Sociedade | 02-10-2022 10:00

Farmácias não são só um espaço comercial<br>onde se vendem medicamentos

Joana Gomes, directora técnica da Farmácia Carvalho, em Salvaterra de Magos. Graça Belo Vieira é farmacêutica e proprietária da Farmácia Nova de Alverca. Maria Flávia Ribeiro da Cunha é a directora técnica da Farmácia Soeiro, em Ferreira do Zêzere

Joana Gomes, da Farmácia Carvalho, em Salvaterra de Magos; Graça Belo Vieira, da Farmácia Nova de Alverca; Maria Flávia Ribeiro da Cunha, da Farmácia Soeiro, em Ferreira do Zêzere, são três farmacêuticas que falam da sua profissão e dos desafios de um sector que já não é apenas visto como o espaço onde se vendem medicamentos.

As farmácias servem para pedir conselhos, para falar da vida, para desabafar, para pedir ajuda… Os tempos mudam e são cada vez menos os que pedem entre dentes medicamentos para a disfunção eréctil, mas são cada vez mais novos. A vida também tem feito aumentar a procura de medicação de ansiolíticos ou anti-depressivos. Os tempos de mudança que se vivem afectam a disponibilização de medicamentos, seja por dificuldades em encontrar embalagens no mercado, seja porque há quem utilize os medicamentos para outros fins.

Há medicamentos que demoram a chegar a quem precisa

Joana Gomes, directora técnica da Farmácia Carvalho, em Salvaterra de Magos, diz que há medicamentos que por vezes estão esgotados por causa da guerra porque não há plástico para as embalagens, por exemplo, mas também há quem use medicamentos para outros fins e depois faltam a quem precisa.

Farmacêutica há 23 anos, nunca como agora Joana Gomes, directora técnica da Farmácia Carvalho, em Salvaterra de Magos, viu faltarem tantos medicamentos nas prateleiras devido à escassez de matérias-primas. A culpa é da guerra na Ucrânia, que tem feito com que vários fármacos estejam esgotados há meses por não haver materiais essenciais para a sua produção. Muitas vezes, mais até do que os princípios activos dos medicamentos, “fazem faltam coisas simples, que nem nos passam pela cabeça”, adianta a farmacêutica, “como plástico para produzir a tampa de uma embalagem de comprimidos.
Joana Gomes conta que há medicamentos que não chegam às mãos de quem mais deles precisa por serem utilizados para outros fins. É o caso de um fármaco para tratar a diabetes que, por ter como efeito secundário o emagrecimento, “está permanentemente esgotado”. Resultado: “as pessoas que têm diabetes têm dificuldade em ter acesso ao medicamento porque outros o utilizam para emagrecer”, lamenta. A falta de médicos no Serviço Nacional de Saúde é outro problema que também se reflecte nas farmácias porque, revela, há utentes que não são vistos por um médico há mais de um ano.
O sector enfrenta vários desafios e uma farmácia não é já só um local de venda de medicamentos. “Temos de ir ao encontro das necessidades dos nossos clientes”, afirma a directora técnica, justificando a aposta da farmácia que dirige na prestação de serviços, como a dispensa de medicamentos ao domicílio, administração de injectáveis, preparação de medicação, consultas de Podologia ou de Nutrição e o acompanhamento farmacoterapêutico.
Segundo Joana Gomes, esse acompanhamento próximo dita que muitos utentes ainda vejam o farmacêutico “como um confidente ou um psicólogo” e com ele partilhem, além das questões de saúde, problemas e angústias. “Às vezes até partilham connosco coisas que preferíamos não saber”, refere, acrescentando que essa relação mais estreita contínua é mais notória em meios mais pequenos, como Salvaterra de Magos.
Apesar de ainda haver quem chegue à farmácia com dificuldade para pagar os medicamentos Joana Gomes congratula-se, no entanto, por o sector ter encontrado respostas para ajudar as pessoas mais carenciadas. “Actualmente existem iniciativas solidárias em parceria com as autarquias ou outras entidades, como acontece com o Programa Abem, que disponibiliza uma rede de farmácias onde os utentes que mais precisam podem encontrar os seus fármacos a custo zero”, conclui.

Pandemia deu mais notoriedade aos profissionais e às farmácias

Graça Belo Vieira, 55 anos, farmacêutica há 31 anos e proprietária da Farmácia Nova de Alverca, considera que as farmácias não servem só para vender medicamentos e também são espaços onde as pessoas se aconselham e falam da vida.

“Gosto muito daquilo que faço e gosto muito de ajudar as pessoas. A farmácia não é só vender medicamentos”, diz Graça Belo Vieira, proprietária e directora técnica da Farmácia Nova de Alverca. Realçando que a farmácia e o farmacêutico muitas vezes são a primeira porta de entrada de quem está com problemas de saúde, diz que uma das maiores satisfações da profissão é poder contribuir para que as pessoas consigam resolver os seus problemas.
Desde cedo soube que queria trabalhar em alguma coisa que ajudasse pessoas, a medicina, a educação física e a fisioterapia também passaram pelos seus planos, mas foi na farmácia que encontrou a sua missão. Licenciada desde 1991, Graça Belo Vieira está há 19 anos à frente da Farmácia Nova de Alverca. Em 2003, depois de participar num concurso público, conseguiu abrir a farmácia, experiência que diz ter sido “trabalhosa mas gratificante”.
Considera um negócio um pouco difícil de gerir e de controlar uma vez que as margens sobre os medicamentos são pequenas e precisam de investimento prévio. Explica que apesar de serem investimentos muito grandes tenta ter em stock os medicamentos que sabe que são precisos. Apesar disso, tem trabalhado para tornar a sua farmácia num bom ambiente de trabalho e onde todos são família e há espaço para uma conversa, para um momento de humor e para conselhos que algumas vezes são sobre questões pessoais.
Acredita que a altura da pandemia trouxe mais notoriedade e destaque à profissão e que a população começou a olhar para as farmácias de forma diferente como instituições de saúde. Porque, sublinha, as pessoas perceberam que os profissionais estavam disponíveis quando precisaram. Graça Belo conta que tem havido um aumento no consumo de medicamentos para o sistema nervoso, de ansiolíticos e de antidepressivos, algo que acredita acontecer por causa do exigente nível de vida que as pessoas têm actualmente. “Os tempos que correm são tempos difíceis porque temos que acompanhar a revolução digital, temos que acompanhar a família, temos que acompanhar as coisas todas e às vezes não se consegue”, afirma com preocupação.

Há mais gente e mais nova a comprar medicamentos para a disfunção eréctil

Maria Flávia Ribeiro da Cunha, directora técnica da Farmácia Soeiro, em Ferreira do Zêzere, diz que o tempo mais conturbado na profissão foi com o início da pandemia em que houve uma corrida às farmácias, que originou rupturas de stocks.

A directora técnica da Farmácia Soeiro, em Ferreira do Zêzere, começou por frequentar o curso de Geologia e confessa que detestou tirar Ciências Farmacêuticas, mas hoje Maria Flávia Ribeiro da Cunha sente-se muito bem no seu papel, numa comunidade rural onde existe uma grande proximidade com o cliente. Está à frente de uma farmácia com 130 anos, que teve vários donos e que só há relativamente pouco tempo foi adquirida pela sua família. O pai foi ajudante técnico da farmácia, onde começou a trabalhar aos 13 anos.
Os que vão à farmácia sem indicação do médico pedem um xarope ou um comprimido para a gripe. Tudo o que seja suplementos vitamínicos, se não for o médico a indicar não se vendem. Os profissionais de farmácia são aqueles em quem as pessoas confiam para desabafar. “Perguntam-me o que é que acha? O que é que faria no meu lugar? Se fosse a menina o que é que tomava?”.
Maria Flávia Ribeiro da Cunha diz que as pessoas tomam demasiados antidepressivos e há jovens, adolescentes que aparecem na farmácia com receitas de medicação para a depressão, para dormir, ansiolíticos. “Por vezes não conseguimos dormir ou não estamos bem por algum factor externo que os medicamentos não resolvem. Mas também há pessoas que dizem logo que não conseguem passar sem esses antidepressivos, já estão completamente habituadas, para não dizer viciadas”, considera.
A farmacêutica diz que há um aumento na procura de medicação para a disfunção eréctil e em camadas cada vez mais novas, o que atribui à vida stressante. As pessoas também já não têm tanta vergonha e, por exemplo, já pedem Viagra sem ser entre dentes. “Anteriormente eram as pessoas de 60, 70 anos que compravam, mas agora estamos a falar em pessoas na casa dos 40 anos”, refere.
O tempo mais conturbado que teve desde que está à frente da farmácia foi o do início da pandemia. Toda a gente queria levar tudo, tipo supermercado, com medo que tudo fosse acabar ou que as farmácias fechassem. Depois houve uma quebra de utentes porque muitas pessoas tinham medo de sair à rua, mas quando iam à farmácia levavam logo várias caixas de medicamentos, o que fez com que chegassem a ter algumas rupturas de stock.

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