seguir com a ajuda da equipa técnica de monitorização e das setas que Nazaré visualiza, mas requerem alguma precisão nos movimentos e concentração. No final tudo sai conforme a receita. “O bolo é fácil de fazer e o forno até é melhor que o meu, agora não sei a que sabe nem quem o comeu”, atira Nazaré Alves, acrescentando que esta experiência lhe trouxe o convívio para não estar em casa a pensar sempre no mesmo.
O isolamento que Nazaré Alves vai sentindo com o passar da idade é transversal a muitos dos idosos que vivem sozinhos ou estão sós em grande parte do dia. Uma realidade que piorou com a pandemia de Covid-19. A directora técnica da instituição salienta que as pessoas ficaram mais limitadas, deixaram de conversar, o que faz com que haja uma projectiva da demência ao mais alto nível. Susana Rodrigues explica que através do projecto Demência em SOS, no qual estão incluídos os jogos de realidade virtual, os idosos são estimulados do ponto de vista cognitivo, físico e sensorial. Não quer isto dizer, ressalva, que os estímulos curem a demência, “porque isso é impossível”, mas conseguem atrasar a sua progressão e noutros casos, prevenir a sua chegada.
Cecília Fernandes foi outra das candidatas rastreadas que ficou elegível num total de 384, para experimentar a realidade virtual através de um dos três jogos: confecção de um bolo, apanhar fruta e ir ao mercado, o que obriga a decorar uma lista de compras. Jogos que são desenvolvidos pela IPSS através de uma parceria com uma empresa do sector. “Calhou-me ir à praça fazer compras e gostei, só custou agarrar as frutas e os ovos. Nem sabia que isto existia”, conta com entusiasmo a idosa natural da Zibreira, que com 79 anos ainda trabalha nas limpezas. “Hoje já fui limpar a igreja porque houve festas. Gosto de me manter ocupada, já deixei duas casas mas ainda vou andando com outras duas”, conta a O MIRANTE.

Demências em SOS já realizou mais de duas mil intervensões no concelho de Torres Novas
Para serem elegíveis, explica a psicóloga Filipa Piranga Faria, os candidatos passam por uma avaliação psicológica ajustada à idade e focada na “orientação temporal e espacial, nas áreas cognitivas relativas à atenção, memória, cálculo, linguagem, habilidade construtiva e percepção visual”. Além disso é feita uma recolha do historial clínico e das limitações físicas para que possam ser encaminhados para outras vertentes do projecto, como a fisioterapia.
Ao final da manhã chega a vez de Antónia Miguel entrar na realidade virtual a pedalar, literalmente. Está nas ruas de Vila Nova de Gaia em cima de uma bicicleta que só se movimenta se der ao pedal. Observa as pessoas e a paisagem que aparecem no vídeo, mas ao fim de uns minutos queixa-se de cansaço. O cenário muda. “Agora sim, estou na praia”, diz com os pés metidos num recipiente-real-com conchas e areia. “Já fui à praia mas nunca fui à água porque tinha medo”, confessa enquanto estende os braços para mergulhar na imagem proporcionada pelo vídeo sensorial. Moradora nas Lapas, foi durante 20 anos voluntária na cozinha da instituição que agora frequenta na qualidade de utente.
Este projecto inovador para pessoas com mais de 60 anos em pré-demência ou com demência formada, nasceu em 2020, mas devido à pandemia só avançou em Fevereiro de 2021 e já chegou a mais de duas mil pessoas do concelho de forma gratuita. Além da realidade virtual, uma das actividades para a estimulação cognitiva engloba outras áreas como a fisioterapia, terapia ocupacional e psicologia clínica”, refere uma das coordenadoras do projecto, Diana Azevedo. Apoiado pelo Programa de Parcerias para o Impacto da Portugal Inovação Social, Câmara de Torres Novas e as duas juntas da cidade, o Demências em SOS tem data de término a 31 de Dezembro de 2022, estando neste momento em fase de captação de investidores para que o trabalho possa continuar.

Cecília Fernandes fez compras no mercado virtual
Cecília Fernandes fez compras no mercado virtual

Portugal terá mais de 350 mil pessoas com demência em 2050

Um estudo, divulgado em Janeiro de 2022 pela publicação científica The Lancet Public Health estima que em Portugal haja 351.504 pessoas com demência em 2050, um aumento em relação ao previsto para 2019, que era de 200.994. No mundo a estimativa chega aos 153 milhões, quase o triplo do estimado para 2019, que era de 57 milhões. O que se deve ao crescimento e envelhecimento da população.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 1,6 milhões de pessoas morreram no mundo em 2019 devido a demência, que se tornou na sétima causa de morte. A demência, que se manifesta sob vários tipos de doença, sendo a Alzheimer a mais comum, caracteriza-se pela perda de memória, de capacidade intelectual, do raciocínio e das competências sociais e por alterações das reacções emocionais normais. Embora não tenha cura, a demência pode ser prevenida.

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