Sociedade | 07-12-2022 13:00

Jacintos voltam a asfixiar os rios e valas da região

Jacintos voltam a asfixiar os rios e valas da região
Associação de Caçadores e Pescadores do Cartaxo vê-se prejudicada pelos jacintos-de-água que se apoderaram das águas a vala, impedindo os patos bravos de pousar

Recursos hídricos voltam a estar cobertos de tapetes verdejantes de jacintos-de-água, a praga que em 2019 cobriu metade do rio Sorraia.

Tanto em Benavente, como no Cartaxo ou em Vila Nova da Rainha a planta invasora faz novamente parte da paisagem, prejudicando o ambiente e actividades económicas. A erradicação pode ser impossível mas o controlo já devia ser uma realidade.

Os tapetes verdejantes com as vistosas flores de cor violeta sobre a água que à primeira vista embelezam a paisagem são na verdade um problema com impactos ambientais e económicos. Os jacintos-de-água, planta invasora importada do Brasil para ornamentar lagos em Portugal na década de 1930 é, numa área considerável da região, uma praga flutuante em franco desenvolvimento por falta de controlo. Na Vala Real, no troço que atravessa o concelho do Cartaxo, a sua propagação está a levar ao desespero a direcção e sócios da Associação de Caçadores e Pescadores do Cartaxo.
“Há três anos que é assim. Na Vala Real, de Santarém a Azambuja, passando pelo Cartaxo, não se vê gota de água. Temos uma pateira onde os patos bravos costumavam procriar, o que já não acontece porque em vez de verem água onde pousar vêem um grande relvado de jacintos”, diz a O MIRANTE José Matias, tesoureiro da associação, acrescentando que os caçadores de patos bravos atiram culpas à associação, quando esta não tem capacidade nem pode legalmente intervir.
O presidente da Câmara do Cartaxo, João Heitor, diz ser “óbvio que os municípios têm interesse em resolver o problema mas não têm autonomia para o fazer”, uma vez que todas as valas reais estão “na esfera da APA” (Agência Portuguesa do Ambiente), que “sendo uma agência nacional deve ter presente a responsabilidade da manutenção e valorização dos recursos hídricos”. O autarca percebe que haja uma série de contingências e limitações mas defende que tem que haver uma recuperação dos cursos de água e ser promovida a sua utilização para que haja um permanente cuidado e manutenção.
O Cartaxo, juntamente com os concelhos de Santarém e Azambuja, e a Associação de Agricultores do Ribatejo estão a desenvolver um estudo sobre os recursos hídricos da Lezíria do Tejo cuja primeira fase está em vias de ser finalizada. “Tomámos mais consciência do problema desde que estamos a desenvolver esse estudo. Está marcada uma reunião com a APA onde serão abordados vários assuntos e um deles será esse”, adianta João Heitor.
Mais a sul, em Vila Nova da Rainha, concelho de Azambuja, os jacintos também começam a ser uma praga. O presidente da junta, Bruno Borda d’Água, tem alertado para o problema que, com mais algumas chuvadas fortes, pode entupir o curso de água e provocar inundações em habitações. “Se o nível da água subir com a chuva, os jacintos vão ficar presos na ponte e causar cheias. É um problema que ninguém quer ver”, salienta. .

Acção da APA no maior afluente do Tejo foi um “paliativo”
A Agência Portuguesa do Ambiente, responsável por grande parte dos quilómetros dominados pela planta tomou, em 2019, algumas medidas para travar a sua proliferação no rio Sorraia, entre Coruche e Benavente. Foram usadas máquinas com braços extensíveis de 15 metros para a remoção da planta e das suas raízes profundas, geralmente, embrenhadas nas raízes das árvores junto às margens. A longo prazo de nada valeu, já que três anos depois os jacintos-de-água estão novamente a apoderar-se das águas do afluente do rio Tejo, sendo visíveis em zonas como o Trejoito e Aldeia do Peixe.
Os trabalhos levados a cabo pela APA são “um exemplo de como não resolver o problema”, ou seja, “um mau exemplo porque se tratou obviamente de uma acção com alguma dimensão mas que foi pontual, paliativa”, considera o presidente do município de Benavente, Carlos Coutinho. “Já dissemos à APA que não podemos ser nós a ficar com este problema em mãos, temos mais de 50 quilómetros de rio desde a foz até Coruche”.
A APA, prossegue o autarca, “concordou que era necessário fazer uma intervenção não apenas pontual mas que resolvesse o problema”, tendo sido por esse motivo que ficou definido em trabalhos de grupo alargados que iria “haver um projecto de regularização do rio para o tornar desobstruído de árvores, que fazem com que os jacintos se prendam e depois constituir equipas permanentes que iriam monitorizando o rio e à medida que um foco aparecesse era retirado”.
Só desta forma, defende o autarca de Benavente, “se consegue controlar” a praga. Embora seja uma medida dispendiosa. “Só para o projecto eram precisos 280 mil euros”, adianta Carlos Coutinho que deposita esperança nos fundos do Portugal 2030.
O MIRANTE contactou a APA a fim de apurar o estado deste projecto mas não obteve qualquer resposta.

Uma planta sem predadores que se transformou em praga

O jacinto-de-água é a planta invasora aquática mais distribuída no país e a que causa mais danos. Continua sem predadores naturais que se alimentem das suas folhas, caules ou seiva. “Se a planta não tem predadores e tem uma alta taxa de propagação se não houver remoção - como não tem havido - nem cheias que no passado ajudavam à sua eliminação” é impossível que não se vão amontoando. Ainda para mais num rio “repleto de diques”, explica a O MIRANTE José Pastoria, um dos fundadores do movimento cívico Juntos Pelo Sorraia que já teve uma empresa de desportos ligada ao rio que hoje tem troços que são “autênticas auto-estradas de jacintos”.
“Uma guerra não se ganha só com uma batalha e este problema tem que ser visto como uma guerra a tempo inteiro. Bastava ter uma equipa de duas pessoas o ano inteiro a limpar o rio e um projecto para centrar o rio na actividade económica das populações, criando por exemplo um passadiço e praias fluviais” e promovendo um turismo de natureza, defende José Pastoria que ajudou há três anos a chamar a atenção para o problema.
De acordo com a Administração da Região Hidrográfica do Tejo e do Oeste (ARHTO) a planta não apresenta toxicidade para pessoas nem animais, mas pode provocar danos graves na qualidade da água.

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