Sociedade | 17-10-2022 15:00

Designação Convento do Carmo é uma mentira e uma deturpação da história

Edifício foi construído de raiz para funcionar como hospital no local onde em tempos esteve instalado um convento

Chamar Convento do Carmo ao remodelado edifício do antigo hospital de Torres Novas, onde foram instalados diversos serviços municipais, é uma mentira e uma deturpação da história. Mas é o que consta no endereço dos serviços da autarquia ali instalados. A opinião é de um técnico superior do município e historiador, que reagiu de forma contundente a um e-mail interno da directora do Departamento Administrativo e Financeiro da autarquia.

Um técnico superior de cultura na Câmara de Torres Novas reagiu de forma contundente a um e-mail interno da directora do Departamento Administrativo e Financeiro, no qual transmitia a todos os funcionários a mudança do endereço oficial das novas instalações do município, designando-as por Convento do Carmo. Ora, o antropólogo e historiador João Carlos Lopes não esteve com meias medidas e mostrou a sua indignação pelo facto de a câmara insistir em chamar convento ao antigo hospital da cidade, entretanto reconvertido para acolher serviços do município. “Com o devido respeito, isso do ‘Convento do Carmo’ não existe, por muito que se queira fazer crer o contrário”, respondeu João Carlos Lopes à sua colega.
E prossegue: “como historiador, claro que não posso deixar de clarificar aquilo que é a verdade dos factos. O edifício em causa foi construído de raiz para hospital (trata-se, como se pode verificar, de um edifício hospitalar) sobre o espaço onde tinha existido um convento, à época completamente destruído fazia décadas. Do antigo convento não restou um prego, um tijolo, uma pedra. Não se trata de opinião, mas de factos históricos”.
A finalizar a resposta ao e-mail, João Carlos Lopes deixa ainda um recado: “Compete aos funcionários públicos, entre outras coisas, zelar pela boa imagem das instituições que servem: neste caso, a designação dada a uma instalação municipal assente numa mentira e numa deturpação da história, não se coaduna com a seriedade e honorabilidade da instituição”.
Contactado por O MIRANTE, o antropólogo e historiador referiu que o processo político começou a desenrolar-se ainda no tempo em que o socialista António Rodrigues era o presidente do município (hoje é vereador da oposição por um movimento independente). “Há 30 anos, para aí, ainda havia apoios, mas depois o Governo decidiu acabar com isso, nunca mais houve porque existiram abusos e construções faraónicas. Houve um pacto de regime entre o PS e o PSD e ficaram vedados quaisquer fundos para obras nos Paços do Concelho, nomeadamente fundos comunitários”, começou por referir João Carlos Lopes.
E como é que António Rodrigues deu a volta? “Combinou com Ana Abrunhosa, na altura presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) Centro, que aquilo era um equipamento cultural e na candidatura chamou-lhe ‘o edifício conhecido por Convento do Carmo’, o que era mentira, porque ninguém conhecia aquilo como “Convento do Carmo”, diz o técnico do município a O MIRANTE, continuando: “estiveram mais de cinco anos a fingir que aquilo era destinado à cultura, fizeram lá umas exposições e pronto, agora já assentou a poeira, já pode ir para lá a câmara”.
João Carlos Lopes reforça que é um erro chamar Convento do Carmo ao edifício do antigo hospital: “Não há um prego, uma pedra, não há nada que seja do antigo convento. Aquilo é uma construção hospitalar, moderna para a época. O hospital foi inaugurado em 1888 e era um dos mais modernos do país”.

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