Sociedade | 19-12-2022 07:00

Alunos de Apolo voltam a Santarém onze anos depois

Alunos de Apolo voltam a Santarém onze anos depois
Escola da Alunos de Apolo de Santarém retomou actividade em 2022 e tem cerca de 30 alunos nas danças de salão

A Alunos de Apolo/AIT Dance, de Santarém, filial da Alunos de Apolo de Lisboa, reabriu este ano de 2022 depois de 11 anos sem actividade na sequência do falecimento do tesoureiro e fundador da escola da cidade escalabitana, António Silva.

O MIRANTE foi visitar a escola, que tem 30 alunos, a propósito do Dia Internacional do Tango, assinalado a 11 de Dezembro, e encontrou gente dedicada às danças de salão mesmo depois de uma vida de trabalho, como Filomena Tavares, de 69 anos de idade.

Filomena Tavares, açoriana a viver há vários anos em Santarém, inscreveu-se nas aulas de danças de salão da Alunos de Apolo/AIT Dance, que retomou a sua actividade na cidade como filial da Alunos de Apolo de Lisboa, após onze anos encerrada. Quando era secretária da Procuradoria Geral da República e do Tribunal Constitucional não lhe restava tempo para esta actividade pela qual sempre teve interesse e agora que está reformada não hesitou. Divorciada e sem filhos afirma que dançar é uma paixão que vem desde criança e sempre gostou de movimento.
O tango é uma das danças que Filomena Tavares adora executar porque consegue libertar o corpo e a mente. Na juventude praticou patinagem artística e dança clássica e agora diz que a dança e o grupo da Alunos de Apolo ajuda-a a enfrentar a velhice. “Enquanto aqui estou e me sinto bem não me sinto velha”, confessa. O seu professor Guilherme Alexandre tem 17 anos e nos treinos costuma ser o seu par. As aulas de dança social são duas vezes por semana, mas pela vontade de Filomena era todos os dias.
A Escola Alunos de Apolo em Santarém deixou de ter actividade quando faleceu António Silva, o tesoureiro e responsável da escola e reiniciou agora as aulas pela mão da filha do fundador, Carla Silva, que acumula as funções de presidente e treinadora e que obteve vários prémios na dança. Em 1992 foi campeã nacional de danças de salão pela Sociedade Recreativa Operária (SRO). Tinha 14 anos e a Escola Alunos de Apolo de Lisboa convidou-a para dançar com eles. Cinco anos depois, em 1997, o pai abriu a filial em Santarém, que obteve oito títulos de campeões nacionais.
“Estou a dar continuidade ao trabalho do meu pai, António Silva, que fez um grande trabalho com a escola. É um orgulho muito grande reabrir a Alunos de Apolo em Santarém”, assume Carla Silva, que foi dançarina durante 15 anos e deixou a competição aos 29 anos tornando-se treinadora. A Alunos de Apolo/AIT Dance tem 30 alunos divididos pela competição e pela dança social, onde pessoas mais velhas podem praticar danças de salão sem passos acrobáticos ou coreografia.
A treinadora afirma que os mais velhos gostam de aprender tango por ser uma dança de poder e apaixonante. Carla Silva refere que a dança de competição é exigente e o tango exige alguma elasticidade e boa forma física para executar determinados passos. Este primeiro ano tem sido muito positivo e para a presidente da escola as danças de salão nunca saem de moda apesar de terem que se adaptar a novos estilos musicais, como o hip-hop.

A cumplicidade dos dançarinos e o preconceito sobre os rapazes

Natacha Fonseca, de 23 anos, e João Azevedo, 22 anos, são um par de competição há cerca de três anos e namoram há quatro. Natacha pratica danças de salão desde os 18 anos enquanto João começou aos seis anos. “O tango é paixão, é desafiante porque não tem que ser só a submissão da mulher. A mulher também pode seduzir. É uma dança que mostra a feminilidade e masculinidade da mulher e do homem”, afirma Natacha Fonseca.
João Azevedo não se recorda porque escolheu as danças de salão, mas os pais sempre lhe deram liberdade para escolher e confessa nunca ter sentido preconceito por dançar. O engenheiro informático afirma que tem que existir uma grande cumplicidade para a dança sair perfeita. Enquanto namorados têm de saber separar o lado pessoal da dança. A cumplicidade é fundamental para o sucesso de um casal de dançarinos. “Se for preciso ralhar, ralhamos e não temos que ficar chateados. A dança está em primeiro lugar enquanto treinamos”, realça João Azevedo.
Carolina Tonete tem 14 anos e dança desde os seis anos. Cresceu a ver a sua mãe, Carla Silva, a dançar e participar em competições e foi com normalidade que lhe seguiu os passos. A jovem gosta de todas as danças que lhe permitam mostrar o que está a sentir e é com o tango que consegue. “O tango é uma dança que pode ser agressiva, mais sentida e com muita paixão. Gosto de danças onde posso mostrar o que estou a sentir e no tango consigo fazer isso. Sinto-me livre”, afirma. O namorado, João Silva, de 15 anos, é o seu par. Iniciou o seu percurso nas danças de salão aos 10 anos, entretanto parou e regressou há cerca de dois meses por incentivo da namorada.
Guilherme Alexandre pratica danças de salão desde os oito anos. O seu irmão foi dançarino e o jovem também quis experimentar. Confessa que ainda existe preconceito em relação aos homens praticarem dança. “Num espectáculo que fizemos na minha terra, Póvoa da Isenta [concelho de Santarém] uma criança, de 10 anos, perguntou-me se eu, que tinha 13 anos, dançava porque gostava de homens. Na altura fiquei sem reacção e apenas respondi que não. A dança não tem nada a ver com a sexualidade da pessoa, mas infelizmente ainda existe esse preconceito, o que afasta os homens da dança”, lamenta.
Carla Silva reconhece que há muito mais mulheres a quererem dançar do que homens, o que levou a Federação Portuguesa de Dança Desportiva a permitir que as mulheres possam dançar sozinhas ou em grupo. “Infelizmente, ainda existe a ideia errada de que quem dança é gay. Basta verem um movimento maior da anca para dizerem que um homem é gay. Ainda há muito caminho a fazer nesse sentido”, conclui Carla Silva.

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