Sociedade | 07-12-2022 10:00

Perder filha e marido num acidente é uma ferida sempre aberta

Perder filha e marido num acidente é uma ferida sempre aberta
Paula Santos e a filha mais velha sobreviveram ao acidente que causou a morte ao seu marido e filha bebé

Paula Santos, do Forte da Casa, viu a filha de dois anos e o marido despedirem-se da vida cedo demais no acidente provocado por um carro desgovernado.

Quase duas décadas depois continua a ir à curva da morte à procura das respostas que nunca chegam. Morrer na estrada não é uma inevitabilidade nem acontece só aos outros. Só nos primeiros sete meses de 2022 perderam a vida 253 pessoas em acidentes de viação.

Paula Santos, se pudesse, mudava o dia 5 de Maio de 2005. Tinha atrasado o pequeno-almoço ou não tinha saído com a família de Forte da Casa, Vila Franca de Xira, para ir para uma casa de férias na Lourinhã. Aquele passeio da Lourinhã a Caldas da Rainha até podia ter ficado para outra altura. Mas foi naquele dia e numa curva ainda no concelho onde estavam alojados que um carro embateu a alta velocidade na lateral do Renault 19, onde seguia com o seu marido e as duas filhas, de dois e quatro anos. Vítor e a menina mais nova perderam a vida naquele instante. Paula Santos curou-se das fracturas do osso do esterno e das costelas partidas, mas nunca se curou das feridas psicológicas e teve de reaprender a viver.
Passados 17 anos ainda dá por si a remoer nos segundos que antecederam a colisão. “Vi um carro com duas rodas no ar, gritei, o Vítor tentou afastar o nosso carro para uma estrada em gravilha. Não deu tempo. O outro carro parecia uma flecha a vir na nossa direcção. Mas se o embate tivesse sido de frente se calhar não tinham morrido”, pelo menos foi o que lhe disseram na altura os bombeiros. Paula e Vítor levavam cinto de segurança, as meninas iam acomodadas e seguras nas cadeiras-auto e a velocidade a que seguiam era abaixo da permitida naquele troço da Estrada Nacional 247, à saída da Lourinhã.
O luto vai-se fazendo como se consegue. O tempo vai ajudando a apaziguar a dor, mas “há um vazio que fica” e que nunca mais é preenchido. A vida, que entretanto avançou, nunca deixa de estar amarrada ao dia em que perdeu duas das pessoas que mais amava. “A memória não se apaga e há tanto que ficou por dizer porque não houve tempo”. Numa tentativa de o recuperar e dizer o que não disse, ao fim de quatro meses - quando ganhou “coragem” para voltar a conduzir - Paula Santos começou a viajar até à curva da estrada que a fez morrer por dentro. “Ia à noite, ao sair do trabalho e ficava lá duas ou três horas a chorar, a desabafar” com palavras ditas quase em silêncio e com a intenção de se esquecer, por momentos, daquelas ausências.

Condenação da justiça não faz desaparecer a dor da perda
A irresponsabilidade do condutor do Renault Clio que embateu na lateral do carro da família do Forte da Casa foi penalizada em tribunal. O processo foi moroso e o desfecho não lhe trouxe uma sensação de que foi feita justiça, muito menos fez desaparecer a dor. Acusado de dois crimes de homicídio por negligência, foi condenado a pena suspensa de prisão à troca de três mil euros doados aos Bombeiros da Lourinhã. “Além de naquele dia não nos ter prestado auxílio, o que foi desumano, nunca foi capaz de nos dar os sentimentos”, lamenta, sublinhando que em todo o processo foi fundamental a única testemunha que seguia atrás do seu carro e que a ajudou, no dia do acidente, a abrir a porta para que pudessem acudir a sua filha mais velha, Marlene Beatriz, que está prestes a fazer 22 anos.
Entre os que acompanharam de perto a dor de Paula Santos há quem se surpreenda quando diz que lhe dói mais a perda de Micaela, de dois anos e três meses do que de Vítor, de 42 anos, com quem esteve casada durante 18 anos. “Era um bom marido, um grande amigo e que não merecia o que lhe aconteceu, mas ainda conseguiu gozar alguma coisa nesta vida. Ela não, era um anjinho que não teve tempo de viver e que teve uma morte horrível”.
Fazer o reconhecimento dos corpos na morgue causou-lhe uma dor inexplicável. Embora tenha vacilado, Paula Santos aceitou fazê-lo. Dispostos lado a lado os corpos, outrora cheios de vida, estavam gelados e com as costuras da autópsia. “O rosto da menina estava irreconhecível. Pedi que os caixões não fossem abertos no dia do funeral para que se lembrassem deles como eram e não como ficaram”. Tal como na fase inicial do luto Paula Santos ainda se mete no carro e viaja até ao local onde Vítor e Micaela perderam a vida sem direito a despedidas. “É no cemitério da Póvoa de Santa Iria que os seus corpos estão sepultados, mas para mim é naquela curva que eles estão, é onde me sinto com eles”.

253 mortos nos primeiros sete meses de 2022

O relatório da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) relativo a Julho de 2022 precisa que nos primeiros sete meses do ano ocorreram em Portugal 18.889 acidentes de viação, que resultaram em 253 mortos, 1.398 feridos graves e 22.021 feridos ligeiros. Dados que em comparação com período homólogo de 2021, ano em que ainda se verificaram quebras na circulação rodoviária devido à pandemia de Covid-19, nos primeiros sete meses de 2022 registaram-se mais 3.257 acidentes (mais 20,8%), mais 60 vítimas mortais (mais 31,1%), mais 237 feridos graves (mais 20,4%) e mais 3.946 feridos leves (mais 21,8%). Os automóveis ligeiros foram os veículos mais envolvidos em acidentes entre Janeiro e Julho, representando 71,4% do total, um aumento de 22,8% relativamente ao período homólogo de 2021. A colisão foi a causa de acidente mais frequente (53,0%), com 38,2% das vítimas mortais e 43,0% dos feridos graves. Os despistes, que representaram 34,3% do total dos desastres, corresponderam à principal natureza de acidente na origem das vítimas mortais (49,4%).

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