Sociedade | 03-10-2022 10:00

Alfredo Fernandes conhece as águas do Tejo como poucos

Alfredo Vicente Fernandes é um dos pescadores avieiros mais antigos da Póvoa de Santa Iria

Alfredo Vicente Fernandes, ou mestre Cálão como é conhecido, é um dos pescadores avieiros mais antigos da Póvoa de Santa Iria. Nasceu dentro de uma bateira e a sua vida sempre esteve ligada ao rio. “Sinto que o Tejo chama por mim”, diz em conversa com O MIRANTE.

Alfredo Vicente Fernandes, também conhecido como mestre Cálão, é um dos pescadores avieiros mais antigos da Póvoa de Santa Iria e um homem com muitas histórias e memórias para contar de uma vida umbilicalmente ligada ao Tejo ou não tivesse nascido no interior de um barco. Tem 73 anos e foi pescador toda a vida. “As minhas memórias estão todas ligadas à pesca, ela faz parte de mim e ainda hoje, apesar de não ir para o rio com tanta frequência, sinto que ele chama por mim”, confessa.
O mestre avieiro não tem dúvidas: se soubesse ler e escrever já teria escrito muitos livros. Compensa a iliteracia com a habilidade manual que emprega na construção de barcos e peças de artesanato ligadas à cultura avieira. “Sinto-me muito realizado e muito feliz por conseguir unir as pessoas; e acho que deixo aqui um património para a cultura avieira, que é tão importante para nós”, conta.
Diz que hoje o seu principal foco é trabalhar para garantir que as memórias da comunidade não são esquecidas. Alfredo Fernandes explica que ser pescador é uma vida difícil, perigosa e instável, tanto a nível monetário como a nível familiar, e acredita que é a dureza da actividade que está a afastar os mais jovens do rio. O mestre entristece-se com a possibilidade de ver a profissão que tanto adora desaparecer com a passagem dos anos e a chegada de novas tecnologias.
Tem de sua autoria 12 barcos típicos avieiros construídos à mão e várias peças de artesanato ligadas à cultura avieira e à pesca no Tejo. O maior barco que construiu tinha 10 metros e orgulha-se de os fazer sem nenhum tipo de molde ou assistência. O mestre tem-se associado a várias iniciativas organizadas pela Associação Cultural dos Avieiros da Póvoa de Santa Iria (ACAPSI) e outros eventos no concelho ajudando a promover a cultura avieira.

“Um pescador não tem horários”
O pescador experienciou a riqueza do rio durante muitos anos e teve a oportunidade de pescar diferentes espécies de peixe, como sável, corvina, saboga, enguia, camarão negro, linguado, revelando que o maior peixe que apanhou foi uma corvina com 49 quilos. Na sua opinião o mais importante para um pescador é conhecer o rio e o peixe que nele vive. Só com esse conhecimento é que se decide quando e como pescar. “Um pescador não tem horários, guia-se pelas marés e tem que saber a melhor altura para apanhar o peixe que quer”, afirma.
Alfredo Fernandes lamenta que o Tejo tenha cada vez menos peixe, algo que pode ser atribuído à crescente salinização das águas, alterações climáticas e pesca excessiva. A caldeirada é o seu prato de peixe favorito. “Uma boa caldeirada à pescador não pode ter alguns peixes misturados. Isto é, não ponho sardinhas e carapau na mesma panela porque o sabor de um vai mascarar o sabor do outro. O peixe tem que ser escolhido para que o seu sabor possa brilhar e sobressair”, confessa.
O avieiro não deixa de salientar a importância que a ACAPSI e que o seu presidente, Fernando Barrinho, têm tido para preservar a identidade da comunidade avieira da Póvoa e do concelho. “Se não fosse por esta associação a minha vontade de dar a conhecer as tradições dos avieiros já tinha desaparecido”, confessa com lágrimas nos olhos.

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