Sociedade | 27-09-2022 06:59

Salinas de Rio Maior resistem à seca e à exploração turística

José Casimiro é o presidente da direcção da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Sal de Rio Maior

Nas Salinas de Rio Maior, em 2022, a água é pouca e menos salgada, consequência das alterações climáticas que estão a secar o poço. O turismo, que tem trazido mais gente às Marinhas do Sal, também é uma faca de dois gumes: a entrada de turistas nos talhos das salinas pode pôr em causa as regras de certificação do sal e acabar com o negócio, avisa a Cooperativa Agrícola dos Produtores de Sal de Rio Maior.

Nas Marinhas do Sal de Rio Maior a água extraída do poço que alimenta as salinas “já não é tão salgada como era antes”, lamenta o presidente da direcção da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Sal de Rio Maior (Coopsal), José Casimiro. Actualmente, a água que sai do poço tem com 15 graus de salinidade na escala de Baumé, ao passo que há duas décadas tinha 20, aponta o líder da cooperativa. Segundo José Casimiro, o que acontece ao lençol freático que, no subsolo, passa pela jazida de sal-gema, originando a nascente de água de sete a dez vezes mais salgada do que a água do mar, “é o mesmo que acontece noutros lados: se não chove, há menos água”.
A exploração das únicas salinas interiores existentes em Portugal e as únicas em pleno funcionamento na Europa, cuja existência remonta a 1177, embora se especule que haja aproveitamento do sal-gema desde a pré-história, obriga, por outro lado, a que a gestão dos recursos se faça com conta, peso e medida. Em 2022 a produção ronda as mil toneladas, metade do que já aconteceu noutros anos, mas avançar para uma exploração intensiva “está fora de questão”. “Pode ser que um dia já não haja água salgada no poço. Quantas pedreiras há no nosso país que estão desvitalizadas porque a pedra acabou? Aqui pode acontecer o mesmo. Temos de aproveitar o que a natureza dá, sem entrar em loucuras”, argumenta José Casimiro.
O turismo é outro tema agridoce para os salineiros. Apesar de haver quem considere mais rentável trazer pessoas às salinas do que produzir sal, o timoneiro da cooperativa avisa que é preciso não secar a fonte. Com a aldeia das Marinhas do Sal a pertencer, desde este ano, à rede das Aldeias de Portugal, “nunca as Salinas de Rio Maior foram tão visitadas”. “Não podemos permitir que os visitantes andem dentro das salinas porque nos arriscamos a perder as certificações do sal, que é um produto alimentar cuja produção obedece a regras apertadas”, sublinha o presidente da Coopsal, que representa 95% dos salineiros. Por isso a cooperativa quer criar uma salina para demonstração e visita em que os turistas podem fazer a “experiência de serem salineiros por um dia”, que pode entrar em funcionamento em 2023.

Plano de Pormenor há mais de 20 anos na gaveta
Para salvaguardar e potenciar as salinas de Rio Maior, José Casimiro reclama a publicação do “Plano de Pormenor que está há mais de 20 anos na gaveta”. Tirar o trânsito das Marinhas do Sal ou limitar a circulação a uma via e ampliar as instalações sanitárias são as principais reivindicações da Coopsal, que aponta igualmente o dedo à falta de alojamento nas imediações. “Temos algumas camas aqui perto, nos Moinhos de Vento, e os hotéis em Rio Maior, mas não é suficiente, o que leva as pessoas a fugirem para Óbidos, Nazaré ou Alcobaça”, diz o presidente da Coopsal.
José Casimiro queixa-se também da dificuldade em fixar a mão-de-obra, que é essencialmente estrangeira. Nos talhos, a Coopsal tem sete trabalhadores indianos e um moldavo a trabalhar de Maio a Setembro, mas os rostos vão mudando constantemente. “É um trabalho braçal muito duro, são muitas horas ao sol, passa por aqui muita gente que vem receber e no dia seguinte já não aparece”, explica enquanto vai desfazendo com a pá os lençóis brancos que cobrem os talhos no processo de rapagem do sal.

Sal de Rio Maior para o mundo

Depois de secar durante cerca de 60 horas nas pirâmides salgadas que são uma das imagens de marca das Salinas de Rio Maior, o sal ruma, finalmente, ao armazém, onde sete funcionárias da Coopsal seleccionam e ensacam o produto à mão. Com quase 50% do negócio canalizado para o exterior um dos melhores clientes da cooperativa é uma unidade industrial de panificação alemã “que gasta 24 toneladas de sal por mês” e que exige que toda a produção seja “o mais artesanal possível”. A outra grande fatia da exportação destina-se à Áustria e Holanda para produzir rações animais, visto que o sal de Rio Maior é rico em selénio, um componente que estimula a reprodução animal, adianta José Casimiro. Em Portugal o sal de Rio Maior ainda está longe de chegar à mesa de todos portugueses. “O sal industrial, que vem de fora, é vendido baratíssimo e é-nos difícil competir em termos de preço”, protesta o presidente da Coopsal, que pede que o produto nacional seja mais valorizado. “O nosso sal é premiado, é único no mundo e tem uma qualidade incomparável e isso tem de ser enaltecido”, conclui.

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