Sociedade | 04-12-2022 10:00

HIV/SIDA: tratamento e a informação evoluíram mas o preconceito mantém-se

HIV/SIDA: tratamento e a informação evoluíram mas o preconceito mantém-se
Director da Unidade de Doenças Infecciosas do HDS, Fausto Roxo, salienta que deve ser feito um teste ao vírus da Imunodeficiência Humana uma vez por ano

O Director da Unidade de Doenças Infecciosas do Hospital Distrital de Santarém, Fausto Roxo, lamenta que ainda haja preconceito e ignorância em relação à doença.

Lembra o caso que o tocou do doente que partilhou a situação com a família e foi proibido de ver o neto. Actualmente o hospital acompanha mais de um milhar de infectados, mais do dobro que em 2019.

É importante que cada um faça um teste ao HIV/SIDA pelo menos uma vez. O ideal seria todos os anos. O aviso é do director da Unidade de Doenças Infecciosas do Hospital Distrital de Santarém, Fausto Roxo, a propósito do Dia Mundial de Combate ao HIV/SIDA que se assinala a 1 de Dezembro. Realçando que a doença tem cada vez mais incidência nos jovens, o médico desmitifica alguns fantasmas que ainda existem, dizendo que se pode abraçar, beijar, partilhar talhares ou copos. A unidade dirigida por Fausto Roxo acompanha mais de um milhar de utentes com HIV, um número que mais que duplicou em quatro anos. Há doentes acompanhados há mais de 20 anos.
Na vida de Fausto Roxo como médico há um doente que o marcou. A pessoa decidiu contar à família e o filho impediu-o de ver e tocar no neto. “O senhor chorou à minha frente por causa disso”, lembra, explicando que o utente só estava obrigado a partilhar a informação com profissionais de saúde e com quem se relaciona-se sexualmente. “A atitude do filho e da família só demonstra ignorância e preconceito que, infelizmente, ainda existe muito”, comenta, dizendo que em 30 anos evoluiu-se muito na terapêutica e no conhecimento da doença mas pouco se evoluiu no acabar com o preconceito.
Quanto mais cedo se descobrir que a pessoa está infectada, mais fácil é tratar o doente. O médico lembra que existem três formas de transmissão: a via sexual, sanguínea e gravidez de mãe para filho. Da mesma forma que o HIV/SIDA não é uma doença só de homossexuais. Também é uma doença de heterossexuais. O HDS acompanha mais de um milhar de utentes portadores de HIV, um número que se mantém estável em relação ao ano passado mas comparando com 2019, antes da pandemia, eram muito menos, cerca de 400. O HDS continua a receber novos doentes, de todo o distrito e também distritos limítrofes. “Todas as semanas temos novos casos, mas já não existem óbitos como há 20 anos uma vez que a doença se tornou crónica, por isso a tendência é o número de doentes aumentar”, explica o médico, acrescentando que mais de 90% da transmissão acontece por via sexual.

Mais jovens com HIV, a importância de um diagnóstico cedo e a primeira doente do hospital

Fausto Roxo alerta que há cada vez mais jovens, entre os 18 e os 30 anos, diagnosticados com HIV, assim como pessoas na casa dos 50 anos. Daí a importância da utilização de preservativo nas relações sexuais. “Os jovens acham sempre que nunca lhes vai acontecer e na verdade não tem havido muitas campanhas de prevenção alertando para o uso do preservativo nos últimos tempos”, lamenta. O clínico sublinha que quanto mais cedo se chegar ao diagnóstico mais depressa o tratamento torna a doença crónica e a pessoa consegue viver muitos anos. Ainda há casos de casais que transmitem a doença entre assim através de relações extraconjugais e, “muitos vêm à consulta em conjunto e a maioria continua casada”, revela.
Médico há 36 anos, no HDS há 32 anos, Fausto Roxo começou a trabalhar com doentes com VIH em 1992 numa altura em que a doença era fatal e mais estigmatizante. Lembra que na altura os poucos medicamentos que existiam não faziam grande diferença e a doença era considerada terminal. Fausto Roxo recorda-se do primeiro caso de uma doente infectada com HIV no hospital, que tinha sido internada por perda de peso, febre e mal-estar geral. Na altura não se associava ao HIV porque normalmente era uma doença associada a grupos de risco como homossexuais, toxicodependentes e prostitutas. “Esta senhora estava fora dos parâmetros. Começamos a investigar até que detectamos o vírus e a senhora acabou por morrer pouco tempo depois. No início dos anos 90 do século passado era uma sentença de morte porque não havia medicamentos eficazes”, conclui.

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