Sociedade | 14-12-2022 18:00

Paralisia cerebral nunca foi obstáculo para Daniel Seabra concretizar os seus sonhos

Paralisia cerebral nunca foi obstáculo para Daniel Seabra concretizar os seus sonhos
Daniel Seabra com a mãe Alexandra Amaro e o avô Luís Amaro

Daniel Seabra, natural de Abrantes, frequentou uma licenciatura em Comunicação, mas foi obrigado a desistir por falta de apoios.

Confessa que ficou desmotivado, mas encontrou na escrita uma forma de trabalhar o processo de aceitação para os obstáculos que tem de enfrentar diariamente. Vai lançar o seu terceiro livro, mas o grande objectivo de vida é encontrar um emprego que o faça sentir-se útil e feliz.

Daniel Seabra sempre viveu na Amoreira, freguesia de Rio de Moinhos, no concelho de Abrantes. Nasceu com paralisia cerebral, condição que afecta a sua locomoção e que o faz depender dos cuidados da mãe e do avô para realizar as necessidades básicas. Apesar das dificuldades e dos obstáculos que tem de enfrentar diariamente, Daniel Seabra não deixa de lutar pelos seus sonhos e prepara o lançamento do seu terceiro livro, “Folhas Soltas”, para Janeiro de 2023, altura em que completa 28 anos.
“Sou um tipo bem-disposto e não posso dizer que sou revoltado com o meu estado de saúde. A escrita também ajuda no processo da aceitação. É a escrever que me sinto bem e vou ao fundo dos meus problemas”, revela a O MIRANTE no início de uma conversa realizada no primeiro andar da casa que partilha com o avô materno.
Daniel também faz letras para canções e já está a escrever o quarto livro. “O primeiro foi uma brincadeira, são poemas e uma obra mais ligeira. O segundo já foi mais a sério. Fui desafiado por alguns amigos a deitar cá para fora todos os meus sentimentos, os bons e os maus”, conta, recordando que ficou desiludido com a rotina que foi obrigado a adoptar após abandonar o ensino superior. “Infelizmente passo o dia no sofá, com excepção das idas à fisioterapia em Abrantes. Sei que a parte física também me faz bem, mexer os músculos, mas vou lá mais para estar com pessoas, falar de futebol e coisas triviais”, revela.
Daniel Seabra frequentou dois anos da licenciatura de Comunicação na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), mas foi forçado a desistir. “Não tinha ninguém que me ajudasse com as refeições e com as idas à casa-de-banho”, lembra o jovem autor, admitindo que começou a ficar desmotivado. Explica que a directora da ESTA ainda contactou os centros de emprego, mas não chegou a aparecer ninguém com interesse em ajudá-lo. “Se não fosse isso tinha conseguido acabar a licenciatura”, lamenta. Passa uma boa parte do dia a ouvir música e a conversar com os amigos nas redes sociais. “Embora me queiram vir buscar, têm de me pegar ao colo, pôr no carro, tirar do carro, é complicado”, sublinha.

O abandono do pai
e o sonho de ter um emprego
Vive com o avô no primeiro andar da casa, que tem mais condições que o rés-do-chão, onde estão a mãe e a irmã. “O meu avô é a minha grande companhia. Falamos, vemos televisão, discutimos futebol, política, tudo. Sou do Sporting, o resto aqui em casa é tudo do Benfica”, afirma, em jeito de brincadeira.
O pai abandonou a família quando Daniel tinha apenas seis anos. “Vou fazer 28 anos em Janeiro, não tenho contacto com o meu pai desde que tinha seis, nunca mais o vi. Já tenho poucas memórias dele, a minha irmã, que tem 23, não tem nenhumas”, conta Daniel, que vive em frente à avó paterna sem, no entanto, ter qualquer espécie de contacto.
Fez o secundário na Escola Solano de Abreu e nunca teve problemas. “Foi a melhor altura da minha vida, nunca me diverti tanto. Toda a gente era impecável comigo”, recorda com saudade, lembrando que na altura tinha a cadeira eléctrica e podia-se deslocar à vontade. “Já não a uso nem sei se ainda funciona. Ia para onde com ela?”, questiona.
O grande objectivo de Daniel Seabra é arranjar um emprego. “Faço tudo num computador. O braço direito mexe pouco, mas consigo fazer tudo com o esquerdo. Escrevo os meus textos no computador e não demoro muito tempo”, assegura.
Manuel Valamatos, presidente da Câmara de Abrantes, esteve presente no lançamento do primeiro livro. "Mostrou-se emocionado e até chorou, mas a partir daí não mostrou muito mais interesse. Também tem a vida dele...", afirma, revelando, no entanto, que o líder da autarquia irá escrever o prefácio do seu novo livro.

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